Obama diz que Trump é sintoma, e não a causa da polarização

jmsloan / Flickr

O antigo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Ex-presidente dos EUA quebra silêncio e faz discurso carregado de críticas ácidas a seu sucessor, mencionando-o pelo nome pela primeira vez. Governo republicano promove “política de medo e ressentimento”, denuncia.

Em um de seus discursos de maior peso político desde que deixou a Casa Branca, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama lançou nesta sexta-feira (07/09) uma série de críticas contra Donald Trump, referindo-se ao governo de seu sucessor como uma “ameaça à democracia“.

Falando a estudantes na Universidade de Illinois, onde recebeu um prêmio por ética no governo, Obama saiu de um período de silêncio político para antecipar temas que devem ser persistidos por ele durante a campanha do Partido Democrata para as eleições legislativas em novembro.

Assim, o ex-presidente não poupou ataques a Trump – às vezes mencionando-o pelo nome, algo inédito, às vezes de forma velada –, denunciando o líder republicano e seus partidários por promoverem uma “política de medo e ressentimento” no governo do país.

Segundo Obama, algumas táticas empregadas pela atual gestão – como aproximar os Estados Unidos da Rússia, encorajar supremacistas brancos e politizar agências de aplicação da lei – representam uma ameaça sem precedentes ao futuro do país.

Apelar para tribos, apelar para o medo, colocar um grupo contra o outro, dizer às pessoas que a ordem e a segurança seriam restauradas se não fosse por aqueles que aparentam ser diferentes de nós, que não soam como nós ou não rezam como nós – isso é uma estratégia ultrapassada, é antiga como o tempo”, afirmou o democrata.

Isso tudo não começou com Donald Trump. Ele é um sintoma, e não a causa das políticas divisórias dos Estados Unidos”, acrescentou. “Trump está apenas capitalizando ressentimentos que os políticos têm atiçado há muitos anos.”

Obama, então, destacou: “Quando há um vácuo em nossa democracia, quando não votamos, ou damos nossos direitos e liberdades fundamentais como garantidos, a política de medo, ressentimento e contenção toma conta.”

De pé diante de uma multidão de jovens, o ex-presidente narrou o caos e a disfunção que caracterizam o governo Trump – e o que ele classificou de um consentimento republicano que permitiu o colapso das normas. “O que aconteceu com o Partido Republicano?”, indagou.

Não é conservador, e com certeza não é normal. É radical. Ao longo das últimas décadas, a política de divisão, ressentimento e paranoia infelizmente encontraram um lar no Partido Republicano”, denunciou o opositor.

Obama ainda alertou contra a ascensão da extrema direita e a proliferação de teorias conspiratórias – incluindo uma em torno de sua própria cidadania, que falsamente afirma que o ex-chefe de Estado não teria nascido nos Estados Unidos.

Ele criticou a postura de Trump diante da marcha de extremistas de direita em Charlottesville, no estado americano da Virgínia, em agosto de 2017, que acabou em confrontos violentos após grupos antirracismo saírem às ruas em contraprotesto. Na ocasião, o presidente disse que “houve culpa em ambos os lados” pela violência.

“Somos americanos. Devemos enfrentar os agressores, e não segui-los”, afirmou Obama. “Devemos enfrentar a discriminação e, com certeza, devemos nos posicionar clara e inequivocamente contra simpatizantes do nazismo. Quão difícil pode ser dizer que os nazistas são maus?”, questionou.

Um apelo para a ida às urnas

Diante de tais tensões, ele ressaltou a importância das eleições deste ano e pediu aos jovens eleitores que canalizem suas frustrações nas urnas, elegendo autoridades que reflitam a rica diversidade do país, e ajudem a recompor uma “democracia saudável”.

Estes são tempos extraordinários. E são tempos perigosos. Em dois meses, temos a chance de restaurar algum semblante de sanidade para nossa política”, declarou o democrata. “Há apenas uma forma de controlar os abusos de poder, e tem a ver com você e seu voto.”

Os Estados Unidos vão às urnas em novembro para eleições legislativas que definirão seus deputados e senadores. O pleito ocorre sempre no meio do mandato de quatro anos do presidente, como forma de medir a satisfação da sociedade com a atual gestão. O voto não é obrigatório.

Os democratas almejam, assim, retomar o controle do Congresso, formado atualmente por uma maioria republicana. Isso explica o tom mais ácido – e direto – adotado por Obama.

Desde que passou a chefia da Casa Branca para Trump, em janeiro de 2017, ele evitou mencionar o nome de seu sucessor em declarações ácidas, limitando-se a criticar medidas polêmicas adotadas pelo republicano, como políticas migratórias restritivas e a saída de acordos internacionais importantes, incluindo o pacto nuclear iraniano e o Acordo de Paris sobre o clima.

Trump ironiza discurso

As declarações mais duras de Obama nessa sexta-feira, no entanto, parecem não ter irritado Trump, que disse ter “sentido sono” ao ouvir o discurso de seu antecessor. “Sinto muito, eu assisti, mas fiquei com sono. Acredito que foi muito, muito bom para dormir”, afirmou.

Em ato eleitoral no estado de Dakota do Norte, o presidente ainda rebateu algumas das declarações proferidas por Obama, como a afirmação de que a boa situação da economia americana é resultado das políticas adotadas pelo governo democrata.

“Tenho que dizer ao presidente Obama: se os democratas tivessem chegado à presidência em novembro há quase dois anos, em vez de termos 4,2% de crescimento do PIB, estaríamos com 4,2% negativos”, afirmou Trump sobre a expansão da economia no segundo trimestre.

Apesar de ter acelerado ligeiramente nos últimos meses, a economia americana já estava em um sólido caminho de crescimento nos últimos anos do governo Obama.

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Como brasileiros driblam a alta dos preços dos alimentos

Inflação mudou os itens nos carrinhos de supermercado e chegou a afetar a popularidade de Lula. Famílias de diferentes bairros de São Paulo contam sobre sua forma de lidar com a situação. "Driblar os preços." É …

Como Alzheimer deixou ator Gene Hackman sozinho em seus últimos dias: 'Era como se vivesse em um filme que se repetia'

O ator Gene Hackman estava sozinho em sua casa, na cidade de Santa Fé, Novo México, nos EUA, quando faleceu. A estrela de Hollywood, com duas estatuetas do Oscar, não fez uma única ligação e não …

Fenômeno misterioso no centro de galáxia pode revelar nova matéria escura

Pesquisadores do King's College London apontaram, em um novo estudo, que um fenômeno misterioso no centro da nossa galáxia pode ser o resultado de um tipo diferente de matéria escura. A matéria escura é um dos …

ONU caminha para 80 anos focando em reformas e modernização

O líder das Nações Unidas, António Guterres, anunciou o lançamento da iniciativa ONU 80 que quer atualizar a organização para o século 21. Na manhã desta quarta-feira, ele falou a jornalistas na sede da ONU que …

Premiê português cai após denúncia de conflito de interesses

Luís Montenegro perdeu voto de confiança no Parlamento, abrindo caminho para novas eleições. Denúncia envolve pagamentos de uma operadora de cassinos a empresa de consultoria fundada por político. O primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, e sua …

Como a poluição do ar em casa afeta a saúde e piora doenças respiratórias

Um levantamento feito em 2024 pela associação Santé Respiratoire France, a pedido da empresa francesa Murprotec, uma das maiores do setor, mostrou que a poluição em ambientes fechados é até nove vezes maior do …

1ª mulher presidente no STM: “Se chegarem denúncias sobre o 8 de janeiro, vamos julgá-las”

Em entrevista à Agência Pública, Maria Elizabeth Rocha, fala de golpe, Justiça Militar e extremismo nas Forças Armadas. O caminho da ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Maria Elizabeth Rocha até a presidência da Corte, no …

Fim do Skype: veja 7 apps para fazer chamadas de vídeo

A Microsoft anunciou que o Skype será desativado em 5 de maio de 2025, depois de mais de 20 anos de serviço. Depois do encerramento da plataforma, os usuários poderão migrar para o Microsoft Teams …

O que aconteceu nos países que não fizeram lockdown na pandemia de covid

Em março de 2020, bilhões de pessoas olhavam pelas janelas para um mundo que não reconheciam mais. De repente, confinadas em suas casas, suas vidas haviam se reduzido abruptamente a quatro paredes e telas de …

Iniciativa oferece 3,1 mil bolsas para mulheres em programação e dados

Confederações de bancários e Febraban anunciaram vagas em três cursos. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e as confederações de bancários – como a Contraf e o Contec – anunciaram nesta terça-feira (11) a oferta …