Brasil decide rejeitar ajuda financeira do G7 para a Amazônia

O governo brasileiro vai rejeitar a ajuda de 20 milhões de dólares (cerca de 83 milhões de reais) oferecida pelo G7 (grupo das sete maiores potências econômicas do mundo) para combater os incêndios na Amazônia, anunciada nesta segunda-feira (26/08) pelo presidente da França, Emmanuel Macron. A informação foi confirmada pela assessoria do Palácio do Planalto.

“Agradecemos, mas talvez esses recursos sejam mais relevantes para reflorestar a Europa. O Macron não consegue sequer evitar um previsível incêndio numa igreja que é patrimônio da humanidade e quer ensinar o quê para nosso país?”, afirmou ao portal G1 o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, se referindo ao incêndio na Catedral de Notre-Dame, ocorrido no dia 15 de abril. “Ele tem muito o que cuidar em casa e nas colônias francesas”.

“O Brasil é uma nação democrática, livre e nunca teve práticas colonialistas e imperialistas como talvez seja o objetivo do francês Macron”, acrescentou Lorenzoni.

Em nota, o ministério brasileiro das Relações Exteriores listou os “mecanismos internacionais existentes” para financiar atividades de redução do desmatamento e de reflorestamento, no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês).

“Espera-se da França – e de outros países que porventura apoiem suas ideias – que se engajem com seriedade nessas discussões no âmbito da UNFCCC, ao invés de lançar iniciativas redundantes, com montantes que ficam muito aquém dos seus compromissos internacionais, e com insinuações ambíguas quanto ao princípio da soberania nacional“, diz o texto do Itamaraty.

Macron anunciou a ajuda para conter os incêndios na Amazônia na cúpula do G7, que terminou nesta segunda-feira (26/08) em Biarritz, na costa sudoeste da França. Líderes da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido participaram da reunião realizada no fim de semana.

Segundo o presidente francês, parte dos recursos destinados ao reflorestamento estaria vinculada à cooperação com ONGs. A maior quantia financeira seria para o envio de aeronaves de combate a incêndios florestais.

Os líderes da França, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Itália, Japão e Estados Unidos também entraram em acordo sobre uma estratégia para o reflorestamento no médio prazo, que será lançada pela ONU, em setembro.

Após o anúncio de Macron, o presidente Jair Bolsonaro chegou a questionar as intenções por trás da ajuda internacional. “Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia. Será que alguém ajuda alguém – a não ser uma pessoa pobre, né – sem retorno? Quem é que está de olho na Amazônia? O que eles querem lá?”, afirmou ele a jornalistas ao deixar o Palácio da Alvorada.

O Brasil possui em seu território 60% da Floresta Amazônica, que também ocupa partes da Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Mais tarde no Twitter, Bolsonaro escreveu que não se pode aceitar que o presidente francês “dispare ataques descabidos e gratuitos à Amazônia“, “nem que disfarce suas intenções atrás da ideia de uma ‘aliança’ dos países do G7 para ‘salvar’ a Amazônia, como se fôssemos uma colônia ou uma terra de ninguém”.

Macron colocou a crise amazônica em pauta na reunião do G7 em meio a uma troca de farpas com o presidente brasileiro, que depois acusou o francês de agir com “mentalidade colonialista” e de “instrumentalizar uma questão interna do Brasil“.

Macron afirmou que Bolsonaro mentiu ao assumir compromissos em defesa do meio ambiente durante a cúpula do G20 no Japão e, diante disso, ameaçou não ratificar o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.

No domingo, os chefes de Estado e governo do G7 já haviam anunciado que concordaram quanto ao envio de ajuda aos países afetados pelos incêndios na Região Amazônica “o mais rápido possível”.

Além da ajuda do G7, o Reino Unido também prometeu nesta segunda-feira liberar imediatamente 10 milhões de libras (R$ 50 milhões) para auxiliar nas áreas atingidas pelo fogo, segundo declaração do governo britânico divulgada após o encontro em Biarritz.

“Numa semana onde todos nós observamos, horrorizados, a Amazônia queimar perante nossos olhos, não podemos fugir à realidade dos danos que infligimos à natureza”, disse o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, em nota.

O premiê disse considerar essencial que a comunidade internacional lide com os temas ambientais associados ao aquecimento global e à perda de biodiversidade. “Não podemos impedir as mudanças climáticas sem protegermos os ambientes naturais, e não podemos restaurar a natureza global sem lidar com as mudanças climáticas”, observou.

Ele confirmou a participação do país na Conferência do Clima da ONU de 2020 (COP 26), que muitos especialistas afirmam se tratar de um momento crítico para testar os comprometimentos dos governos com a redução do aquecimento global. O evento, segundo Johnson, “terá como foco principal as soluções para as mudanças climáticas que podem ser encontradas na natureza, como o reflorestamento“.

Neste domingo, Bolsonaro comemorou a oferta de ajuda por parte do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, que também prometeu enviar uma aeronave especializada no combate a incêndios

Sem mencionar qualquer país em particular, Bolsonaro disse que, no final da semana passada, falou com “líderes excepcionais” sobre a grave situação gerada pelos incêndios na Amazônia que, na sua opinião, realmente desejam colaborar com o Brasil na luta contra as chamas.

Já o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou na segunda que a ajuda anunciada pelo G7 aos países atingidos pelos incêndios da Amazônia é “uma excelente medida” e “muito bem-vinda”.

O número de incêndios no Brasil aumentou 83% este ano, em comparação com o mesmo período de 2018, com 72.953 focos registrados até 19 de agosto, sendo a Amazônia a região mais afetada.

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