Mulheres evangélicas são 40% das vítimas de agressões físicas e verbais no Brasil

ESPM / APAV

Com crescimento de 60% nos últimos 10 anos, os evangélicos respondem hoje por 42 milhões de brasileiros, se consolidando como a segunda religião mais popular no país de maioria católica.

O cenário atual demonstra uma mudança drástica em um país que em 1872 tinha 99,7% de seguidores do catolicismo. O avanço vertiginoso traz consigo responsabilidades das instituições para a garantia e preservação de direitos dos fiéis.

Uma das questões mais latentes da realidade brasileira, a violência doméstica segue preocupando. Para se ter uma ideia desta triste realidade, uma pesquisa realizada pela teóloga Valéria Vilhena no curso de doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, constatou que 40% das mulheres vítimas de agressões físicas e verbais de seus companheiros se declaram evangélicas.

De acordo com o Hypeness, os dados reforçam a marcação da Igreja Evangélica como abrigo de correntes conservadoras e contrárias ao desenvolvimento social. No entanto, mesmo com a oposição do casamento de pessoas do mesmo sexo, por exemplo, a Igreja Evangélica também possui linhas de pensamento mais progressistas, como o caso de Valéria Vilhena, doutora em Educação, História da Cultura e Artes, que se autointitula como uma evangélica feminista.

Responsável pela pesquisa que retratou a predominância de evangélicas entre as mulheres mais agredidas do país, Valéria criticou o uso excessivo dos pastores da teologia como justificativa para a prática das violências.

“Quando essa mulher vai procurar o seu pastor para dizer que ela está sofrendo violência, normalmente ela não recebe apoio, o pastor aconselha mais submissão, em nome de Deus: ‘seja sábia, fique calada, não enfrente’”, explica em entrevista ao UOL.

“A questão da interpretação, da hermenêutica da teologia, acaba fortalecendo ainda mais esse quadro de violência contra as mulheres no meio evangélico, porque a teologia que é passada é a da obediência ao marido. Normalmente, essas mulheres acabam culpando o satanás, o inimigo, o diabo, algo externo. Elas não conseguem olhar para a própria relação de violência que vivem”, acrescenta.

Autora do livro Uma Igreja Sem Voz: Análise de Gênero da Violência doméstica Entre Mulheres Evangélicas, Valéria não acredita na eficácia da palavra de uma comunidade religiosa que se nega em tratar dos problemas de seu tempo e restringe os espaços ocupados pelas mulheres.

Quando a igreja não discute gênero, ela nega direitos humanos. Muitas mulheres da Assembleia de Deus e da Igreja Quadrangular nem conhecem suas fundadoras ou cofundadoras. Não percebem que, no início da história dessas igrejas, os homens decidiram que as mulheres dali para a frente ficariam fora“, continua.

“Posso dizer que a maioria dos evangélicos não têm mulheres à frente dos trabalhos. Elas são bem-vindas para serem mulheres de oração, de intercessão, para arrumar a igreja, para levar toalhinha, para cuidar da limpeza da igreja e para fazer visitas. Elas estão nos espaços de serviços, não de liderança da igreja”, afirma.

Criada em uma igreja onde era pecado cortar o cabelo, se depilar ou usar maquiagem, a teóloga diz ter se reconhecido feminista desde muito cedo. Presente em diversos templos cristãos, Valéria percebeu outras restrições contra mulheres e isso acabou contribuindo para seu afastamento da igreja. Mas não da fé, garante. Tanto que em 2015, fundou ao lado de duas mulheres, o movimento Evangélicas Pela Igualdade de Gênero (EIG).

Bancada Evangélica

Decisiva em diversas aprovações de leis e projetos políticos, a influência da bancada evangélica é grande. Representada majoritariamente por homens, o movimento muitas vezes radical, faz pressão contra a discussão de valores progressistas.

“Pautar políticas públicas baseadas na minha fé dentro de um Estado laico é, no mínimo, um grande retrocesso. Eu penso até ser ilegal. Combater a violência doméstica é aliviar o SUS, do ponto de vista econômico e de saúde pública. Quando a bancada evangélica sai pregando nos púlpitos que está lá para representar a vontade de Deus ou para proteger o único modelo de família, está pautando, na realidade, homofobia, racismo, sexismo e as violências que são perpetradas por conta dessas questões, que também são de gênero”, salienta a teóloga Valéria Vilhena.

A proposta da pesquisa chama a atenção para os danos causados por uma sociedade refém de conceitos conservadores e que insiste em não encarar problemas como o machismo e desigualdade entre gêneros.

Entretanto, o mapeamento também dá voz para um pensamento cada vez maior dos evangélicos defensores do fim da intolerância, seja ela religiosa, social ou de gênero, provando que existem formas de se chegar a um consenso e pensar a religião como um espaço de respeito e união.

Aliás, exemplos não faltam, caso dos evangélicos que se uniram e doaram R$ 11 mil para a reconstrução de um terreiro incendiado no Rio de Janeiro.

Queremos apostar no diálogo, no acolhimento, no respeito às diferenças. E sabemos que isso não é fácil ou simples. Mas, a partir da fé que professamos, é o caminho que temos que fazer. É um processo de conversão do olhar, do coração”, disse o Pastor Edson Fernando, há 25 anos no comando da Igreja Cristã de Ipanema.

Ciberia // Hypeness

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1 COMENTÁRIO

  1. Quanto aos números apresentados pela Pesquisadora eu não posso comentar, pois não conheço o trabalho. Porém a afirmativa de que Pastores aconselham as mulheres vítimas de violência do marido a se submeter em nome da fé evangélica, não pode ser tratado como um fato da maioria, mas uma ação de uma pequena minoria que “se diz ser pastor”, mas não conhece Teologia e muito menos sabe interpretar as Escrituras. Não coloque Pastores sérios e comprometidos com a Palavra de Deus no mesmo balaio de mercenários e usurpadores.

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