Denúncias de estupros e assédios desencadeiam #MeToo na China

A edição do Le Monde desta quinta-feira (12) conta como os estupros de uma funcionária da gigante varejista Alibaba por seu chefe e as denúncias contra o cantor Kris Wu por muitas fãs geraram indignação no país. Mas as contestações das mulheres encontram forte resistência em um ambiente ainda severamente censurado.

O escândalo na Alibaba cresceu tanto que o diretor executivo da companhia teve que intervir. Uma semana após as graves revelações de uma funcionária acusando um executivo de estupro, Daniel Zhang escreveu aos seus empregados na última segunda-feira (9) para informá-los que o acusado foi demitido.

O caso da jovem que relatou ter sido agredida sexualmente após um jantar de negócios regado a bebidas alcoólicas atraiu centenas de milhões de visualizações nas redes sociais Weibo, parcialmente propriedade da Alibaba.

A denúncia surge dias após a prisão de Kris Wu, um cantor e ator sino-canadense acusado de estupro por várias fãs e preso em 31 de julho. Depois de uma primeira acusação, cerca de 20 jovens, incluindo muitas menores, denunciaram que o cantor lhes ofereceu oportunidades profissionais em troca de sexo. Esses escândalos alimentam o movimento #MeToo, que luta para emergir na China diante da censura e da pressão social.

A funcionária da Alibaba testemunhou que os fatos datam de 27 de julho, quando ela acompanhou seu supervisor a um jantar de negócios naquela noite em Jinan, capital da província de Shandong. Na ocasião, seu chefe contou a um cliente que havia trazido “uma beldade” para ele.

Ao perceber que a jovem estava sendo apalpada pelo cliente, o chefe preferiu não reagir. Bêbada e inconsciente, ela também foi estuprada por seu superior durante a noite.

No dia seguinte, após relatar os fatos à polícia, a funcionária teve acesso aos vídeos de segurança do hotel. As gravações mostraram que o gerente entrou no quarto da jovem quatro vezes na madrugada.

Nenhuma reação

De volta a Hangzhou, onde fica a sede da Alibaba, ela informou seus superiores sobre a agressão, mas não obteve nenhuma reação da parte deles. Ao tentar contar a história no refeitório da empresa, foi interrompida pelo segurança. Desesperada, ela resolveu publicar seu depoimento em um fórum interno da companhia.

A carta do diretor executivo da empresa foi postada no mesmo fórum, que a comunicação corporativa mais tarde tornou pública: “Este incidente é uma humilhação para todos os funcionários da Alibaba”, escreveu Daniel Zhang. Ele também indicou que o gerente em questão foi demitido após reconhecer ter cometido “atos íntimos” com a jovem em estado de embriaguez.

Os dois executivos que não reagiram à denúncia da funcionária pediram demissão. Na carta, o diretor executivo da Alibaba também criticou “a horrível cultura do consumo forçado de álcool”. Reconhecendo problemas “sistêmicos”, ele anunciou o estabelecimento de uma política antiassédio e seminários sobre o assunto.

De acordo com o correspondente do Le Monde em Xangai, Simon Leplâtre, o assédio e a discriminação das mulheres no local de trabalho são problemas endêmicos na China. Frequentemente, um contrato é celebrado começando com um banquete, seguido por uma ida ao karaokê, onde “jovens anfitriãs” podem ser pagas para fazer companhia aos convidados. As noites acabam eventualmente em casas de massagens, onde são prestados serviços sexuais.

Funcionárias atraentes

Neste cenário dominado pelos homens, as mulheres jovens são extremamente vulneráveis. De acordo com um estudo realizado em 2018, 70% das trabalhadoras entrevistadas disseram ter sido alvo de assédio no emprego.

As companhias chinesas de tecnologia costumam ter muitas mulheres, inclusive em cargos seniores, e às vezes se saem até melhor em igualdade de gênero do que as empresas do Vale do Silício, afirma o diário francês. Mas essa presença, que alcança em média 40% da força de trabalho – como no Baidu, principal buscador da China, na ByteDance, empresa dona da TikTok, e na Didi, líder em reservas de táxis -, não parece ter forte impacto no ambiente de trabalho.

Grandes grupos chineses foram acusados por postarem anúncios de emprego elogiando suas atraentes funcionárias, a fim de contratar candidatos em setores mais masculinos, como a programação. E os ritos de integração dos funcionários costumam ser ocasião de abusos: em 2017, a Tencent, líder das redes sociais e videogames, teve que se desculpar após a veiculação de vídeos mostrando um “jogo” em que as mulheres, ajoelhadas, tinham de abrir com a boca as garrafas de plástico seguradas pelos homens entre as pernas.

Ativismo amordaçado

“Fiquei profundamente chocada com o que aconteceu na Alibaba. Isso é inaceitável e é hora de mudar: e não é apenas na Alibaba, mas também em 40 milhões de outras empresas na China”, declarou Wang Lulu, diretora da filial de Xangai da Ladies Who Tech, uma associação que promove igualdade de gênero nas empresas de tecnologia.

“A luta contra o assédio sexual deve ser incluída na lei e nos estatutos corporativos. É preciso educar, inclusive nas cúpulas das empresas, para construir um ambiente de trabalho inclusivo e diversificado.”

Mas o aumento do controle da sociedade civil não contribui para o processo de conscientização, já que as associações feministas são muitas vezes amordaçadas, como todas as formas de ativismo na China. Nos últimos anos, a ascensão do nacionalismo não colaborou: muitos formadores de opinião defensores do governo chinês atacaram feministas na rede social Weibo. Acusando-as de despertar o ódio contra os homens, eles conseguiram até mesmo a suspensão de várias contas.

// RFI

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