Cientistas transplantaram a memória de uma lesma para outra (e funcionou)

mattyfioner / Flickr

Lesma da espécie Arion fuscus

A transferência de memória já aparece, há décadas, em livros e filmes de ficção científica. Agora, parece estar mais perto de se tornar um fato científico.

Uma equipe de cientistas conseguiu, com sucesso, fazer uma espécie de “transplante de memória” – transferindo material genético conhecido como RNA de um caracol marinho para outro. Alguns dos animais envolvidos foram treinados para desenvolver uma resposta defensiva perante choques elétricos em laboratório.

Quando o RNA destes caracóis foi transferido para outros que não tinham sido treinados, reagiram da mesma forma dos que tinham recebido choques moderados. A pesquisa, publicada esta semana na revista científica eNeuro, ajuda no conhecimento sobre as bases fisiológicas da memória.

RNA significa ácido ribonucleico. Trata-se de uma molécula ligada a funções essenciais de organismos vivos – incluindo a síntese de proteínas no corpo que definiria a expressão dos genes de uma forma mais geral, descreve a BBC.

Os cientistas administraram uma série de choques elétricos leves na cauda dos caracóis da espécie marinha Aplysia californica.

Os animais reagem a adversidades contraindo o corpo. Com os choques, passaram a ter contrações que duravam 50 segundos – uma espécie de reação defensiva extrema.

Depois, quando tocavam levemente nos animais que receberam os choques, eles reagiam com a mesma contração de 50 segundos, enquanto caracóis que não tinham recebido choques reagiam com uma contração de apenas um segundo.

O próximo passo foi extrair RNA de células nervosas de ambos os tipos de caracóis: os condicionados e os não-condicionados. As moléculas foram depois injetadas em dois grupos de caracóis não treinados.

Os cientistas observaram, surpresos, que os caracóis que receberam o RNA de animais condicionados, quando eram tocados, reagiam com contrações de cerca de 40 segundos. Os caracóis que receberam o RNA de animais não-condicionados não demonstraram nenhuma mudança no comportamento defensivo.

Os cientistas notaram um efeito parecido em células sensoriais que estavam sendo analisadas em placas de Petri. O professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, David Glanzman, um dos autores do estudo, afirmou que os resultados indicam algo como “uma transferência de memória”.

Glanzman destacou ainda que os caracóis usados na experiência não foram feridos.

“São caracóis marinhos. Quando percebem ameaças, soltam uma tinta roxa e se escondem dos predadores. Os caracóis usados no estudo se assustaram e soltaram tinta, mas não foram fisicamente afetados pelos choques“, defende Glanzman.

Tradicionalmente, pensava-se que as memórias de longo prazo ficavam armazenadas nas sinapses do cérebro, as junções entre os neurônios. Cada neurônio tem milhares de sinapses. “Se as memórias ficassem nas sinapses, nossa experiência não funcionaria de forma nenhuma”, diz o cientista.

Para Glanzman, as memórias estão alocadas nos núcleos dos neurônios. O estudo vai de encontro a algumas hipóteses levantadas há algumas décadas, segundo as quais o RNA estaria relacionado com a memória.

De acordo com os cientistas, os processos celulares e moleculares nos caracóis são similares aos dos humanos, apesar de o sistema nervoso dos animais marinhos ter apenas 20 mil neurônios – comparados com os cerca de 100 bilhões de neurônios que cada um de nós tem.

Acredita-se que os resultados publicados no eNeuro podem contribuir para a procura de tratamentos para atenuar efeitos de doenças como o Alzheimer e o Estresse Pós-Traumático.

Perguntado se o processo poderia levar a um eventual transplante de memórias adquiridas em experiências de vida, Glanzman disse não ter certeza, mas expressou otimismo de que uma maior compreensão sobre o mecanismo de armazenamento da memória pode levar a mais oportunidades para explorar diferentes aspectos da memória.

Ciberia // HypeScience / ZAP

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