Como fica a economia do Carnaval num ano sem Carnaval?

Cancelamento da festa atinge setor-chave do Rio de Janeiro. Em jogo estão não só dezenas de milhares de empregos, mas também toda uma população mais pobre que depende da informalidade que cerca desfiles e blocos.

Além de mais de 18 mil vidas, a pandemia também tirou do Rio de Janeiro as suas festas mais importantes. Primeiro foi cancelada a mundialmente famosa festa do Réveillon em Copacabana, que costuma atrair três milhões de pessoas. Agora é a vez do Carnaval.

Em janeiro, o vice-governador do Rio, Claudio Castro, apresentou uma solução paliativa para salvar o setor de turismo do pior.

Mas, diante do número ainda alto de infecções e do lento início da campanha de vacinação, as associações responsáveis ​​pelas Escolas de Samba e o Carnaval de rua concordaram em não fazer um Carnaval fora de época em julho.

“O Carnaval é necessariamente uma festa de aglomeração, uma festa de encontros e de multidões. No carnaval, as pessoas se juntam, se tocam, as pessoas se beijam, elas tomam cervejas compartilhadas, bebem bebidas compartilhadas. É uma festa em que não teríamos como instituir protocolos”, diz Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, associação de blocos de rua da Zona Sul do Rio.

“Nós, os organizadores dos blocos, tomamos esta decisão de não realizar o carnaval em 2021. Pela primeira vez na história desse país. Não tem outra saída, não temos outra condição. Seria uma irresponsabilidade se nós organizássemos o carnaval”, complementa.
Centenas de milhares de empregos ameaçados

No setor cultural, na hotelaria e na gastronomia são cerca de 100 mil empregos que estão em jogo. Reportagens sugerem que, durante a pandemia, já se perderam 20 mil vagas nesses setores.

E as previsões são pessimistas: atualmente, apenas 35% dos leitos de hotéis do Rio estão reservados para os dias de folia. Com descontos de até 30%, os hotéis ainda esperam poder ocupar pelo menos metade dos quartos nos próximos dias.

No ano passado a cidade registrou um Carnaval recorde com 100% de ocupação dos hotéis e um total de 2,1 milhões de turistas que injetaram 4 bilhões de reais na economia. Segundo estimativas da Fundação Getúlio Vargas, cerca de 1,5 milhão de turistas celebram o Carnaval carioca todos os anos, com os estrangeiros representando 12% do total. Além disso, o Carnaval traz à cidade cerca de 3,8 bilhões de reais em receitas adicionais.
Pobres são os mais afetados

O jornalista especializado em Carnaval Aydano André Motta vê os números altos do turismo com certo ceticismo. No Rio de Janeiro, explica ele, tais cifras são sempre corrigidas um pouco para cima. Ele reconhece que o cancelamento da festa atingiu duramente o setor.

“Mas quem sofre mais é o povo pobre, que tem no Carnaval uma alternativa de renda importante tanto na preparação das Escolas de Samba para o desfile da Sapucaí, quanto na economia informal em torno dos blocos de rua. Esse impacto é dramático”, comenta.

O maior problema, segundo o jornalista, é a informalidade das relações de trabalho entre as Escolas de Samba e suas centenas de colaboradores. Como o pagamento é feito em dinheiro, não se pagam previdência social nem contribuições previdenciárias. As escolas, neste ano, não teriam como ocupar seus empregados, pois suas atividades estão paralisadas.

No segundo semestre de 2020, o carnavalesco Wagner Gonçalves, diretor artístico da Escola de Samba Estácio de Sá, deu início ao projeto Barracão Solidário, que a cada dois meses ajuda os empregados desligados com cestas básicas.

“Isso não supria muito a necessidade financeira deles, mas dava algum suporte. E agente se manteve unido, deu algum calor afetivo, que é muito nosso aqui do Brasil e é muito do carnaval. Esse abraço simbólico foi muito importante. E a gente recebeu muito afeto de volta, muito carinho, muita força e muita energia para manter viva essa expectativa”, afirma.

Numa situação normal, a dançarina da Escola de Samba Portela Thamires Mattos estaria com a agenda lotada de eventos de marketing nesta época do ano. Mas a maioria das performances foi cancelada.

“Eu tive que me reinventar na quarentena, comecei a fazer faxina em casa de família ,e trabalhei em barzinhos como garçonete. Me reinventei para ter uma renda, para poder continuar pagando minhas contas”, conta. “O brasileiro dá a volta por cima sempre. E com certeza, no final, vai dar tudo certo.”

“Na Viradouro, como em todas as escolas, os prestadores de serviço têm sentido o golpe”, afirma por sua vez Alex Fab, diretor de Carnaval da Escola de Samba Viradouro. “E indiretamente também os fornecedores. Há uma gama de pessoas que trabalham na indústria do carnaval, e que neste momento estão tentando se reinventar. Portanto, estão se reinventando num momento em que o mercado não está dos mais propícios.”

A Viradouro é uma das poucas escolas de samba que tenta manter seu quadro de funcionários ocupado apesar do cancelamento do carnaval. Um pequeno grupo já está trabalhando em ideias para o ano que vem. “[Assim] a gente tem conseguido ajudar vinte dos duzentos profissionais.”

Agora já se tem terra à vista, diz Fab. As primeiras parcelas dos direitos de transmissão da TV para o Carnaval de 2022, que serão pagos às Escolas de Samba pela emissora Globo, estão previstas para meados do ano. Além disso, o prefeito Eduardo Paes, que é fã do carnaval, já sinalizou que está pronto para ajudar financeiramente as Escolas de Samba.

“Este ano que passou em branco sem o carnaval vai aumentar ainda mais a saudade das pessoas. A gente vai ter um 2022, se Deus quiser, já com a população vacinada, e tende a ser o maior carnaval da história. Como já teve lá atrás em 1919, depois da pandemia da gripe espanhola. A gente entende que tem tudo para ser mais uma vez o maior carnaval do século.”

// DW

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