“Extraterrestre” Simone Biles quebra tabu e marca esporte olímpico ao privilegiar “saúde mental”

Talvez esta terça-feira (27) fique marcada como o dia em que a “extraterrestre”, a megacampeã mundial (19 vezes) e olímpica (4 vezes), a mulher mais condecorada da história da ginástica, a norte-americana Simone Biles, 24 anos, tenha desistido de competir porque “não se sentia à altura”. Ou talvez o curso da história mostre não só a atletas de alto nível, mas também a fãs e patrocinadores, a importância de se privilegiar o bem-estar e a “saúde mental”, sem medo ou hipocrisia, quebrando tabus.

De qualquer forma, esta terça-feira está longe de ser a primeira vez que a atleta, nascida em 1997 no Meio-Oeste dos Estados Unidos, abordou temas “sensíveis” e falou abertamente sobre situações que a colocaram em risco, e sobre como lidou com elas.

Simone Biles vem demonstrando, ao longo de sua espetacular e fulgurante carreira, a responsabilidade dos campeões em seus posicionamentos públicos e escolhas.

Quem acompanha de mais perto a trajetória de Biles deve se lembrar do início deste mês de julho, quando a ginasta falou publicamente sobre a agressão sexual que sofreu no passado por parte do ex-médico da equipe de ginástica olímpica, Larry Nassar, e sobre como superou o episódio com a ajuda de sua mãe, Nellie, compartilhando alguns detalhes sinceros sobre o processo de cura na nova série do Facebook Watch, Simone vs. Herself.

Biles também falou sobre o efeito do trauma em sua saúde mental. “Eu estava super deprimida e não queria sair do meu quarto nem ir a lugar nenhum. Eu simplesmente excluía todo mundo ”, disse na ocasião. “Com as ginastas, se você se machuca, fica tipo,‘ Ok, meu tempo de cura é de quatro a seis semanas’”, disse ela no mini-documentário.

“Mas com algo traumático como este, é mais difícil de processar porque não há um tempo de cura definido. Não há limite de tempo ou tempo de cura para isso, então você simplesmente faz isso, dia após dia”, disse Biles, cuja exposição pública do caso ajudou a tornar público o assédio de Nassar [que tinha um histórico de agressão com outras ginastas] e a construir um centro de treinamento para jovens atletas que inclua a presença de pais e mães na rotina.

“Dia após dia”, aliás, foi a expressão usada por Simone Biles nesta terça-feira, em frente ao grupo de jornalistas que se amontoava em Tóquio para entender os motivos de sua substituição na final por equipes da ginástica artística, competição de enorme peso simbólico para os Estados Unidos, país que hoje perdeu sua invencibilidade de oito anos para a Rússia.

“Vamos ver um dia de cada vez”, afirmou, questionada se participará de todas as finais para as quais se classificou, entre elas a individual geral, e no solo, salto e trave. “Tenho que me concentrar na minha saúde mental e não me colocar em risco“, admitiu, numa brecha sem precedentes entre atletas de altíssimo nível.

Simone terá um dia de folga nesta quarta-feira (28), quando decidirá o que vai fazer durante o resto de sua participação nestes Jogos Olímpicos de Tóquio. Mas não foi apenas sobre a agressão sexual que sofreu que Simone Biles soltou a voz e se posicionou publicamente. Ela é uma atleta reconhecida por usar suas gigantescas redes sociais [1,3 milhão de seguidores no Twitter, 5 milhões no Instagram] para falar sobre as questões que mais importam para ela. Isso inclui o movimento Black Lives Matter e os assassinatos de Breonna Taylor, George Floyd e Ahmaud Arbery.

Em uma entrevista para a Vogue norte-americana, há cerca de um ano, Biles abriu o verbo sobre a questão do racismo nos Estados Unidos e os protestos por justiça racial.

“Precisamos de mudanças”, disse. “Precisamos de justiça para a comunidade negra. Com os protestos pacíficos, é o início da mudança, mas é triste que tenha levado tudo isso para as pessoas ouvirem. O racismo e a injustiça existem há anos com a comunidade negra. Quantas vezes isso aconteceu antes de termos telefones celulares?”, argumentou, em alusão às imagens da agressões filmadas, estopim de várias denúncias.

Uma história de resiliência

Quando a pequena Simone descobriu a ginástica aos seis anos, durante uma excursão escolar, um treinador a localizou imediatamente. A história poderia soar como um conto de fadas, mas não é. Durante sua infância, Biles viveu com uma mãe “viciada em álcool e drogas”, que “vai e vem na prisão”. Ela e seus três irmãos foram então colocados em um orfanato, confidenciou emocionada na televisão norte-americana em 2017.

Eu nunca pude contar com minha mãe biológica. Lembro que estava sempre com fome, sempre com medo.” “Meus avós me salvaram”, diz ela sobre Nellie e Ron Biles, que ela considera seus pais e que mudaram o curso de sua história ao adotá-la e à irmã mais nova, enquanto o resto dos irmãos ficou com outros membros da família.

Aos oito anos, Biles teve um encontro decisivo com Aimee Boorman, a técnica que a levaria ao topo, e também a sua “segunda mãe”, que lhe garantiria o equilíbrio, tanto nos aparelhos de ginástica como na vida. Foi sob suas asas que, aos 16 anos, ela se sagrou campeã mundial pela primeira vez, em 2013. Com ela também conquistou o pódio olímpico, em 2016.

Quando Boorman partiu para a Flórida, ela voltou a treinar sob a direção dos franceses Laurent Landi e Cécile Canqueteau-Landi, após um ano sabático pós-olímpico. Pouco depois que Biles revelou outra lesão íntima: em janeiro de 2018, ela contou ser uma das mais de duzentas vítimas de Larry Nassar, condenado por centenas de agressões sexuais cometidas ao longo de duas décadas.

Nesse momento, a “extraterrestre” Simone Biles não hesitou em denunciar publicamente a passividade das autoridades esportivas norte-americanas.

Quando a federação norte-americana de ginástica desejou “feliz aniversário” à atleta, Biles respondeu sem rodeios que a organização faria melhor em “lançar uma investigação independente sobre a violência sexual com atletas”. “Extraterrestre” sim, fazendo valer o epíteto dado pela imprensa mundial após suas perfomances incríveis, seja nos aparelhos de ginástica, seja na vida.

Depois de “tudo que passei com a federação, redescobrir o amor pelo esporte e ser apenas Simone tem sido um longo caminho”, diz ela. “Sou muito mais do que isso“, insiste. “Sou única, inteligente, talentosa, motivada e apaixonada. Prometi a mim mesma que a minha história seria muito maior do que isso.”

// RFI

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