Jovem da periferia de SP que chegou a Harvard sonha em mudar educação brasileira e entrar para a política

(dr) Tabata Amaral de Pontes

A jovem Tabata em Harvard

A mãe de Tabata Amaral de Pontes acaba de completar o ensino médio. O pai, que lutava contra o vício em drogas, morreu sem ter terminado o ensino fundamental. Já Tabata entrou para uma das melhores universidades do mundo, aos 18 anos, com bolsa integral, quando já havia representado o Brasil em cinco competições internacionais de ciências.

Ela cresceu na periferia de São Paulo, no bairro da Vila Missionária, a cerca de 30 quilômetros do centro. O pai era cobrador de ônibus e a mãe, vendedora e diarista.

O bom desempenho em olimpíadas escolares fez com que Tabata ganhasse uma bolsa do colégio particular Etapa, para cursar o ensino médio. A instituição chegou a pagar um hotel perto da escola para ela morar, uma vez que os pais não tinham condições de arcar com as despesas de transporte e alimentação.

Ao terminar o ensino básico, a jovem deu aula de química e astrofísica no colégio, antes mesmo de entrar na faculdade.

Apesar de ter garantido uma vaga no curso de Física na Universidade de São Paulo (USP), Tabata sonhava em estudar fora. Ela se candidatou então a bolsas de estudo e foi aceita em seis das principais universidades americanas: Harvard, Yale, Columbia, Princeton, Pensilvânia e o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).

Optou por Harvard.

Hoje, aos 23 anos, ela é formada em Ciências Sociais e Astrofísica. E é fundadora de dois movimentos nacionais: o Mapa da Educação e o Acredito. Apesar da origem humilde, ela se recusa a atribuir suas conquistas à meritocracia.

“Por muito tempo, a minha história foi contada quase como uma história de herói, de um exemplo de ‘quem quer, consegue, é só se esforçar’. Mas isso não está certo. De fato, eu me esforcei muito, mas é preciso ter acesso a oportunidades e a crença de que você pode sonhar diferente, sonhar grande”, afirma.

“Mas a gente está em um país onde há muitas desigualdades. Minha crítica não é quanto à meritocracia em si, mas em querer aplicar a meritocracia quando o ponto de partida é desigual”, acrescenta.

Tabata conversou com a BBC do aeroporto de São Paulo, após dar uma palestra em uma escola pública. De lá, seguiria para Rio de Janeiro e Salvador, onde também participaria de um evento com alunos da rede pública.

“Na palestra em Parelheiros (extremo sul de São Paulo), perguntei: quem nasce aqui tem que se esforçar o mesmo tanto do quem nasce no centro? E todos responderam ‘não, a gente precisa se esforçar muito mais'”, conta.

Política e educação

Em sua tese de graduação, Tabata estudou a interferência da política na educação no Brasil e visitou dezenas de secretarias de educação municipais. Para ela, essa relação ainda é nociva no Brasil.

A educação é uma grande moeda de troca nesse país. A gente não teria a pachorra de fazer o que se faz com a pasta da Educação com a Fazenda, por exemplo. A educação precisa ser mais técnica e sofrer menos com a politicagem. A política é um grande empecilho para a educação de qualidade, e ela tem que ser o motor disso”, avalia.

Apesar de reconhecer os avanços nas últimas décadas, Tabata afirma que os desafios continuam enormes.

“Há um consenso no meio da educação de que a maior vitória das últimas duas décadas foi o acesso. Temos que comemorar, pois temos quase 100% das crianças no ensino fundamental, apesar de o ensino médio ainda ser uma calamidade. Mas não adianta nada dar acesso e não ter qualidade”, afirma.

Renovação política

Ainda no ensino médio, Tabata já se destacava nas ciências exatas. Foi campeã de diversas olimpíadas escolares e colecionou medalhas em química, matemática e robótica, entre outras áreas.

Mas, ao ser aprovada em Harvard, perdeu o pai para as drogas e viu o irmão mais novo, Allan, aluno de escola pública, desistir de fazer faculdade ao não conseguir passar em nenhum vestibular.

Esse cenário, aliado à vontade de transformar a educação pública, levou a jovem a escolher o curso de Ciências Políticas, deixando a Astrofísica como segunda opção.

“Acho que tem um preconceito com a política e com o estudo dela aqui no Brasil. Na minha turma, os melhores alunos faziam estágio e iam trabalhar na Casa Branca. Aqui no Brasil, isso jamais aconteceria. As pessoas se formam e querem ir para o mercado de trabalho, não para o governo ou para a política”, diz.

“Eu fiz ‘government’ (governo), que é o segundo curso com mais prestígio em Harvard, isso também não aconteceria aqui – a gente olha como se tudo fosse sujo, corrupto, algo com que a gente não quer se envolver”, acrescenta.

Tabata quer se envolver – e já começou a organizar algumas iniciativas.

Em 2014, ela fundou o Mapa da Educação, movimento social que trabalha com o engajamento político e educacional de jovens, além de fazer campanhas para pressionar governantes por mudanças no setor.

O grupo, que conta atualmente com mais de cem pessoas, trabalhou na campanha eleitoral de 2014, realizando debates e mobilizando jovens.

Fizemos uma mobilização gigante, mas não mudamos nenhum voto. Por isso, revimos nossas práticas e agora trabalhamos na formação de ativistas políticos, e em campanhas práticas para mudanças”, conta.

“Acredito”

O aprendizado a fez dar um novo passo em direção ao mundo da política. Desta vez, mais direto. No início deste ano, ela fundou, com outros dois colegas, o movimento Acredito, que ela descreve como um grupo “suprapartidário, nacional, de renovação politica”.

“A crise política e toda a mobilização que veio a partir de 2013 tiveram um impacto nos jovens. O prazo de validade do tipo de política que está aí já passou faz tempo. Sim, estamos indignados e vamos transformar nossa indignação em ação“, diz.

“Há duas reações possíveis: uma é recorrer ao extremismo, às fake news, usar práticas políticas antigas, falar do retorno da ditadura. E a outra, que é a que eu estou seguindo, é renovar, participar, agir“, explica.

O Acredito agrupa mais de 1,1 mil jovens em 11 Estados, para debater política e discutir agendas e também identificar lideranças e lançar, na campanha de 2018, 30 candidatos que nunca tiveram mandato. Tabata admitiu que há conversas com alguns partidos, embora não cite as legendas.

“Não faz sentido divulgar nomes porque não temos parcerias formais. Mas não conversamos com partidos que apoiam extremismos, e nosso diálogo é com partidos de centro que tenham uma campanha ética. Não queremos ficar nessa de direita e esquerda, queremos olhar adiante“, revela.

Queremos jovens que não sejam de família política. E vamos dar apoio como movimento porque senão a chance de se corromper ou ficar desiludido e sem ação é grande”, completa.

Fundado por Tabata ao lado do professor Felipe Oriá e do engenheiro Frederico Lyra, também com passagem por Harvard, o Acredito já foi comparado a outros movimentos – e chegou a ser chamado de “MBL Progressista”, em referência ao Movimento Brasil Livre, liderado por Kim Kataguiri. Ela discorda da comparação.

“Eu não sei de onde surgiu essa maluquice. Não temos nada a ver com o MBL. Principalmente porque temos práticas e valores diferentes. Não temos nem diálogo, porque há muitas divergências”, conta.

Envolvimento político

Mesmo que não saia candidata em 2018, Tabata não esconde o desejo de se envolver mais ativamente na política.

“Sonho em um dia me candidatar, mas não tenho ideia de quando isso vai acontecer, nem para que cargo. Vou fazer quando eu sentir que as pessoas se sentem representadas por mim e pelas ideias que eu defendo. É meu sonho porque é onde eu posso ter o maior impacto”, afirma.

“Para mim, não é uma questão de ter estômago para o jogo político ou não. Quando você tem um valor, é quase como se você não tivesse escolha. E a importância da educação, da ética, da transparência não é negociável para mim. Claro que o caminho vai ser mais difícil, mas eu não tenho escolha, e não vou fazer isso sozinha“, conclui.

Ciberia // BBC

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