Aplicativo registra 2,5 mil tiroteios e 539 mortos em seis meses no Rio

Fernando Frazão / Agência Brasil

Tiroteio entre moradores e policiais de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) de Copacabana

Tiroteio entre moradores e policiais de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) de Copacabana

A Anistia Internacional contabilizou mais de 2,5 mil notificações de tiros ou disparos de arma de fogo no Rio de Janeiro no último semestre do ano passado, uma média de 18 por dia.

Foram registradas no aplicativo Fogo Cruzado pelo menos 539 vítimas e 570 feridos. Do total das mortes, 52 eram agentes públicos de segurança. Mais 90 policiais foram baleados.

O aplicativo Fogo Cruzado foi lançada pela Anistia Internacional em julho de 2016. Além das notificações compartilhadas colaborativamente pelos usuários, o relatório do aplicativo inclui dados coletados na imprensa e em canais da própria polícia, como os boletins diários publicados no site da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ).

O aplicativo teve mais de 50 mil downloads desde o seu lançamento. De acordo com a gestora de dados do Fogo Cruzado, Cecília Olliveira, o mapeamento dos tiroteios é algo inédito no Rio e ajuda a qualificar o índice de violência no estado.

“Não esperávamos uma adesão tão maciça. As pessoas querem que esse assunto seja debatido, porque muitas violações não chegam a ser notícia. Nem todo o tiroteio vira um boletim de ocorrência e é contabilizado”, disse ela.

Violações

Os números mostram ainda as consequências dos tiroteios no dia a dia dos moradores, que têm o direito de ir e vir cerceado, além de sofrerem com interrupção de serviços básicos devido aos tiroteios.

De acordo com a companhia de energia do Rio, Light, houve 268 interrupções no fornecimento de luz em decorrência de tiroteios no estado, 157 deles na zona norte da capital fluminense (58,5%).

“Uma pessoa morta ou ferida é a última instância da violência, mas há uma série de outras violências que não são contabilizadas. O tiro em si não é o único problema. O intuito é trazer essas informações para as discussões de segurança pública e qualificar o debate”, diz Cecília Olliveira.

Na comunidade do Jacarezinho, zona norte, que conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) desde 2013, a operação do teleférico do Complexo do Alemão foi suspensa 121 vezes em decorrência de tiroteios, de acordo com o Jornal Voz das Comunidades.

Em outubro, o serviço foi definitivamente fechado por falta de pagamento do estado ao consórcio responsável.

Em 2016, a PM apreendeu 155 pistolas, 71 revólveres e 15 fuzis, somente em áreas com UPPs. No total foram apreendidos 371 fuzis no estado.

Um dos maiores problemas levantados na CPI das Armas II, realizada no ano passado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), foi a falta de fiscalização e controle dos paióis das polícias e de empresas de segurança, decorrente de falhas de comunicação entre os órgãos do setor.

(dr) Fogo Cruzado / Anistia Internacional

Mapeamento dos tiroteios no aplicativo Fogo Cruzado

Mapeamento dos tiroteios no aplicativo Fogo Cruzado

Áreas mais atingidas

O Complexo do Alemão, na zona norte, com cerca de 70 mil habitantes, é o primeiro no ranking de locais mais atingidos por tiroteios ou disparos de arma de fogo. Foram registrados 115 disparos, com pelo menos 15 mortos e 34 feridos (15 deles policiais).

Para a  gestora do aplicativo, o fato de que áreas com UPPs, como a do Alemão e da Penha, tenham as maiores incidências de tiroteios da cidade é “emblemático”.

“Essas áreas deveriam se destacar como um exemplo de uma nova abordagem de segurança pública, não pela incidência de violência armada. No entanto, o projeto das UPPs não demonstra fôlego para interromper abusos. Pelo contrário, expõe de forma acentuada um modelo calcado no confronto, causando perdas irreparáveis para os moradores”.

O segundo maior número de registros (114) ocorreu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que tem 10 vezes mais habitantes e é 155 vezes maior que o Complexo do Alemão. Esses tiroteios resultaram em pelo menos 42 vítimas e 49 feridos, sendo oito deles policiais.

A área que ficou em terceiro lugar foi a região da Penha, zona norte. Nos seis meses, foram 111 registros de tiroteios ou disparos de arma de fogo com 14 vítimas e 22 feridos, 10 deles policiais.

Já Nova Iguaçu, também na Baixada Fluminense, registrou menos tiros, mas teve o maior número de mortes: pelo menos 54. No total, foram 85 tiroteios ou disparos de arma de fogo no município, o que o coloca em quarto lugar no ranking total.

Houve ainda pelo menos 21 feridos. São Gonçalo, região metropolitana, é a quinta região que mais notificou tiroteios: 81, com pelo menos 17 mortos e 31 feridos.

Participação

Mais de 3 mil notificações foram enviadas por usuários, mas 490 foram descartadas por serem repetidas, incompletas ou relatarem ocorrências em cidades fora da atual área de cobertura do aplicativo.

Segundo a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro a prioridade da pasta é “a preservação da vida, a convivência pacífica e a redução de índices de criminalidade no estado”, e que, por isso, investe nas Unidades de Polícia Pacificadora desde 2007.

A secretaria destacou como medidas para melhorar a segurança no estado, o Sistema de Metas e Acompanhamento de Resultados (SIM), o Centro de Formação do Uso Progressivo da Força e a Divisão de Homicídios (DH), responsável por investigar os homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial.

Ainda de acordo com a secretaria, mais de 2 mil policiais foram expulsos das corporações desde 2007 pelas corregedorias, por desvios de conduta e abuso de autoridade.

De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora, denúncias sobre atuação de policiais das UPPs podem ser feitas, com anonimato garantido, à Ouvidoria Paz com Voz. Todos os registros são atendidos e acompanhados pelos comandantes das áreas pacificadas.

O serviço recebe demandas pelo telefone (21) 2334-7599, pela internet ou na sede da coordenadoria, na Avenida Itaoca, nº 1.618, em Bonsucesso.

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