Disputa aberta entre Joe Biden e Vladimir Putin pode gerar nova espiral de tensões

Na avaliação de Steven Ekovich, professor de Relações Internacionais na Universidade Americana de Paris, o presidente americano, Joe Biden, foi “virulento” ao rotular o líder russo, Vladimir Putin, de “assassino”. Mas teve o mérito de não se mostrar um capacho como fazia o republicano Donald Trump.

O especialista lembra que os serviços de Inteligência americanos publicaram um novo relatório nesta semana, apontando claramente que a Rússia tentou interferir na eleição presidencial de 2020 nos Estados Unidos.

“Esse documento mostrou que o Kremlin tentou interferir no processo eleitoral com o objetivo de minar a confiança dos americanos em Joe Biden e no Partido Democrata, por meio de várias agências de Moscou e de gente muito próxima do presidente”, aponta o especialista ouvido pela RFI. “Não vejo ainda uma grande mudança de direção na política americana em relação aos antigos satélites soviéticos, mas agora temos um presidente cujas declarações se alinham com a política diplomática e de defesa dos Estados Unidos em relação à Rússia”, destaca o analista.

Rotulado por Biden na quarta-feira (17) como um “assassino” que terá de “pagar” por sua interferência na campanha americana, Putin reagiu com ironia: “Aquele que diz é que é”, disse Putin, sorrindo, segundo declarações transmitidas pela televisão russa. “Não é apenas uma expressão infantil, uma piada. O significado é profundo e psicológico. Sempre vemos no outro as nossas próprias características”, declarou.

O líder do Kremlin, que também disse desejar “boa saúde, sem qualquer ironia”, ao presidente Biden, reafirmou que Moscou não se intimidaria, um ‘leitmotiv’ de sua diplomacia.

Putin manteve relações tensas com todos os cinco presidentes dos Estados Unidos desde que assumiu o poder no final de 1999. A questão que ainda está no ar para os analistas é saber se a disputa aberta com Biden pode mergulhar a relação entre os dois rivais geopolíticos em uma nova espiral de tensões, apesar de ambas as potências terem manifestado vontade de cooperar em casos de interesse comum.

Bill Clinton: o peso de Kosovo

Se os contatos entre Boris Yeltsin e o americano Bill Clinton foram calorosos, velados pelos planos de expansão da OTAN para o leste, foi a guerra do Kosovo que estragou a lua de mel pós-Guerra Fria. Assim que Yeltsin renunciou, em 31 de dezembro de 1999, Washington já suspeitava de seu sucessor, Vladimir Putin.

Ele é “um homem duro… muito determinado, voltado para a ação”, disse a chefe da diplomacia americana na época, Madeleine Albright. “Teremos que monitorar suas ações com muito cuidado”, acrescentou.

No entanto, na primeira cúpula Clinton-Putin em junho de 2000, o americano elogiou publicamente um presidente capaz de construir uma “Rússia próspera e forte, ao mesmo tempo protegendo as liberdades e o Estado de direito”.

George W. Bush: da camaradagem à desconfiança

Ao final de sua primeira reunião com Putin, em 16 de junho de 2001, Bush filho disse: “Pude ver sua alma, a de um homem profundamente dedicado ao seu país… Eu o considero um líder extraordinário”.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, Putin imediatamente ofereceu ao presidente Bush sua solidariedade na “guerra ao terrorismo”.

Em dezembro de 2001, Washington se retirou do tratado de mísseis antibalísticos ABM de 1972 para criar um escudo antimísseis na Europa Oriental, denunciado por Moscou.

Em 2003, Moscou condenou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e, um ano depois, denunciou a influência de Washington na “revolução laranja” da Ucrânia.

Barack Obama: um “reinício” fracassado

Em 2009, o presidente Obama lançou o conceito de um “reinício” dessa relação. Um ano antes, Putin havia se tornado primeiro-ministro de seu protegido Dmitri Medvedev.

Pouco antes de sua primeira visita à Rússia em julho de 2009, Obama disse que Putin “tem um pé na velha maneira de fazer negócios e outro na nova”.

Apesar dos sucessos iniciais – incluindo a assinatura de um novo tratado de desarmamento nuclear em 2010 –, a tentativa de aproximação capotou.

Em agosto de 2013, Moscou concedeu asilo político ao fugitivo americano Edward Snowden. Dias depois, Obama cancelou uma cúpula com Putin, lamentando o retorno a “uma mentalidade da Guerra Fria“.

A crise ucraniana de 2014 – com a anexação da Crimeia pela Rússia e sanções econômicas contra Moscou –, e a intervenção da Rússia na Síria em 2015, prejudicaram ainda mais as relações bilaterais.

Donald Trump: o fantasma do “caso russo”

O candidato Donald Trump prometeu restaurar boas relações com a Rússia. Após sua vitória, seu mandato é atormentado por acusações de interferência russa nas eleições.

Em uma entrevista coletiva com Putin, em julho de 2018, Trump pareceu dar mais peso às negações de seu homólogo russo do que às conclusões do FBI. “O presidente Putin acabou de dizer que não era a Rússia… E não vejo por que deveria ser”, disse ele.

Diante do clamor que abalou até mesmo seu campo republicano, ele diz que errou ao falar. “Gosto de Putin, ele gosta de mim. Nós nos damos bem”, disse Trump novamente em setembro de 2020, durante um discurso de campanha.

// RFI

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