O plano japonês de jogar ao mar água radioativa de Fukushima

Ministério da Administração Interna e Transportes do Japão / Wikimedia

Vista aérea da central nuclear de Fukushima

Nesta semana, o ministro do Meio Ambiente do Japão, Yoshiaki Harada, declarou que despejar no Oceano Pacífico mais de 1 milhão de toneladas de água contaminada pelo desastre nuclear de Fukushima seria a “única opção” da Tokyo Electric Power Co. (Tepco), operadora da usina.

Falando em Tóquio na terça-feira (10/09), Harada declarou: “A única opção será drená-la para o mar e diluí-la. Todo o governo discutirá isso, mas eu gostaria de oferecer minha simples opinião.”

A água contaminada com elementos radioativos tem sido armazenada na usina de Fukushima desde que o complexo foi destruído por um terremoto de magnitude 9 seguido de uma série de tsunamis, em março de 2011. As ondas gigantes inundaram o equipamento de refrigeração de três dos seis reatores do local, fazendo com que eles derretessem.

Água tem sido bombeada para os reatores para controlar suas temperaturas, resultando em mais de 1 milhão de toneladas de líquido radioativo. Águas subterrâneas também estão se infiltrando nos níveis abaixo do solo da usina, aumentando a quantidade de água contaminada, que precisa ser armazenada em vastos tanques de aço na terra em torno da estrutura.

O governo japonês afirma que armazenar a água em tanques não é uma solução viável para o problema a longo prazo e que a tecnologia para erradicar completamente todos os sinais de radioatividade da água ainda está para ser desenvolvida.

Uma nova equipe foi encarregada de elaborar soluções alternativas, que até agora incluíram enterrar a água no subsolo em vastas fossas revestidas de concreto, injetando-as em estratos geológicos muito abaixo da superfície. No entanto, a opção preferida e menos dispendiosa seria liberar gradualmente a água no oceano.

A Coreia do Sul reagiu com consternação à proposta, convocando o embaixador japonês em Seul em agosto para expressar suas preocupações. Na semana passada, o governo sul-coreano enviou uma carta oficial à Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), solicitando assistência em seus esforços para garantir que a água radioativa não fosse liberada da usina de Fukushima. Seul também disse que pretende abordar a questão na conferência geral da Aiea em Viena ainda neste mês.

A hostilidade de Seul em relação ao plano japonês é compartilhada pela Coreia do Norte, onde a mídia estatal descreveu a proposta de Tóquio como um “ato criminoso” que poderia causar uma “calamidade nuclear” na região.

Nunca toleraremos a contaminação do nosso mar azul por lixo nuclear“, afirmou um editorial do jornal Rodong Sinmun em 4 de setembro. “O Japão deve escutar a grave advertência da comunidade internacional, parar de tomar medidas imprudentes e abandonar seu plano de descartar água contaminada.”

Muitos sul-coreanos podem até discordar de várias políticas do atual governo, mas analistas dizem que os cidadãos apoiam firmemente o presidente Moon Jae-in nessa questão. “Estamos admirados de como o Japão poderia fazer algo tão perigoso“, disse à DW Ahn Yinhay, professora de relações internacionais da Universidade da Coreia, em Seul.

“As pessoas estão realmente preocupadas, e vi estimativas que mostram que as correntes levarão a água descartada de Fukushima para a Península Coreana em cerca de um ano. Isso significa que a radiação entrará em nossas pescas domésticas de peixes e frutos do mar”, explicou a professora.

Segundo ela, a maioria dos coreanos acredita pouco nas promessas do governo japonês de que todos os alimentos das regiões afetadas pelo desastre nuclear foram exaustivamente testados e considerados seguros para consumo humano.

Grupos ambientalistas também estão irritados com as propostas de Tóquio, afirmando que estas ignoram o fato de que são necessários esforços para remover radionuclídeos perigosos da água.

A Tepco havia alegado anteriormente que processos avançados de limpeza na água reduziram agentes contaminantes causadores de câncer – como estrôncio, iodo e rutênio – a níveis de “não detecção”. Portanto, seria seguro liberá-la no oceano. No entanto, documentos governamentais vazados mostraram mais tarde que tais alegações seriam imprecisas e que a água ainda continha radioatividade em concentrações bem acima dos níveis permitidos por lei.

Um estudo do jornal regional Kahoko Shinpo confirmou que os níveis de iodo 129 e rutênio 106 excederam os níveis aceitáveis em 45 das 84 amostras relativas a 2017. O iodo 129 tem uma meia-vida de 15,7 milhões de anos e pode causar câncer de tireoide. O rutênio 106 é produzido por fissão nuclear e pode ser tóxico em altas doses, além de ser cancerígeno quando ingerido.

Posteriormente, a Tepco admitiu que os níveis de estrôncio 90 estavam 90 vezes acima da quantidade permitida por lei em 65 mil toneladas de água que já haviam sido tratadas no local.

O Greenpeace condenou os comentários do ministro japonês em favor da liberação da água no Pacífico. A declaração é “totalmente imprecisa – tanto científica quanto politicamente”, disse à DW Shaun Burnie, especialista nuclear sênior da organização ambientalista na Alemanha.

“Tóquio recebeu opções técnicas, inclusive de empresas nucleares dos Estados Unidos, para remover o trítio radioativo da água contaminada. Até agora, por razões financeiras e políticas, optou por ignorá-las”, acrescentou. “O governo japonês deve se comprometer com a única opção ambientalmente aceitável para gerenciar essa crise da água, que é o armazenamento e processamento a longo prazo para remover a radioatividade”, afirmou Burnie.

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