Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos

Fernando Frazão / Agência Brasil

O poeta maranhense Ferreira Gullar foi eleito para Academia Brasileira de Letras para a cadeira 37, sucedendo o poeta e tradutor Ivan Junqueira

O poeta maranhense Ferreira Gullar foi eleito para Academia Brasileira de Letras para a cadeira 37, sucedendo o poeta e tradutor Ivan Junqueira

O poeta, escritor, jornalista e teatrólogo Ferreira Gullar morreu neste domingo (4) no Hospital Copa d’Or, na zona sul do Rio, aos 86 anos. Ele era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014 e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros do século XX.

O corpo de Ferreira Gullar está sendo velado desde as 17h de ontem no saguão da Biblioteca Nacional, na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Gullar morreu aos 86 anos, às 10h, na UTI do Hospital Copa D’Or, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Ele estava internado havia 20 dias, vítima de pneumonia.

O velório do acadêmico, poeta e teatrólogo continuará essa segunda-feira, a partir das 9h, na Academia Brasileira de Letras (ABL), de onde o corpo sairá por volta das 15 horas, para o mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo.

O Ferreira Gullar deixa dois filhos, Luciana e Paulo, oito netos, e a companheira Cláudia, com quem vivia atualmente. Seu último livro foi “Autobiografia Poética e Outros Textos”, lançado este ano pela Editora Autêntica.

O presidente da ABL, Domício Proença Filho, determinou que fosse cumprido luto de três dias e que a bandeira da Academia seja hasteada a meio mastro. A ABL marcou a Sessão de Saudade para a próxima quinta-feira (8), quando serão prestadas homenagens a Ferreira Gullar.

Segundo informações da própria ABL, assim que for encerrada a Sessão da Saudade, estarão abertas, pelo período de um mês, as candidaturas daqueles que desejarem lhe suceder na cadeira de número 37, para a qual havia sido eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira.

Ferreira Gullar, cujo nome verdadeiro é José de Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930, numa família de classe média pobre. Dividiu os anos da infância entre a escola e a vida de rua, jogando bola e pescando no Rio Bacanga. Considera que viveu numa espécie de paraíso tropical e, quando chegou à adolescência, ficou chocado em ter de se tornar adulto – e tornou-se poeta.

No começo, acreditava que todos os poetas já haviam morrido e somente depois descobriu que havia muitos deles em sua própria cidade, a algumas quadras de sua casa. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo, onde, aos domingos, havia leitura de poemas.

Descobriu a poesia moderna apenas aos 19 anos, ao ler os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ficou escandalizado com esse tipo de poesia e tratou de se informar, lendo ensaios sobre a nova poesia.

Poesia experimental

Pouco depois, aderiu a ela e adotou uma atitude totalmente oposta à que tinha anteriormente, tornando-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés”.

Ou seja, nada de fórmulas: o poema teria que ser inventado a cada momento. “Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema“, diria ele mais tarde. Assim nasceu o livro que o lançaria no cenário literário do país em 1954: “A Luta Corporal”.

Os últimos poemas deste livro resultam de uma implosão da linguagem poética e provocariam o surgimento na literatura brasileira da “poesia concreta“, de que Gullar foi um dos participantes e em seguida dissidente, passando a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto.

O movimento neoconcreto surgiu em 1959, com um manifesto escrito por Gullar, seguido da teoria do não-objeto. Esses dois textos fazem hoje parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.

Gullar levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o Livro-Poema e, depois, o Poema Espacial, e, finalmente, o Poema Enterrado. Este consiste em uma sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra “rejuvenesça”.

Luta, exílio e teatro

O poema enterrado foi a última obra neoconcreta de Gullar, que se afastou do grupo e se integrou na luta política revolucionária. Entrou para o Partido Comunista e passou a escrever poemas sobre política e participar da luta contra a ditadura militar que havia se implantado no país, em 1964. Foi processado e preso na Vila Militar. Mais tarde, teve de abandonar a vida legal, passar à clandestinidade e, depois, ao exílio. Deixou clandestinamente o país e foi para Moscou, depois para Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.

Voltou para o Brasil em 1977, quando foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, voltou a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, depois, como roteirista de televisão.

Durante o exílio em Buenos Aires, Gullar escreveu “Poema Sujo“, um longo poema de quase 100 páginas e que é considerado sua obra-prima. Esse poema causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta a seu país. “Poema Sujo” foi traduzido e publicado em várias línguas e países.

De volta ao Brasil, Gullar publicou, em 1980, “Na vertigem do dia” e “Toda Poesia”, livro que reuniu toda sua produção poética até então. Voltou a escrever sobre arte na imprensa do Rio e São Paulo, publicando, nesse campo, dois livros: “Etapas da arte contemporânea” (1985) e “Argumentação contra a morte da arte” (1993), onde discute a crise da arte contemporânea.

Outro campo de atuação de Ferreira Gullar é o teatro. Após o golpe militar, ele e um grupo de jovens dramaturgos e atores fundou o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência democrática ao regime autoritário. Nesse período, escreveu, com Oduvaldo Vianna Filho, as peças “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” e “A saída? Onde fica a saída?”

De volta do exílio, escreveu a peça “Um rubi no umbigo”, montada pelo Teatro Casa Grande em 1978.

Gullar afirmava que a poesia era sua atividade fundamental. Em 1987, publicou “Barulhos” e, em 1999, “Muitas Vozes”, que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.

“Vazio na literatura nacional”

O presidente Michel Temer lamentou a morte do poeta e escritor Ferreira Gullar, se solidarizando com a família e os amigos de Gullar “nesta hora triste”.

“Ferreira Gullar deixa um vazio imenso na literatura nacional. Perdemos um poeta de primeira grandeza”, escreveu o presidente no Twitter.

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, também emitiu nota lamentando o falecimento. Segundo o chanceler, Gullar deixou uma contribuição marcante para a cultura brasileira e foi pautado pela construção de um mundo mais fraterno. “Ele foi um homem de grande integridade, que soube combater o bom combate de ideias movido por seu amor ao Brasil e pela visão de um país democrático e socialmente mais justo”, destacou o comunicado.

O governador do estado, Luiz Fernando Pezão, divulgou nota de pesar sobre a morte do jornalista, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Ferreira Gullar, que morreu na manhã de hoje (4), aos 86 anos, no Hospital Copa d’Or, em Copacabana, zona sul do Rio.

“Ferreira Gullar é uma das expressões mais fortes da literatura brasileira. Em todas as dimensões em que atuou, o fez com maestria e densidade. Antes de ser imortalizado pela Academia Brasileira de Letras, Ferreira Gullar já fora eternizado pela sua obra. Por isso, o poeta sempre será lembrado. Meus sinceros sentimentos aos familiares e amigos”.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, também divulgou nota sobre a morte do poeta, escritor e imortal Ferreira Gullar, que morreu na manhã de hoje, no Rio. De acordo com Paes, o Brasil e o mundo choram hoje a perda do imortal poeta Ferreira Gullar.

“Mas, na cidade que ele escolheu para viver, a dívida de gratidão com esse gênio das palavras é ainda maior. Meu amigo Gullar foi um dos 150 representantes da intelectualidade e da sociedade carioca que desde 2012 participam do Conselho da Cidade, colaborando com sua mente brilhante para ajudar a transformar o Rio. Por isso, além da saudade que ficará desse carioca de coração, deixo aqui o meu ‘muito obrigado” para este amigo em nome de todos os apaixonados pela Cidade Maravilhosa. Meus sentimentos para toda a família e para os admiradores de Ferreira Gullar. Que sua poesia continue imortal para a cidade do Rio de Janeiro”.

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