‘Absurdo total’: cientistas condenam ‘teoria’ espalhada na internet de que 5G transmite coronavírus

Teorias da conspiração dizendo que a tecnologia 5G ajuda a propagar o novo coronavírus foram desmentidas e criticadas pela comunidade científica.

Vídeos compartilhados nas redes sociais britânicas mostram imagens de antenas (ou postes) de telefonia móvel pegando fogo em Birmingham e em localidades do condado de Merseyside, onde fica a cidade de Liverpool, na Inglaterra, junto a afirmações da “teoria”.

 

As postagens sugerem que o 5G, a mais nova geração de telefonia móvel e que depende de sinais transmitidos por ondas de rádio, é de alguma forma responsável pela transmissão do coronavírus.

As teorias parecem ter surgido por meio de publicações no Facebook no final de janeiro, na mesma época em que os primeiros casos foram registrados nos Estados Unidos.

A falsa teoria aponta para dois pontos: o primeiro, afirma que o 5G pode suprimir o sistema imunológico, tornando as pessoas mais suscetíveis a pegar o vírus. O segundo, que o vírus pode, de alguma forma, ser transmitido através do uso da tecnologia 5G.

Ambas as ideias são “um absurdo total”, diz Simon Clarke, professor associado de microbiologia celular da Universidade de Reading, no Reino Unido. “A ideia de que o 5G reduz o sistema imunológico não resiste ao escrutínio científico”, diz Clarke.

“Seu sistema imunológico pode ser afetado por todo tipo de coisa: por estar cansado um dia ou por não ter uma boa dieta. Essas flutuações não são grandes, mas podem torná-lo mais suscetível a pegar vírus.”

Embora ondas de rádio muito fortes possam causar algum tipo de aquecimento, o 5G não é suficientemente potente para aquecer alguém ao ponto de causar algum efeito prejudicial.

“Ondas de rádio podem atrapalhar sua fisiologia à medida que o aquecem, o que significa que seu sistema imunológico pode não funcionar. Mas os níveis de energia das ondas de rádio 5G são minúsculos e não estão nem perto o suficiente para afetar o sistema imunológico. Existem muitos estudos sobre isso”, diz Clarke.

As ondas de rádio envolvidas no 5G ou em outras tecnologias de telefonia móvel ficam na extremidade de baixa frequência do espectro eletromagnético. Menos poderosos que a luz visível, eles não são fortes o suficiente para danificar células, ao contrário da radiação na extremidade de maior frequência do espectro, que inclui os raios solares e os raios-X usados na medicina.

Também seria impossível para a tecnologia 5G transmitir o vírus, acrescenta Adam Finn, professor de pediatria da Universidade de Bristol, também no Reino Unido.

“A atual epidemia é causada por um vírus transmitido de uma pessoa infectada para outra. Sabemos que isso é verdade. Temos até o vírus crescendo em nosso laboratório, obtido de uma pessoa com a doença. Vírus e ondas eletromagnéticas são coisas completamente diferentes”, diz ele.

Também é importante observar outro “buraco” nessa teoria: o coronavírus está se espalhando por cidades do Reino Unido onde o 5G ainda não foi implantado – e em países como Irã e o Brasil, que também ainda não implantaram a tecnologia.

Antes mesmo da crise do coronavírus, houve várias histórias cabeludas sobre o 5G circulando pelas redes sociais. Algumas foram checadas pela BBC, como uma que afirmava que a nova tecnologia apresentaria riscos à saúde.

No início deste ano, um amplo estudo da Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não-Ionizante (ICNIRP) rebateu as alegações, dizendo não haver evidências de que as redes móveis causassem câncer ou outras doenças. Mas, por algum motivo, a desinformação sobre o assunto parece ter aumentado.

A associação das operadoras britânicas Mobile UK afirmou que boatos e teorias falsas que ligam o 5G ao coronavírus são “preocupantes”, enquanto o Ministério da Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido (DCMS na sigla inglesa) reiterou que “não há absolutamente nenhuma evidência que comprove essa associação”.

Vírus invadem as células humanas ou de animais e as usam para se reproduzir, o que causa a infecção. Os vírus não podem viver muito tempo fora de um ser vivo; portanto, precisam encontrar uma maneira de entrar — geralmente por meio de gotículas de tosse ou espirros. O sequenciamento do genoma do novo coronavírus sugere que ele pulou de animais para humanos — e, depois, começou a passar de humanos para humanos.

O primeiro registro do coronavírus no Brasil foi em 24 de fevereiro. Um empresário de 61 anos, que mora em São Paulo (SP), foi infectado após retornar de uma viagem, entre 9 e 21 de fevereiro, à região italiana da Lombardia, a mais afetada do país europeu que tem mais casos fora da China.

De acordo com o Ministério da Saúde, o empresário de 61 anos tinha sintomas como febre, tosse seca, dor de garganta e coriza. Parentes dele passaram a ser monitorados. Dias depois, exames apontaram que uma pessoa ligada ao paciente também estava com o novo coronavírus e transmitiu o vírus para uma terceira pessoa. Todos permaneceram em quarentena em suas casas, pelo período de, ao menos, 14 dias.

Após o primeiro caso, outros diversos registros passaram a ser feitos no Brasil. Muitos vieram de países com inúmeros casos do novo coronavírus, mas depois foram registrados casos de transmissão local e, por fim, comunitária.

Duas semanas depois, foi anunciado que o empresário de 61 anos está curado da doença provocada pelo novo coronavírus.

A primeira morte no Brasil, de um idoso de 62 anos, foi confirmada em 17 de março. Ele morava em São Paulo (SP).

A principal recomendação de profissionais de saúde que acompanham o surto é simples, porém bastante eficiente: lavar as mãos com sabão após usar o banheiro, sempre que chegar em casa ou antes de manipular alimentos. O ideal é esfregar as mãos por algo entre 15 e 20 segundos para garantir que os vírus e bactérias serão eliminados.

Se estiver em um ambiente público, por exemplo, ou com grande aglomeração, não toque a boca, o nariz ou olhos sem antes ter antes lavado as mãos ou pelo limpá-las com álcool. O vírus é transmitido por via aérea, mas também pelo contato. Também é importante manter o ambiente limpo, higienizando com soluções desinfetantes as superfícies como, por exemplo, móveis e telefones celulares.

Para limpar o celular, pode-se usar uma solução com mais ou menos metade de água e metade de álcool, além de um pano limpo.

// BBC

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