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Uma professora aposentada de 77 anos emocionou a todos com seu relato sobre o racismo na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), um dos principais festivais literários do Brasil e da América do Sul.
Todos anos são realizadas palestras, discussões e oficinas literárias, além de eventos paralelos para crianças (Flipinha) e jovens (Flipzona), na cidade fluminense.
Na edição de 2017, o evento ocorreu entre 26 e 30 de julho e abriu espaço para a diversidade de vozes da literatura negra. O escritor homenageado deste ano foi Lima Barreto (1881-1922), autor marginal cuja trajetória foi marcada pela crítica contundente ao cotidiano racista e de segregação social no Brasil. Mas a verdadeira estrela do festival acabou sendo outra pessoa: Diva Guimarães.
Na sexta-feira (28), o ator Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques se reuniram em uma mesa no festival com o tema “A pele que habito”. Eles discutiram sobre o processo de colonização no Brasil, o privilégio dos brancos no país e a resistência dos povos escravizados.
Depois de encerrada a primeira parte do debate, Diva, que estava na plateia, pegou o microfone e contou sua história.
Nascida no interior do Paraná, a aposentada contou o sofrimento e a luta contra o preconceito que enfrentou durante toda a sua vida. “Eu trabalhei duro desde os 5 anos. Sou neta de escravos e a gente teve uma libertação que não existe até hoje“, diz ela.
“Sou uma brasileira que sobreviveu e sobrevive até hoje porque tive uma mãe que fez de tudo, passou por todas as humilhações, para que nós estudássemos”, completou.
Ela contou que entrou em um colégio interno aos 5 anos de idade e ficou até os 9 anos. Foi lá que Diva passou por algumas situações que deixaram marcas.
“As freiras contavam que Jesus – eu demorei muito para aceitar o tal de Jesus -, Deus, criou um rio e mandou todos tomar banho na água abençoada daquele maldito rio. Aí, as pessoas que são brancas é porque eram trabalhadoras e inteligentes. Nós, como negros, somos preguiçosos. E não é verdade“, contou Diva.
“Esse país só vive hoje porque meus antepassadas deram toda a condição. Então, nós, como negros preguiçosos, chegamos no final dos banhos e no rio só tinha lama. E é por isso que só nossas palmas da mãos e pés são claras. Nós só conseguimos tocar isso”, acrescentou.
“Ela contava essa história para mostrar aos brancos como nós eramos preguiçosos. E não é verdade. Porque senão nós não tínhamos sobrevivido”, completou.
Diva ressaltou que ter acesso à educação foi essencial.
“Eu sou uma sobrevivente pela educação. E pela minha mãe. Ela me pedia: ‘Olha bem pra mãe. Se você quiser ser como a mãe, não vá para a escola’. E eu dizia: Não vou ser igual a senhora. Então ela me mandava ir estudar. Eu ia correndo para a aula”, disse.
Seu lindo relato conseguiu emocionar a todos, inclusive ao ator Lázaro Ramos. No final, Diva recebeu aplausos pela sua história e foi cercada por pessoas que pediram fotos com a aposentada.
Mais do que aplausos merecidos, a história de Diva nos faz refletir sobre a importância de falarmos sobre o racismo e questionarmos se estamos fazendo tudo que podemos para acabar com essa discriminação.
Hoje, após uma campanha que dizia que não existem raças, existe apenas a raça humana, vemos o racismo das cotas raciais discriminando claramente os brancos pobres. Como dizer que não há racismo se os brancos são discriminados pela própria lei?