Diplomatas criticam uso da força para reprimir manifestações e pedem fim de “tentações autoritárias”

Tomaz Silva /Agência Brasil

-

Um grupo de 93 diplomatas e 25 oficiais e assistentes de chancelaria do Itamaraty divulgou, na quarta-feira (31), uma carta pública criticando o “uso da força” para conter manifestações e pedindo que líderes políticos “abram mão de tentações autoritárias, conveniências e apegos pessoais ou partidários em prol do restabelecimento do pacto democrático no país”.

O texto foi escrito coletivamente por diplomatas distribuídos por representações brasileiras em diferentes partes do mundo – de Nova York a Moscou -, sem a participação da cúpula do Ministério das Relações Exteriores, chefiado desde março pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que participa nesta semana de reuniões em Washington (EUA).

Repudiamos o uso da força para reprimir ou inibir manifestações. Cabe ao Estado garantir a segurança dos manifestantes, assim como a integridade do patrimônio público, levando em consideração a proporcionalidade no emprego de forças policiais e o respeito aos direitos e garantias constitucionais”, diz o texto.

Na carta pública, intitulada “Diplomacia e Democracia”, os autores se dizem preocupados com o “acirramento da crise social, política e institucional que assola o Brasil”, pedem diálogo para a “retomada de um novo ciclo de desenvolvimento, legitimado pelo voto popular” e afirmam que conquistas importantes para a sociedade e a relevância internacional do país “estão ameaçados”.

“Diante do agravamento da crise, consideramos fundamental que as forças políticas do país, organizadas em partidos ou não, exercitem o diálogo, que deve considerar concepções dissonantes e refletir a diversidade de interesses da população brasileira”, diz o texto (leia a íntegra no fim desta reportagem).

Segundo a BBC Brasil apurou em conversas com sete dos diplomatas que assinam o texto, o estopim para a carta foi uma nota oficial divulgada pelo Itamaraty na sexta-feira passada, em resposta a críticas feitas por órgãos internacionais de direitos humanos sobre a violência policial no país.

No texto, endereçado a representantes das ONU e da OEA (Organização dos Estados Americanos), o Ministério das Relações Exteriores surpreendeu ao adotar uma linguagem dura ao se referir aos organismos internacionais.

“Tendencioso”, “desinformado”, “má-fé”, “cinismo” e “com fins políticos inconfessáveis” foram alguns dos termos usados pelo Brasil como resposta às críticas feitas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Em entrevista concedida à BBC Brasil e em notas divulgadas à imprensa, porta-vozes das duas entidades criticaram a violência policial em protestos contra o governo, em Brasília, em operações urbanas na região conhecida como cracolândia, em São Paulo, e em reintegrações de posse de terrenos ocupados por sem-terra, como a que gerou 10 mortes no interior do Pará.

Procurado pela BBC para comentar a carta dos diplomatas, o Itamaraty não se posicionou até a publicação da reportagem.

// BBC

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Análogo de Buraco negro de laboratório se comporta como Stephen Hawking previu

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia Technion-Israel tentaram confirmar duas das previsões mais importantes de Hawking, que a radiação hawking surge do nada e que não muda de intensidade ao longo do tempo, o que significa …

SP concentra 40% dos feminicídios com 200 mortes, diz estudo do Observatório de Segurança

A Rede de Observatórios da Segurança publicou seu relatório de dados sobre a violência contra a mulher do ano de 2020. O boletim, que traz números de cinco estados (SP, RJ, PE, CE e BA), mostrou …

Em pior momento da pandemia, Bolsonaro critica 'mimimi' e diz que brasileiro tem que enfrentar vírus

Um dia após o registro de novo recorde diário de mortes pela covid-19 no país, o presidente Jair Bolsonaro deu uma série de declarações dando a entender que o choro pelas vítimas é "frescura" e …

89% dos norte-americanos veem a China como inimiga ou concorrente

A maioria dos norte-americanos não vê a China como parceira e expressa preocupações crescentes sobre o histórico de direitos humanos e as práticas econômicas de Pequim, revelou uma nova pesquisa do Pew Research Center nesta …

Governadores pedem a Bolsonaro maior esforço por vacinas

Em meio ao pior momento da epidemia de covid-19 no Brasil, os governadores de 14 estados brasileiros enviaram nesta quinta-feira (04/03) uma carta ao presidente Jair Bolsonaro pedindo um maior esforço para a compra de …

Nova Zelândia lança alerta de tsunami e ordena retirada de habitantes da costa nordeste

Um alerta de tsunami foi emitido após um forte terremoto de magnitude 7,8 nas remotas ilhas Kermadec, na Nova Zelândia, no oceano Pacífico. As autoridades determinaram a retirada de todos os habitantes do litoral …

União Europeia começa exame contínuo da vacina russa Sputnik V

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) deu início ao exame contínuo do dossiê de registo da vacina Sputnik V para verificar sua conformidade com as normas europeias de eficácia, segurança e …

Afrouxar uso de máscaras é "pensamento neandertal", diz Biden

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, criticou nesta quarta-feira (03/03) a decisão dos estados do Texas e do Mississippi de suspender a obrigatoriedade do uso máscaras para conter a propagação do coronavírus. O democrata …

Argentina só vai habilitar motoristas que fizerem curso sobre igualdade de gênero

A partir de março e 2021 quem quiser tirar carteira de habilitação na Argentina terá de estudar mais do que somente as leis de trânsito, o funcionamento do automóvel e a própria condução de um …

ONGs denunciam grupo Casino na Justiça francesa por desmatamento na Amazônia

Organizações de defesa do meio ambiente e dos povos indígenas denunciaram nessa quarta-feira (3) o grupo Casino na Justiça francesa. A empresa é acusada de responsabilidade no desmatamento da Amazônia através da venda de …