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Os protagonistas de Pehredaar Piya Ki (“A Guarda do Marido”, em tradução livre), novela cancelada pela Sony TV
Uma novela de TV que girava em torno da bizarra “história de amor” entre um menino de 9 anos e uma jovem mulher de 18 foi retirada do ar na Índia após críticas de que o programa estimulava o casamento infantil e era retrógrado.
Em uma nota publicada nesta terça-feira (29), o canal a cabo Sony Entertainment Television comunicou a decisão de cancelar a controversa novela Pehredaar Piya Ki (“A Guarda do Marido”, em tradução livre).
O canal não justificou a decisão, mas a novela, lançada em meados de julho, atraiu muitas críticas desde sua estreia por retratar este estranho par romântico.
A polêmica começou quando a Fundação Jai Ho, uma ONG baseada em Mumbai, começou a fazer petições às autoridades, pedindo um “banimento imediato” do programa – descrito pela organização como “indecente” e “inapropriado para crianças”.
A novela também despertou críticas e reclamações nas redes sociais do país, onde o casamento infantil, apesar de proibido, ainda é prática comum em várias partes do país.
A história começa com o jovem príncipe Ratan Kunwar, herdeiro de uma rica família real, se apaixonando à primeira vista pela jovem Diya. Ela é bem mais velha que Ratan, que é uma criança de 9 anos. Ele a segue, tira fotos dela e eles desenvolvem uma amizade – e Ratan não deixa escapar oportunidades para dizer que quer casar com ela.
Em uma ocasião, Diya salva a vida de Ratan quando ele acidentalmente escorrega, e promete: “Não vou deixar nenhum mal chegar até você”. A promessa dela é música para os ouvidos dos pais da criança, que são paranoicos quanto aos perigos que o menino corre diante de parentes mal intencionados.
Diya vira uma espécie de guarda-costas do garoto.
A paranoia dos pais tem, no entanto, um fundamento – o palácio é um local de intrigas e, quando os parentes têm a chance, matam a mãe de Ratan e ferem gravemente o seu pai. Em seu leito de morte, o pai tira de Diya a promessa de casar com o menino porque “ela é a única que pode protegê-lo“.
“Quando os primeiros episódios foram exibidos, as opiniões se dividiram. Críticos reclamaram da forma esquisita como a criança perseguia a mulher; outros elogiaram a personagem Diya, uma jovem de 18 anos empoderada e decidida”, disse à BBC a jornalista Megha Mathur.
Na Índia, as crianças são criadas desde pequenas com a ideia de que todos devem se casar um dia — e é normal ver pequenas meninas e meninos dizendo que gostariam de se casar com seus pais ou outros parentes quando forem maiores. “Mas, perto do quinto episódio, o menino de 9 anos começou a se comportar como se fosse um adulto e eu acho que eles perderam o enredo”, comenta Mathur.
Em uma carta ao ministro da Informação e da Radiodifusão da Índia, Smriti Irani, o grupo Jai Ho diz que “uma criança é vista acariciando, acossando e tendo uma relação de natureza sexual com uma moça que tem mais do que o dobro de sua idade. Esta é uma representação indecente e obscena de uma criança“.
Uma petição dirigida a Irani no change.org reuniu mais de 100 mil assinaturas, levando o ministro a pedir ao órgão que monitora e controla o conteúdo de programas de TV no país para que tomasse uma “ação imediata” contra o programa.
O órgão, o Broadcasting Content Complaints Council (BCCC), ordenou que a novela passasse a ser exibida às 22h30, em vez do horário nobre das 20h30. O programa também passou a ter que expor o aviso: “Nós não apoiamos o casamento infantil”.
Os produtores da série também disseram que estavam planejando “um salto de idade” e, em algum momento nas próximas semanas, o príncipe teria 21 anos. Mas para os críticos, isso não era suficiente. “Ninguém realmente olha para os avisos”, disse o presidente da Fundação Jai Ho, Afroz Malik.
“O jovem casal fala sobre ir em uma lua de mel. Há conversa sobre suhaag raat [consumação do casamento]. Esse não é o retrato correto de uma criança“, disse ele, acrescentando que a fundação iria aos tribunais caso o roteiro não sofresse mudanças drásticas – o que não será mais necessário.
Ciberia // BBC