Composição química da Via Láctea não é como os astrônomos pensavam

De Cia et al.

Ao contrário do que os astrônomos imaginavam, a Via Láctea não é homogênea em composição de gases do meio interestelar, isto é, nos espaços entre as estrelas.

Um novo estudo mostra que o nível de metalicidade pode variar bastante em nossa galáxia, com algumas regiões de composição semelhante ao ambiente solar, e outras com níveis bem inferiores de metalicidade.

Na astronomia, a metalicidade não se refere necessariamente a elementos metálicos, e sim a qualquer coisa que não seja hidrogênio e hélio. É que no início do universo, o espaço era dominado por esses dois elementos da tabela periódica, enquanto os demais se formaram apenas após algumas gerações de estrelas — já que são elas que fabricam todos os elementos a partir da fusão nuclear do hidrogênio.

Por isso, quando se fala em níveis de metalicidade em uma estrela, aglomerado estelar ou galáxia, estamos falando também da idade desses objetos — quanto menor o nível de metalicidade na composição do objeto, mais antigo ele deve ser. Do mesmo modo, se uma região tiver abundância elevada de elementos que não hidrogênio e hélio, significa que muitas estrelas jovens explodiram em supernovas, espalhando novos elementos por lá.

Pois bem, a Via Láctea é uma galáxia antiga, mas ainda capaz de formar muitas estrelas jovens e azuis, em especial das classes O e B. Estrelas dessas categorias são muito quentes, massivas e brilhantes, e isso significa que elas são especialistas em fundir elementos além do hélio em seus núcleos e, em seguida, explodir em supernovas. Com isso, os elementos “metálicos” se espalham pela região e aparecem nas próximas gerações de estrelas.

Como a nossa galáxia é repleta dessas estrelas, imaginava-se que o seu meio interestelar fosse homogêneo, com taxa de metalicidade semelhante à do Sol (conhecida como metalicidade solar). Mas não foi isso o que os autores do novo estudo encontraram. Eles analisaram 25 estrelas O e B, separadas entre si por algumas dezenas de anos-luz, e encontraram grandes variações na metalicidade em um fator de dez.

De acordo com o estudo, a média encontrada foi de 55% de metalicidade solar, com muitas regiões com cerca de 17% da metalicidade solar — o que é considerado um nível baixo. Mas por que isso ocorre? Os autores ainda não sabem ao certo, mas sugerem que o gás, ao cair no disco da Via Láctea em forma de nuvens, se move rapidamente. Em outras palavras, o movimento faz com que o material seja mal distribuído, o que resultaria na falta de homogeneidade.

Seja como for, a descoberta terá implicações nos modelos astronômicos usados em simulações da Via Láctea, e pode impactar até mesmo o estudo sobre a formação e evolução das galáxias. “A partir de agora, teremos que refinar as simulações aumentando a resolução, para podermos incluir essas variações na metalicidade em diferentes locais da Via Láctea”, disseram os autores.

O estudo foi publicado na revista Nature.

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Covid-19: EUA autorizam 3ª dose da vacina da Pfizer para idosos e grupos de risco

Os Estados Unidos autorizaram nesta quarta-feira a aplicação de uma terceira dose da vacina contra a covid-19 da Pfizer para maiores de 65 anos, pessoas com alto risco de contrair uma forma grave da …

Ministério da Saúde recua e volta a recomendar vacinação de adolescentes

O Ministério da Saúde recuou nesta quarta-feira (22/09) e voltou a recomendar a vacinação de adolescentes sem comorbidades contra a covid-19, uma semana após ter recomendado a suspensão. "Concluímos que os benefícios da vacinação de adolescentes …

Queiroga testa positivo para covid-19 e fica em Nova York

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, testou positivo para covid-19 durante a viagem a Nova York, na comitiva do presidente Jair Bolsonaro, e ficará em isolamento na cidade, comunicou nesta quarta-feira (21/09) a Presidência da …

Vulcão em erupção nas Canárias: o cenário 'desolador' enfrentado por moradores afetados pelo Cumbre Vieja

Juan Vicente Rodríguez ainda não chegou às lágrimas, mas ele garante que no final "todos vão acabar chorando". Morador da ilha canária La Palma, Rodríguez observa nas redondezas os rios de lava do vulcão Cumbre Vieja …

Anistia Internacional acusa empresas farmacêuticas de deixar países pobres sem vacinas anticovid

A ONG Anistia Internacional divulgou um relatório nesta quarta-feira acusando os grandes grupos farmacêuticos que produzem vacinas contra a Covid-19 de alimentar uma crise de direitos humanos sem precedentes. Por essa razão, a entidade …

Descobrem na Espanha dezenas de pegadas de espécie extinta de elefantes

Paleontólogos descobriram em Huevla, na Espanha, em um sítio da época do Pleistoceno Superior, trilhas e rastros de elefantes recém-nascidos e juvenis atribuídos a elefantes de presas retas (Palaeoloxodon antiquus). Os elefantes de presas retas são …

Na ONU, Bolsonaro defende ineficaz "tratamento precoce"

O presidente Jair Bolsonaro usou nesta terça-feira (21/09) seu discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas para defender o desacreditado "tratamento precoce" promovido pelo seu governo, que consiste num coquetel de drogas ineficazes …

Turismo em reservas naturais federais no Brasil triplica em 13 anos

Cerca de 15 milhões de turistas visitaram reservas ambientais federais no Brasil em 2019, uma alta de 300% nos últimos 13 anos. Se por um lado esse aumento reflete um maior interesse dos brasileiros em …

Presidente do Conselho da UE acusa EUA de "falta de lealdade" após ruptura de contrato com a França

O presidente do Conselho da União Europeia, Charles Michel, acusou nesta segunda-feira (20) os Estados Unidos de falta de lealdade depois que a Austrália cancelou um amplo contrato com a França para comprar submarinos …

Morcegos das cavernas de Laos podem revelar origem da COVID-19

Descobriu-se que os morcegos que habitam as cavernas do norte de Laos transportam um coronavírus que compartilha uma característica importante com o SARS-CoV-2, dando pistas aos cientistas para desvendar a causa da COVID-19. Uma equipe de …