Cada ponto brilhante neste novo mapa cósmico é um buraco negro supermassivo

A equipe internacional sinterizou um conjunto tão impressionante quanto inédito de sinais de rádio emitidos por buracos negros supermassivos.

Se tivéssemos um telescópio capaz de mostrar quaisquer objetos do universo, independentemente de quão distantes eles estão, quantos corpos poderíamos ver? Talvez todo o campo de visão ficaria preenchido e ainda não poderíamos contabilizar todas as coisas que estão lá fora, no cosmos. Até mesmo os mais misteriosos de todos, os buracos negros, se revelariam por toda a parte. Pode parecer exagero, mas uma imagem publicada nesta segunda-feira (22) mostra quase isso.

Embora buracos negros sejam invisíveis — a luz não pode escapar do horizonte de eventos e, portanto, não viaja até nós para revelar o objeto com o qual ela interagiu —, existem algumas formas de detectá-los. Uma delas é através dos sinais de rádio vindos do espaço. É que quando a matéria vizinha se aproxima de um buraco negro, ela forma discos de acreção ao redor do horizonte de eventos. Esses discos giram ao redor da singularidade (o pequeno coração do buraco negro) e fica super aquecido. Assim, essa matéria emite sinais de rádio.

Essas emissões podem ser discretas ou incrivelmente intensas. Os astrônomos chamam isso de “fontes de rádio”, ao menos enquanto eles não estiverem certeza de que se trata de um buraco negro, já que existem outros tipos de emissores de rádio. Mas no caso do centro de uma galáxia, quando isso acontece é quase certo que se trata de um buraco negro supermassivo. Esses colossos invisíveis estão presentes na região central de cada galáxia, e quando estão ativos, isto é, consumindo matéria e emitindo radiação, são chamados de quasares.

Pois bem, se existe um buraco negro supermassivo para cada galáxia, são bilhões deles. Muitos são ativos e emitem sinais de rádio extremamente poderosos. Se pudéssemos vê-los no céu noturno, ou melhor, ver seus discos de matéria super aquecida, brilhando nos centros de suas galáxias, quantos seriam? É isso o que o mapa publicado na Astronomy & Astrophysics tenta responder. A imagem foi gerada através de uma rede de radiotelescópios chamada Low-Frequency Array, ou simplesmente LOFAR, espalhadas em vários países da Europa através de 52 matrizes.

A equipe internacional, liderada por Francesco de Gasperin, sinterizou um conjunto tão impressionante quanto inédito desses sinais de rádio emitidos por buracos negros supermassivos. “Este é o resultado de muitos anos de trabalho em dados incrivelmente difíceis”, conta Gasperin. “Tivemos que inventar novos métodos para converter os sinais de rádio em imagens do céu”, disse ele.

Para entender melhor o que estamos vendo nessa imagem, a primeira coisa é saber que esses pontos brancos não são estrelas, tampouco galáxias. São buracos negros. Mais impressionante ainda é o fato de que este mapa cobre apenas 2% do céu total! Para produzir este mapa, a equipe precisou combinar os dados de 256 horas de observações do céu do hemisfério norte.

Eles também usaram supercomputadores com novos algoritmos que corrigem a distorção que a ionosfera do planeta Terra causa nos sinais de rádio quando eles chegam em nosso planeta. A pesquisa continuará, até que todo o hemisfério norte seja mapeado, e a equipe espera que até lá hajam mais de 600 mil buracos negros supermassivos identificáveis. A imagem abaixo mostra o que já foi mapeado e o que ainda falta. O espaço observado pelos radiotelescópios corresponde apenas aos pontos amarelos.

No final de 2022, a equipe do LOFAR espera já ter observado as regiões representadas pelos pontos vermelhos e, em algum momento, o levantamento de todo o hemisfério norte estará completo. A pesquisa fornecerá também ajudará a entender melhor como nossa própria atmosfera interfere nos dados obtidos pelos telescópios, o que pode levar a novos avanços na astronomia.

Outro benefício é que os dados do LOFAR — que obtém sinais de rádio em frequência ultrabaixa em alta resolução — poderão impactar os modelos físicos para galáxias e núcleos ativos, além de aglomerados de galáxias e outros campos de pesquisa, de acordo com os pesquisadores.

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Por que iceberg do tamanho do Rio de Janeiro que se desprendeu da Antártida anima cientistas?

Um iceberg gigante de cerca de 1.270 km² (a cidade do Rio de Janeiro tem 1.255 km²) quebrou e se desprendeu da Antártida, gerando euforia na comunidade científica. Na sexta-feira (26/2), instrumentos na superfície da plataforma …

Coronavírus: Por que vacinação sem lockdown pode tornar Brasil 'fábrica' de variantes superpotentes

O cenário atual no Brasil, que combina início da vacinação com transmissão descontrolada da covid-19, pode tornar o país uma "fábrica" de variantes potencialmente capazes de escapar por completo da eficácia das vacinas. Esta é …

Esquema de venda de vacinas falsas da COVID-19 é descoberto pela Interpol

Na última quarta-feira (3), autoridades da África do Sul apreenderam centenas de vacinas falsas da COVID-19, esquema que já havia sido alertado pela Interpol devido às disputas pelo imunizante no mundo inteiro. No país africano, foram …

Egito descobre cemitério de 2 mil anos com 600 cães e gatos

Pesquisadores poloneses encontraram cerca de 600 restos mortais de animais em um cemitério de dois mil anos, no Egito. De acordo com os cientistas, os corpos encontrados na necrópole são de gatos (cerca de 90% deles), …

Nova superterra encontrada pode dar pistas sobre vida fora do Sistema Solar

Um novo exoplaneta detectado orbitando uma estrela relativamente perto do nosso Sistema Solar, pode potencialmente ajudar a resolver enigmas sobre vida alienígena. Um exoplaneta com uma massa 2,8 maior do que a da Terra designado Gliese …

China anuncia meta de crescimento econômico mais modesta na abertura do Congresso Nacional do Povo

A reunião anual do Congresso Nacional do Povo da China foi aberta nesta sexta-feira (5), em Pequim, com o tradicional discurso do primeiro-ministro do país, Li Keqiang. O líder anunciou um objetivo de crescimento …

Análogo de Buraco negro de laboratório se comporta como Stephen Hawking previu

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia Technion-Israel tentaram confirmar duas das previsões mais importantes de Hawking, que a radiação hawking surge do nada e que não muda de intensidade ao longo do tempo, o que significa …

SP concentra 40% dos feminicídios com 200 mortes, diz estudo do Observatório de Segurança

A Rede de Observatórios da Segurança publicou seu relatório de dados sobre a violência contra a mulher do ano de 2020. O boletim, que traz números de cinco estados (SP, RJ, PE, CE e BA), mostrou …

Em pior momento da pandemia, Bolsonaro critica 'mimimi' e diz que brasileiro tem que enfrentar vírus

Um dia após o registro de novo recorde diário de mortes pela covid-19 no país, o presidente Jair Bolsonaro deu uma série de declarações dando a entender que o choro pelas vítimas é "frescura" e …

89% dos norte-americanos veem a China como inimiga ou concorrente

A maioria dos norte-americanos não vê a China como parceira e expressa preocupações crescentes sobre o histórico de direitos humanos e as práticas econômicas de Pequim, revelou uma nova pesquisa do Pew Research Center nesta …