Repressão policial, detenções, campanha homofóbica na mídia: o medo de ser homossexual no Egito

Jens Buettner / EPA

O medo e o desânimo se apoderaram de parte da comunidade gay no Egito, alvo de “histeria” e de repressão policial, com mais de 50 detidos nas últimas duas semanas, e de uma campanha homofóbica na mídia.

Em uma cafeteria do Cairo, um jovem homossexual, que preferiu não se identificar por medo de ser preso, explicou à EFE precauções que tomou desde o começo das detenções.

Mesmo que reconheça que sempre evitou lugares de reunião da comunidade LGBT, agora desinstalou de seu celular todos os aplicativos de relacionamento que tinha e reduziu ao mínimo suas intervenções em redes sociais.

A ativista Dalia Abdelhamid, que se encarrega de registrar o assédio à comunidade LGBT e de conseguir ajuda legal, afirmou à EFE que desde 2013 os corpos de segurança redobraram os esforços para “caçar” homossexuais nas redes sociais, através de falsos aplicativos de celular e marcando encontros fazendo-se passar por gays.

Nos escritórios da ONG Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, onde trabalha, Abdelhamid contou que desde outubro de 2013 até março de 2017 foram registradas 232 detenções de pessoas pela orientação sexual, às quais é preciso somar as 57 ocorridas desde 22 de setembro.

Nesse dia, durante uma atuação no Cairo do grupo libanês Mashrou’ Leila, cujo cantor Hamed Sinno não esconde sua orientação sexual, jovens mostraram a bandeira com o arco-íris, que representa a comunidade LGBT.

Ali disse que além das detenções e dos abusos denunciados por alguns processados – como análise anal -, a campanha midiática feita pela imprensa governista também contribuiu para aumentar o “terror” entre a comunidade LGBT.

Um assédio, instigado desde tribunas oficiais como o Conselho Supremo para o Regulamento dos Meios, que proibiu “a promoção ou divulgação de lemas homossexuais”, bem como a aparição de gays na imprensa.

Uma medida que mostra, segundo Abdelhamid, o “discurso único” que impera no Egito. “Isto reflete até que ponto o Estado controla os meios, depois que nos últimos anos tentou de todas as formas possíveis controlar a informação com zero de tolerância”, disse Abdelhamid.

Outro jovem egípcio, que prefere se identificar sob o pseudônimo de Hatem, também reconheceu à EFE se sentir inseguro, após ver como está espalhado o discurso “homofóbico” e de “ódio” em televisões, rádios e jornais.

Hatem contou que também está observando como muitos de seus amigos no Facebook deixam nos seus perfis comentários de rejeição aos homossexuais e condenando todos os presentes ao show de Mashrou’ Leila, no qual esteve presente.

Por esta razão e da mesma forma que Ali, comentou que mantém um perfil nas redes, mas que toma as precauções para que ninguém possa detectar sua orientação sexual ou identificá-lo, sobretudo depois de somente ter escrito no Facebook que tinha ido ver o grupo libanês e recebeu “comentários ruins”.

Dalia Abdelhamid não encontrou uma explicação para a atual onda de detenções, nem tampouco ao contínuo assédio que esta comunidade sofre desde a chegada ao poder do presidente Abdelfatah al Sisi, após o golpe de estado de julho de 2013.

No entanto, ela falou que “ainda há uma grande homofobia na sociedade” e que a Polícia utiliza esta rejeição social para reforçar esta campanha e se promover como defensora da religião, dos valores e dos bons costumes do Egito.

Também apontou que há quem acredite que tudo começou para demonstrar que o novo regime era mais religioso que o anterior, que controlava a vida política antes do tumulto militar.

Há também quem sustente que é uma maneira de tirar a atenção da crise econômica e inclusive que é uma mensagem das forças da ordem de que voltaram a tomar o “controle total” da situação, após os anos de incerteza que seguiram à revolução de 2011.

Ainda que não saiba quando acabará esta “loucura”, Abdelhamid se mostrou otimista, porque, pelo menos, – disse – “abriu os olhos para muitos abusos que os detidos estão sofrendo”.

Ali, por sua vez, não compartilha do mesmo entusiasmo, e ainda que sustente que ama o Egito, disse que vai continuar vivendo com cautela até que tenha a oportunidade de se mudar para o exterior.

Jorge Fuentelsaz e Isaac J. Martín // Ciberia / EFE

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