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As autoridades governamentais da União Europeia poderão ter alguma dificuldade em explicar por qual motivo um estudo encomendado pela própria UE, que concluiu que os downloads ilegais não têm impacto negativo nas vendas – e que até as promovem, no caso de certos conteúdos – foi “suprimido”.
O estudo em causa, que custou 370 mil euros, foi encomendado em 2014 e as conclusões foram entregues em maio de 2015 à Comissão Europeia. Mas, estranhamente, em vez de o estudo, financiado com dinheiro público, ter sido publicado, foi mantido em segredo.
Recentemente, a eurodeputada Julia Reda, do Partido Pirata, teve curiosidade em saber por qual motivo os resultados do estudo não tinham sido revelados, e fez um pedido para obtê-los.
O pedido da eurodeputada alemã acabou se transformando em uma experiência surreal, que culminou com a publicação “voluntária” do estudo – depois de a Comissão Europeia ter dito que “era o que já planejava fazer e que nada teve a ver com o pedido feito” por Julia Reda.
O estudo, que analisa 30 mil pessoas na Alemanha, França, Polônia, Espanha, Suécia e Reino Unido, refere que, em 2014, cerca de 51% dos adultos e 72% dos jovens fazia downloads ou streaming ilegais.
Mas, o mais mais interessante, destaca o TechDirt, é que o estudo não conseguiu demonstrar que estes downloads e streams tivessem qualquer impacto negativo nas vendas de uma forma global.
O único caso em que foi detectada uma correlação foi no caso de filmes recentes, em que o recurso à pirataria era acompanhado por uma redução nas vendas – eventualmente também influenciado pelo fato de os filmes recentes muitas vezes nem sequer estarem disponíveis para serem comprados.
Em contrapartida, também acontece o caso dos jogos de computador, sobre os quais o estudo concluiu que a pirataria promove a compra de mais jogos legais.
Outra conclusão curiosa, que não será novidade para qualquer pessoa “normal” é a velha questão do preço.
Nos filmes e séries, a maioria das pessoas que faz downloads ou streaming considera que estes conteúdos têm preços exagerados, que as leva a recorrer às fontes alternativas. Mas no caso de jogos, música e livros, os preços eram considerados “justos”, pelo que haveria mais pessoas dispostas a comprá-los pela via legal.
A evidência de que autoridades europeias ocultaram os resultados deste estudo, que contraria completamente os argumentos usados para tentar justificar leis abusivas – e o fato de o terem feito de forma consciente, torna este caso preocupante e bastante mais grave do que simplesmente um assunto de “downloads e copyrights”.
Mas para agravar ainda mais o aspecto surreal do caso, surge a cereja em cima do bolo: uma publicação acadêmica de alguns membros da Comissão Europeia cita uma parte dos resultados deste estudo: os que se referem à “exceção” dos filmes recentes.
Convenientemente, a publicação se esquece de referir a conclusão geral do estudo, de que os downloads não têm impacto mensurável nas vendas de conteúdos legais, ou que até as promovem, no caso de alguns produtos virtuais. Ou seja, o estudo era, de fato, conhecido… mas eram utilizadas apenas as partes que “interessavam”.
Ciberia // ZAP