Para imprensa europeia, cloroquina se tornou “arma política” no Brasil

Simone Venezia / EPA

A imprensa europeia demonstra surpresa e preocupação com a decisão do governo brasileiro de ampliar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento de doentes com sintomas leves do coronavírus no SUS.

Sites de notícias e jornais destacam o assunto nesta quinta-feira (21), afirmando que o medicamento se tornou uma arma política de Bolsonaro.

O Brasil de Jair Bolsonaro aposta na cloroquina” é o título da matéria publicada no site do canal de TV francês France 24.

O texto destaca que a decisão do Ministério da Saúde se deve às “semanas de pressão do presidente, que considera milagroso o medicamento”.

A matéria lembra que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina – cujos efeitos até hoje não foram cientificamente provados – foi o que motivou a renúncia de Nelson Teich do Ministério da Saúde na última sexta-feira (15), “o segundo ministro a deixar a pasta em menos de um mês”, ressalta France 24.

“Os populistas fãs da cloroquina” diz uma das manchetes do jornal francês Le Parisien desta quinta-feira, destacando que, além de Bolsonaro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, também defendem o uso da droga antimalária contra o coronavírus. “Três homens na liderança de países castigados pelo vírus. Com a cloroquina como uma boia de salvamento”, publica o diário.

“Mas o que eles têm todos com a cloroquina?“, questiona Le Parisien. Entrevistado pelo jornal, Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe, afirma que “Jair Bolsonaro luta por sua sobrevivência política e procura se afastar de toda consideração científica para fazer valer sua ação contra a epidemia”.

Já a cientista política Nicole Bacharan diz que “os populistas estão na busca permanente de soluções simples”.

Autorização de cloroquina é “vitória” de Bolsonaro

No resto da Europa, a decisão do governo brasileiro também tem forte repercussão.

O jornal português Público acredita que a aprovação do novo protocolo de tratamento contra o coronavírus “é uma vitória de Bolsonaro”, em uma queda de braço “que dura quase desde o início da pandemia da Covid-19 no Brasil e que esteve na origem das demissões de dois ministros da Saúde”.

A matéria destaca que, após o anúncio do Ministério da Saúde, Bolsonaro comemorou, dizendo que “ainda não há comprovação científica” do uso da cloroquina contra o coronavírus, mas, segundo ele, o Brasil está em guerra e “pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, escreveu.

Para o jornal português, o uso do medicamento se tornou “uma arma política no Brasil, onde a pandemia progride de forma descontrolada”.

O diário também destaca que, apesar dos mais de mil mortos na terça-feira, o presidente apareceu sorridente e fez uma piada em uma live nas redes sociais, dizendo que “quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”.

“Não há provas”

O jornal britânico The Guardian ressalta que estudos mostraram que a droga não é eficaz contra a doença e pode ter efeitos colaterais graves em alguns casos. O correspondente do diário no Brasil entrevistou Ana Ribeiro, coordenadora do serviço de epidemiologia do hospital Emílio Ribas, em São Paulo. “Não há provas. Estão dizendo que a cloroquina funciona, mas eles não mostram nenhum resultado”, declarou.

“O Brasil se move às cegas diante da velocidade da epidemia” é manchete do jornal espanhol El País. A matéria afirma que dados oficiais mostram que “dezenove a cada vinte contágios não são contabilizados na nação mais populosa da América Latina”.

Utilizando o método da London School of Hygiene and Tropical Medicine e se baseando nas informações indicadas pelo Ministério da Saúde do Brasil no último sábado (16), o diário afirma que o número de contagiados no país seria de 3,7 milhões de pessoas e não 233.142 como indicou o governo neste dia.

El País também publica gráficos sobre a evolução da doença no Brasil e analisa a situação das cidades brasileiras mais afetadas pela Covid-19, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, São Luís e Manaus.

Segundo o jornal, dois meses após as medidas de quarentena terem sido implementadas no país, “políticos, autoridades sanitárias e investigadores agem às cegas” e quase 18 mil pessoas já morreram, “um número muito subestimado”.

// RFI

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