Nos hospitais, 70% dos profissionais se sentem despreparados para pandemia

Unknow / Wikimedia

O conhecimento sobre a covid-19 ainda é tão pouco que os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde estão com medo e se sentindo despreparados. Ao mesmo tempo, por conta da pandemia ainda descontrolada no Brasil, eles relatam sofrerem pressão, estarem atuando em jornadas exaustivas e com a saúde mental abalada.

Estas são as principais conclusões de uma pesquisa realizada entre 15 de junho e 1º de julho com profissionais de saúde que atuam em todas as regiões do país. Ao todo, 2.138 responderam ao questionário, aplicado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Os resultados são muito ruins. Mostram condições precárias de trabalho para esse profissionais, com falta de treinamento, equipamento e uma sensação muito grande de desamparo”, afirma à DW Brasil a cientista política Gabriela Lotta, coordenadora da pesquisa.

O levantamento mostrou que 78,2% dos profissionais de saúde enfrentam algum problema de saúde mental e 70% se sentem despreparados. “É uma prevalência muito grande”, ressalta Lotta. “Isso claramente traz consequências para os pacientes. [Os médicos e enfermeiros] sentem medo, e isso se reflete no atendimento.” De acordo com o levantamento, 79% dos médicos e 83% dos enfermeiros relatam ter medo da covid-19.

Coautora da pesquisa, a cientista política Michelle Fernandez afirma que os dados mostram um cenário de fragilidade da classe médica brasileira. “Diante de uma doença nova, nenhum profissional de saúde estava preparado para viver tal experiência no trabalho”, resume ela, à DW Brasil.

A pesquisa também revela que metade dos profissionais de saúde alega não receber equipamentos de proteção individual (EPI) de forma adequada. E 80% deles conhecem pelo menos um colega que teve diagnóstico positivo para a doença.

A reportagem da DW Brasil ouviu 12 médicos e enfermeiros de vários estados brasileiros sobre os pontos abordados na pesquisa. Todos eles relataram diversos casos de colegas infectados – no caso da técnica em enfermagem Rakeline Carvalho Lima, que atua em Feira de Santana e em Alagoinhas, na Bahia, ela própria teve covid-19. Em comum, eles afirmam que, além da tensão de ver alguém próximo adoecer, o afastamento do colega ainda se reflete numa maior sobrecarga de trabalho.

A médica Paskale Salazar Vargas, que atua na Santa Casa de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, comenta o sofrimento que foi trabalhar na última quarta-feira, com a notícia da morte de um colega, técnico em enfermagem no mesmo hospital. “Isso abala. Sempre que a morte chega mais perto, abala mesmo“, diz ela. “[E a doença tem feito com que] os colegas sejam afastados, e está difícil fechar as escalas. A gente acaba dobrando o tempo de trabalho.”

Enfermeiro em Belo Horizonte, Minas Gerais, Jarbas Vieira de Oliveira relata que teve problemas com falta de EPIs no início da pandemia – mas agora a “situação foi resolvida”. Uma médica de um hospital privado em São Paulo, que pediu para não ser identificada, conta que as máscaras do tipo N95 estão sendo reutilizadas por até um mês antes de serem descartadas.

“Ao contrário da determinação, que recomenda o descarte diária do item”, afirma. Médica da rede pública de Recife, em Pernambuco, Rafaela Pacheco diz que chegou a comprar parte dos equipamentos com seus próprios recursos.

“Há um tempo ficamos sem máscara cirúrgica e depois sem touca para trabalhar. Chegamos a receber máscaras e toucas que rasgavam com facilidade e peças faciais que prometiam 94% de proteção contra partículas líquidas, mas que não conseguiam filtrar aerossol”, conta a enfermeira Monique Carneiro, que trabalha na rede pública em Salvador, Bahia.

Marcos Pedrosa, médico da rede pública em Brasília, também diz que chegou a faltar aventais, protetores faciais e máscaras em sua unidade. “Isso gerou muita insegurança nos profissionais”, recorda ele, enfatizando que o problema já foi resolvido.

Medo e desconhecimento

Médica de um hospital privado no Rio de Janeiro, Fernanda Barroso Mendonça Costa ressalta que a saúde mental dos profissionais de saúde é prejudicada justamente pela dificuldade em compreender a doença. “É uma roleta-russa: a gente vê doentes jovens sem comorbidades morrendo e pessoas teoricamente de grupos de risco saírem bem”, compara ela.

“Angustia estarmos diante de uma doença que ainda não tem um remédio, um medicamento, um tratamento específico. Não nos sentimos plenamente preparados porque estamos vendo na prática as coisas acontecendo”, desabafa a médica Giovanna Zanatta de Carvalho, que atua em hospital privado de São Paulo.

Médica em São José, Santa Catarina, Francine Bagnati conta que no início de julho, quando houve o pico de casos em sua região, “era perceptível no rosto de cada profissional de saúde um grande medo do que estava por vir“. Foi quando eles perceberam que havia necessidade de compartilhar os sofrimentos entre os integrantes das equipes, em um movimento de ajuda mútua. Ela conta que desde então o cuidado para com o colega se tornou “tão essencial quanto o cuidado para com o paciente”.

“Quando deito a cabeça no travesseiro após um dia intenso de atendimentos aos casos suspeitos e confirmados, é impossível não pensar no medo de contrair o vírus e no risco de a doença evoluir para uma forma grave e fatal”, comenta a médica Nicole Coelho Della Bruna, de Florianópolis, Santa Catarina.

Boa parte dos profissionais relataram duas situações que os têm deixado mais estressados do que o normal: o fato de muitos terem se isolado completamente de familiares, por receio de contaminá-los e a quantidade de mensagens e telefonemas de pessoas, em geral, parentes de pacientes, solicitando informações.

“Temos sido bombardeadas de perguntas em qualquer horário do dia, inclusive aos fins de semana”, diz a enfermeira Paula Roberta Sant’anna Sanches, de Ribeira, no interior paulista.

Faz cinco meses que a enfermeira Monique Carneiro não convive com o marido, portador de doença crônica. “No meu caso, não vivo mais com minha esposa e o filho dela por causa da pandemia. E a saúde mental está péssima por isso”, diz o enfermeiro Jarbas Vieira de Oliveira.

“Tenho insônia constantemente e tenho apresentado perda de memória frequentemente. Onde trabalho, todos estamos com medo de nos descontrolar com a equipe e nos momentos de maior tensão no atendimento. Quase todo dia vejo algum colega chorando no trabalho”, diz Iara Lopes, enfermeira da rede pública de São Paulo.

A médica Fernanda Barroso Mendonça Costa resume com uma frase a sensação. “Não temos perspectivas de quando isso vai acabar, e isso é o mais angustiante“, diz.

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