Desmatamento impulsiona emissões de CO2 no Brasil em 2020

Neil Palmer / Wikimedia

Fotografia aérea de uma pequena parte da Amazônia brasileira próxima à Manaus

Na contramão do mundo, que registrou uma redução na média de emissões por causa da pandemia, Brasil teve um aumento de 9,5% no lançamento de gases de efeito estufa. Desmatamento corresponde a 46% do total.

Num ano marcado pela pandemia de covid-19, em que os motores das maiores economias desaceleraram, o Brasil intensificou sua carga de poluição lançada na atmosfera. As emissões brutas de gases de efeito estufa do país em 2020 chegaram a 2,16 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (tCO2e), um aumento de 9,5% em relação ao período anterior. É o maior nível desde 2006.

Isso ocorreu enquanto média global de emissões sofreu uma redução de 7%, por causa das paralisações de voos, serviços e indústrias ao longo do ano passado por causa pandemia.

O movimento contrário à tendência mundial tem uma fonte determinante: o desmatamento. Quando ele sobe, o que foi verificado no ano analisado, o reflexo nesse cálculo é imediato. Os gases que o desmatamento provoca, atividade classificada como mudanças do uso da terra, são responsáveis pela maior parte das emissões brasileiras, 46% do total (998 milhões tCO2e).

“Os gases de efeito estufa lançados na atmosfera pelas mudanças do uso da terra aumentaram 23,6% no ano passado”, ressaltou Tasso de Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, que apresentou o novo levantamento nesta quinta-feira (28/10).

Os dados brasileiros são divulgados num momento em que o mundo se esforça para diminuir a poluição de CO2 num cenário de avanço rápido das mudanças climáticas, comenta Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e um dos autores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

É um aumento muito expressivo. Isso vai trazer uma pressão monstruosa sobre o Brasil nessa conferência do clima”, pontua Artaxo, mencionando a 26º edição da reunião organizada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCC), que começa no próximo domingo, em Glasgow.

“Ninguém vai querer dar dinheiro para o Brasil, ninguém vai querer pagar para um país aumentar a sua principal fonte emissora, que é o desmatamento”, analisa Artaxo, fazendo referência a doações internacionais feitas ao país pela redução da destruição da Floresta Amazônica – como ocorria com o Fundo Amazônia, suspenso sob a administração Bolsonaro.

Mais boi e fertilizante

Depois do uso da terra (46% do total), seguem a agropecuária, com 27% das emissões brutas; o setor de energia (18%); processos industriais (5%) e resíduos (4%).

Em 2020, o agro atingiu um recorde também nesse campo. Foram 577 milhões tCO2e, um aumento de 2,5% em relação a 2019. Esse é o maior índice já medido para a atividade desde 1970, segundo os dados do SEEG.

A contagem leva em conta gases liberados durante a digestão de ruminantes, com destaque para o metano liberado durante o “arroto” do boi, chamado tecnicamente de fermentação entérica. São considerados também tratamento dos dejetos desses animais, cultivo de arroz irrigado, queima dos resíduos agrícolas do cultivo de cana-de-açúcar e algodão, manejo dos solos agrícolas – como uso de fertilizantes.

A fermentação entérica representa a maior parte das emissões do agro (65%). Uma explicação para esse cenário é a permanência de mais bois no pasto devido à queda do consumo de carne no Brasil durante a pandemia. “Essa é uma notícia muito ruim pra o país, já que limitações de emissão de metano vão começar a ser negociadas e impostas”, comentou Artaxo.

O consumo de fertilizantes sintéticos, que também atingiu um patamar inédito em 2020, de 5,3 milhões de toneladas, puxou as emissões desse subsetor em 17,4%. Os pesquisadores que trabalharam nos dados desconfiam que essa subida esteja relacionada à produção de grãos, que teve uma marca recorde de 255,4 milhões de toneladas.

“Apesar da alta, a agropecuária tem grande potencial pra ser explorada em termos de redução de suas emissões. Pra isso, é preciso encontrar formas de dar escala e acelerar técnicas de produção de baixo carbono já conhecidas e usadas”, comentou Renata Potenza, do Imaflora, durante a apresentação do relatório.

Energia

Como esperado, as emissões do setor de energia teve uma redução forte nas emissões, de 4,6%. Isso se explica principalmente pelas restrições e isolamento social no primeiro semestre devido à pandemia, o que diminui a queima de combustíveis fósseis no transporte de passageiros.

“Embora tenha um peso pequeno no geral, o consumo de querosene de aviação caiu pela metade”, pontou Felipe Barcellos, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

O setor de processos industriais e uso de produtos teve uma oscilação de 0,5% para cima, na contramão da energia. Uma alta de 1,6% foi observada na área de resíduos, o que, segundo os pesquisadores, se deve principalmente ao tratamento de esgoto domésticos e aumento na produção de lixo durante a pandemia.

“Esses números são maiores em locais com maior urbanização e população”, afirmou Iris Coluna, analista de projetos do braço da ONG ICLEI na América do Sul.
Dúvidas sobre metas

No ranking global de maiores poluidores, o Brasil ocupa a quinta posição, atrás de China, Estados Unidos, Rússia e Índia. Quando se considera a média mundial de emissões per capita, o brasileiro se destaca: são 10,2 toneladas brutas contra 6,7 da média mundial.

Em Glasgow, o que o país terá a apresentar é uma tendência de curva de crescimento da carga de gases emitida e dúvidas sobre o cumprimento de compromissos assumidos no Acordo de Paris.

Segundo as promessas de 2015, o país reduziria suas emissões líquidas em 37% até 2025 em relação aos níveis de 2005, o que totalizaria uma emissão máxima de 1,3 bilhão de toneladas líquidas de CO2. Além da meta para 2025, o país indicou que chegariam em 2030 com 43% de redução – também em relação a 2005.

Uma manobra feita pelo Ministério do Meio Ambiente no ano passado, porém, deu margem para que o país aumente em 400 milhões de toneladas de CO2e o limite de emissão previsto para 2030. O caso ficou conhecido como “pedalada de carbono” e foi mencionado num relatório recente da ONU como um exemplo de retrocesso.

“Os números do Brasil completam o ciclo negativo desse governo de Jair Bolsonaro”, comentou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, citando o aumento do desmatamento, das invasões de terras públicas e dos crimes ambientais. “O Brasil chega a COP colhendo o que plantou. Plantou destruição ambiental está colhendo em forma de aumento de emissões”, complementou.

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