O que é a etanolamina, molécula chave para decifrar origem da vida encontrada no espaço

Como a vida se originou na Terra? Ninguém sabe, mas entender os elementos que tornaram isso possível pode nos dar pistas valiosas para responder a essa pergunta.

Em um estudo recente, um grupo de pesquisadores espanhóis afirma ter detectado um desses elementos no espaço, bem próximo ao centro da Via Láctea.

Trata-se da etanolamina, molécula que está presente na membrana das células de todos os seres vivos e que agora, pela primeira vez, foi observada fora do nosso planeta.

“Isso pode nos ajudar a entender como se formaram as primeiras células da Terra”, diz Víctor M. Rivilla, um dos coautores do estudo desenvolvido pelo Centro de Astrobiologia (CAB), centro de pesquisas na Espanha, associado ao Instituto de Astrobiologia da Nasa, a agência espacial americana.A descoberta também deixa aberta a possibilidade de que os elementos que tornam a vida possível estejam presentes em outros lugares do universo além da Terra.

Mas o que é a etanolamina e que pistas ela nos dá sobre a origem da vida que conhecemos?

Molécula chave para a vida

A etanolamina é uma molécula que contém quatro dos seis elementos químicos fundamentais para a vida: oxigênio, nitrogênio, hidrogênio e carbono — os outros dois são fósforo e enxofre.

Além disso, é um dos componentes das membranas celulares, a camada protetora que cobre as células de todos os organismos e que permite que processos genéticos e metabólicos ocorram dentro delas.

“Entender como essas membranas foram formadas é um passo fundamental para entender como os organismos vivos foram formados”, diz Rivilla.

Como os cientistas detectaram a etanolamina?

A etanolamina já havia sido detectada em meteoritos, mas não se sabe como ela foi parar lá.

Agora, com a ajuda de dois radiotelescópios, Rivilla e seus colegas detectaram etanolamina em uma nuvem molecular localizada a 100 mil anos-luz da Terra.

No espaço, as moléculas vibram e emitem fótons, que são partículas de luz.

“A forma como cada molécula vibra é como uma assinatura”, diz Rivilla.

Assim, ao detectar o rastro de fótons dentro da nuvem, os pesquisadores notaram que as vibrações que estavam observando correspondiam a milhões de moléculas de etanolamina naquela nuvem no centro da galáxia.

Porque isso é importante?

Os resultados da pesquisa sugerem que a etanolamina está presente nas nuvens moleculares do espaço, que é onde novas estrelas e planetas se formam.

Portanto, a conclusão de Rivilla e sua equipe é que a etanolamina pode estar presente em asteroides que atingiram a Terra primitiva, bilhões de anos atrás.

“Estimamos que cerca de um quatrilhão de litros de etanolamina poderiam ter sido transferidos para a Terra primitiva por meio de impactos de meteoritos”, diz Izaskun Jiménez-Serra, pesquisadora do CAB e coautora do estudo.

A molécula pode ter chegado ao nosso planeta vinda do espaço e, uma vez aqui, pode ter se combinado com outras moléculas que ajudaram a formar membranas celulares mais eficientes e robustas que favoreceram a evolução dos primeiros organismos vivos.

“A etanolamina é uma das poucas moléculas verdadeiramente complexas descobertas no espaço que é direta e inegavelmente relevante para a biologia como a conhecemos”, diz Brett A. McGuire, astrônomo e professor de química do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), que não fez parte da pesquisa espanhola.

Vida extraterrestre?

O fato de essas moléculas essenciais estarem presentes no espaço sugere que, nas condições certas, elas poderiam dar origem a formas de vida em outras partes do cosmos.

“Se os elementos da vida estão espalhados pelo universo, também é provável que a vida possa surgir em qualquer lugar tão logo as condições sejam favoráveis”, diz o astroquímico Sergio Ioppolo, ao comentar a pesquisa em artigo no site Inverso.

“A vida provavelmente não é uma exceção, mas sim um passo a mais na evolução das regiões do espaço onde as estrelas se formam”, acrescenta Ioppolo, pesquisador da Queen Mary University London, que não esteve envolvido neste estudo.

McGuire, por sua vez, esclarece que o fato de a etanolamina ter sido encontrada nessa região interestelar não significa que ali existam membranas celulares, ou que essa molécula seja comum no espaço.

Novas perguntas

Rivilla e sua equipe já suspeitavam que poderia haver moléculas de etanolamina no espaço, porque outras moléculas com estrutura química semelhante já haviam sido detectadas antes.

Agora, os pesquisadores têm certeza de que elas estão presentes no espaço, mas a pergunta que ainda não foi respondida é como essas moléculas foram formadas.

Por meio de estudos teóricos, modelos químicos e experimentos que simulam o meio interestelar, Rivilla e seus colegas querem entender a origem das moléculas de etanolamina.

Além disso, graças ao fato de os radiotelescópios serem cada vez mais sensíveis e sofisticados, eles esperam detectar outros tipos de moléculas complexas que podem ter levado à formação — não só de membranas celulares — mas também do RNA e do DNA, que contêm informações genéticas, e de proteínas que são responsáveis ​​pelo metabolismo.

Montar esse quebra-cabeça espacial “pode ​​ser a chave para entender a origem da vida”, diz Rivilla.

// BBC

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