O único problema de ser filho único é o estigma

Filhos únicos possuem uma péssima reputação. Quantas vezes você não observou algum pai ser criticado por escolher ter apenas um pimpolho? “Ele vai ficar mimado, muito sozinho, egoísta, etc. etc. etc”.

É um senso comum. Parece, de fato, que crescer com um irmão seja algo benéfico para uma pessoa. Além de possuir um companheiro, a criança pode a aprender a compartilhar, entre outras coisas.

Mas o que a ciência diz sobre isso? Esse “senso comum” é apoiado por evidências? Segundo a psicóloga Ana Aznar, da Universidade de Winchester (Reino Unido), não.

Ela admite que sua própria profissão é “parcialmente culpada” por tais estereótipos negativos. Por exemplo, o psicólogo influente e primeiro presidente da Associação Americana de Psicologia Granville Stanley Hall chegou a dizer que “ser filho único era uma doença em si”.

As pesquisas feitas em torno do assunto, no entanto, não encontraram resultados negativos ligados a filhos únicos.

No que diz respeito a personalidade, de acordo com Aznar, não existem diferenças em traços como extroversão, maturidade, cooperação, autonomia, controle pessoal e liderança entre filhos únicos e crianças com irmãos.

Inclusive, filhos únicos tendem a ter mais realizações por motivação (uma medida de aspiração e esforço) e serem mais bem ajustadas (ter a habilidade de se adaptar a novas condições). Ainda costumam completar mais anos de educação e alcançar ocupações de mais prestígio.

Um estudo recente com 2.000 adultos alemães também descobriu que filhos únicos não são mais propensos a serem narcisistas do que crianças com irmãos.

Pesquisas sobre a saúde mental de crianças com ou sem irmãos também foram feitas, e não encontraram diferenças entre os dois grupos no que diz respeito à ansiedade, autoestima e problemas de comportamento.

Filhos únicos também não são solitários, ou têm dificuldade em fazer amigos. Um estudo que comparou os relacionamentos fraternos em crianças pré-escolares descobriu que crianças sem irmãos fazem o mesmo número de amizades que crianças com irmãos.

Uma revisão de 115 estudos constatou que filhos únicos se saíam melhor em testes de QI e academicamente do que pessoas que cresceram com muitos irmãos ou com um irmão mais velho.

No entanto, primogênitos e pessoas que tinham apenas um irmão mais novo eram os grupos com melhor desempenho acadêmico.

É importante notar que a diferença de inteligência foi encontrada mais frequentemente em crianças pré-escolares do que estudantes de graduação, por exemplo, o que indica que essa lacuna diminui com a idade.

Aznar afirma que, ao contrário de crianças com irmãos, os filhos únicos recebem atenção, carinho e recursos materiais exclusivos dos pais. Enquanto muitas vezes foi assumido que isso trazia consequências negativas para a criança, tornando-a mimada, pode na verdade ser uma vantagem.

Como alguns dos estudos mostraram, filhos únicos podem se sair melhor em certas medidas mais tarde na vida.

Uma vez que o número de famílias com apenas um filho tem aumentado em todo o mundo, talvez esteja na hora de pararmos de condenar os pais por essa escolha. A ciência comprova: o único problema dos filhos únicos é o estigma.

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