Mil anos antes de Cabral, índios do Sul já tinham cães domesticados

Tuonenkalla / Deviant Art

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Ninguém sabe ao certo como era o sorro, que vivia mais ou menos 1.700 anos antes do presente e comia a mesma alimentação que os indígenas

A equipe da Universidade Federal de Pelotas que desenvolve pesquisas com outras universidades do Brasil e do exterior teve uma grande surpresa ao realizar trabalhos de campo no extremo Sul do país: encontrou vestígios de um cachorro domesticado pelos indígenas há 1.500 anos.

A pesquisa iniciada em 2000 e que avançou a partir de 2010, realizada por diversos especialistas da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, levantou os hábitos dos ancestrais indígenas que viveram no Sul mais de mil anos antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus.

O objetivo inicial da pesquisa, porém, resultou na descoberta de um fato adicional, a de que já naquele período os indígenas do Sul do Brasil praticavam a domesticação de cachorros.

Fósseis destes animais foram encontrados na região conhecida como Pontal da Barra. Chefe da equipe de pesquisadores, o arqueólogo Rafael Milheira conta em entrevista exclusiva à Sputnik os detalhes do trabalho, coordenador do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas

Além de Rafael Milheira, a pesquisa contou com vários especialistas, entre os quais uma de suas ex-alunas, a zooarqueóloga Priscilla Ulguim, que atualmente faz doutorado na Universidade de Teeside, no Reino Unido.

De acordo com o professor Milheira , as pesquisas vão prosseguir, inclusive para determinar mais hábitos daqueles indígenas e possivelmente a espécie (ou as espécies) dos cães domesticados pelos indígenas sulistas.

Para isso, a equipe contará com a ajuda de outros pesquisadores e geneticistas do exterior, aos quais enviou amostras dos fósseis encontrados.

“É uma pesquisa que viemos desenvolvendo desde o início do ano 2000 no sul da lagoa dos Patos, entre os municípios de Pelotas e Rio Grande, na região que chamamos de Estuário da Laguna dos Patos, onde sabemos que distintos grupos indígenas habitaram desde pelo menos uns 2.500 anos antes da atualidade”, diz Milheira.

“Nós viemos trabalhando com mapeamento, registro, identificação de sítios arqueológicos indígenas, tentando identificar as áreas e o período de ocupação inicial e final e alguns dados sobre o processo de ocupação no sentido de demografia, de amplitude de ocupação”, conta.

A equipa pretendia identificar “aspectos da vida cotidiana, aspectos simbólicos, como e onde enterravam seus parentes, que tipo de alimentação tinham, como manejavam plantas e sedimentos na construção e conformação desses lugares e dessas paisagens regionais”, explica o arqueólogo.

“Desde 2010 nós estamos realizando escavações numa área muito importante do município, chamada Pontal da Barra, uma área que está em processo de destruição, e que é extremamente importante, do ponto de vista arqueológico, para a ciência mundial”, acrescenta.

“Em uma das escavações identificamos os dois dentes que naquele primeiro momento pareciam já ser de cachorro, de Canis familiaris, que é o cachorro doméstico”, diz Milheira.

Os dois dentes foram analisados por arqueólogos da Argentina, especializados em zooarqueologia, que conseguiram identificar que se trata, de fato, do cachorro domesticado.

Ainda não foi possível identificar a espécie deste cachorro.

“Nós só conseguimos dizer se ele é o cachorro doméstico ou se seria um lobo, ou se seria o que nós chamamos de sorro, que é um cachorro selvagem. A identificação da espécie seria um segundo passo, ainda não chegamos lá”, diz o professor Milheira.

“Até o momento o que sabemos é que é um cachorro, que vivia mais ou menos 1.700 anos antes do presente, comia a mesma alimentação que os indígenas, e provavelmente tinha sua dieta alimentar básica de peixe da lagoa dos Patos.”

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