Como o psiquiatra baiano Juliano Moreira transformou o tratamento de transtornos mentais no Brasil

A importância do psiquiatra brasileiro Juliano Moreira é tamanha para a história dos tratamentos de transtornos mentais no Brasil que não seria exagero afirmar que seu trabalho divide essa história entre a barbárie e a saúde – e não somente no que diz respeito direto à psiquiatria.

Nascido em Salvador, na Bahia, em 1872, o cientista e professor baiano era negro e filho de uma escrava, e sua vida foi dedicada a oferecer melhorias para os pacientes psiquiátricos no Brasil, e também para combater o racismo científico – que então popularmente ligava a origem de doenças mentais à cor de pele.

O próprio fato de sabermos pouco sobre a pessoa por trás do nome que batiza diversas instituições psiquiátricas, ruas e edifícios no país comprova o quanto precisamos não só melhorar a memória nacional como combater o racismo que o próprio ajudou a reduzir.

Prodígio, Moreira ingressou na Faculdade de Medicina com somente 14 anos, superando uma infância de pobreza extrema para se formar em 1891, com apenas 19 anos e se tornar um dos primeiros cientistas negros da história do Brasil – formando-se doutor com 22 anos. Apenas cinco anos após se formar, Juliano Moreira já era professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

Quando assumiu a direção do Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, Moreira rapidamente aboliu o uso de camisas de força, retirou as grades das janelas, separou pacientes adultos de crianças e iniciou uma luta que viria a aprovar uma lei federal que garantia assistência médica e legal para doentes psiquiátricos.

Considerado pai da psiquiatria no Brasil e do ideário de um tratamento psiquiátrico humanizado, foi ele também o primeiro professor universitário do Brasil a incorporar a psicanálise no ensino médico e, como vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências, foi Moreira quem recebeu o físico Albert Einstein em sua visita ao Brasil, em 1925.

Em um contexto científico profundamente afetado pelo racismo sistêmico, Moreira foi incansável defensor da ideia de que as doenças mentais derivavam de fatores fisiológicos e circunstanciais – como a pobreza, falta de higiene, de acesso à educação, contra o pensamento que então sugeria que as doenças psíquicas eram relacionadas à miscigenação e à cor da pele.

Por conta de tal luta, Juliano Moreira se tornou também um destacado dermatologista, para provar que a cor da pele não motivava doenças – e se tornou o primeiro pesquisador a identificar a leishmaniose cutânea-mucosa. Foi também importante pesquisador sobre a sífilis, doença que foi tema de sua pesquisa de doutorado.

Um verdadeiro revolucionário das noções e instituições psiquiátricas no Brasil e no mundo, fez parte de dezenas de instituições científicas internacionais em todo o mundo, celebrado como um dos mais importantes nomes em tal meio.

Juliano Moreira viria a falecer de tuberculose em Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro, aos 60 anos, como um verdadeiro revolucionário – alguém que fez desse um lugar melhor para quem mais precisa, cujo a história deve ser contada e celebrada.

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