Eleições 2018: Brasil vai às urnas dividido por abismo ideológico

Marcelo Camargo / Fernando Frazão / Agencia Brasil

Candidatos à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)

Os brasileiros vão às urnas neste domingo para eleger o próximo presidente numa eleição que, segundo especialistas, pode ser classificada como a mais polarizada da história recente do país.

Se em 2014 já havia um racha entre petistas e antipetistas, agora há um abismo ideológico entre eleitores de Fernando Haddad (PT) e de Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo o americano Scott Mainwaring, professor de Ciência Política da Universidade de Harvard e autor de diversos livros sobre democracia e partidos políticos na América Latina, há uma diferença fundamental no tipo de divisão que existia na última eleição para a que vemos hoje: o surgimento do ódio e da revolta.

A polarização em si pode ser administrada. Mas a polarização com ódio ou a polarização com atores que não respeitam regras democráticas pode ser uma ameaça à democracia e a direitos fundamentais”, disse ele em entrevista à BBC News Brasil.

Mas como essa polarização evoluiu tão rapidamente para provocar brigas entre familiares, rompimento de amizades e até violência nas ruas? E quais os riscos dessa divisão para o próximo governo e a democracia?

Ao longo dos meses de campanha, tanto no primeiro quanto no segundo turno, o Brasil assistiu a um compartilhamento maciço de notícias falsas e boatos via WhatsApp, vivenciou discursos violentos contra oponentes por parte dos candidatos e até o esfaqueamento do líder nas pesquisas.

A BBC News Brasil ouviu dois dos principais especialistas em política e democracia do mundo para entender como se formou essa divisão na sociedade e o que pode acontecer daqui para frente.

Os fatores impeachment e corrupção

Mainwaring destaca que o Brasil viu, nos últimos quatro anos, um processo de “corrosão” da imagem de seus principais partidos, principalmente do PT.

Como motivos, o professor de Harvard cita escândalos de corrupção investigados pela operação Lava Jato, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a reação da sigla a esses acontecimentos.

Para ele, as forças de centro-direita e direita aceleraram o processo de polarização ao afastar Dilma. E o PT aprofundou esse quadro ao colocar todos os defensores do impeachment no “mesmo saco”, classificando-os como “golpistas” e “antidemocráticos”.

“Alguns dos que apoiaram o impeachment realmente têm um passado questionável, mas vários outros são inquestionavelmente democratas. Foi uma decisão equivocada do PT tratar todos como traidores, antidemocratas e golpistas. Foi uma decisão que fez escalar a polarização”, avalia o americano, autor do livro Democracies and Dictatorships in Latin America: Emergence, Survival, and Fall.

Após a saída de Dilma, o MDB assumiu o poder com o então vice, Michel Temer. A partir daí, os partidos tradicionais de centro-direita e direita passaram a ocupar o centro das atenções e escândalos de corrupção envolvendo o presidente, o PSDB e o PMDB abalaram a imagem dessas legendas.

O professor de ciência política David Doyle, da Universidade de Oxford, destaca que, diante da frustração com a corrupção no Brasil, surgiu um movimento adicional ao antipetismo, o “antissistema“.

Isso abriu as portas para um candidato que se apresentasse como “de fora da política tradicional” e que defendesse mudanças radicais – no caso, Jair Bolsonaro (PSL). Enquanto isso, a divisão na sociedade se aprofundava, desta vez entre antipetistas / antissistema e anti-Bolsonaro.

“No Brasil, as pessoas, em geral, não se identificam com partidos, com as ideias dos partidos. Mas elas têm uma ideia bem clara dos partidos e dos políticos de que elas não gostam ou não suportam”, diz Doyle, que pesquisa, entre outros temas, política econômica e populismo na América Latina.

Marcelo Sayao / EPA

A guinada para uma polarização ‘com ódio’

Scott Mainwaring diz que o principal combustível para o sentimento de ódio que diferencia a polarização destas eleições à existente em 2014 é a indignação com a corrupção.

Há quatro anos, a investigação Lava Jato começava a revelar alguns dos principais detalhes do esquema de desvio de recursos da Petrobras e o envolvimento dos maiores partidos do Brasil. De lá para cá, vários políticos de peso, incluindo o ex-presidente Lula da Silva (PT), foram presos. A frustração dos brasileiros se transformou em raiva.

Segundo o professor de Harvard, Scott Mainwaring, houve uma radicalização do discurso do PT e da esquerda em geral para defender Lula, o que incluiu críticas ao Judiciário, ao Ministério Público e ao Legislativo.

“O PT tratou esses acontecimentos como uma conspiração de direita e um golpe. O fato de ter havido uma conspiração de forças de direita é só uma parte dessa história. O PT se envolveu em corrupção. Houve uma inabilidade do PT de reconhecer alguns dos erros que cometeu e isso fez com que o diálogo do partido com o centro se tornasse muito mais difícil”, diz Mainwaring.

“Os brasileiros que não apoiaram o PT em 2014, principalmente a classe média e a elite, interpretaram a corrupção não apenas como algo terrível por si só, mas também como responsável pelo declínio econômico do Brasil nos últimos anos.”

Por outro lado, afirma o professor americano, veio o crescimento de uma direita mais conservadora em questões costumes e o fortalecimento de um viés autoritário.

“Nós tínhamos a ideia entre pesquisadores de que havia uma ‘direita envergonhada’ no Brasil, uma direita que não assumia um discurso e uma proposta de direita. Com Jair Bolsonaro, o Brasil não tem apenas uma direita, mas uma direita autoritária.”

O que a polarização pode causar daqui para frente?

David Doyle, da Universidade de Oxford, afirma que os exemplos que a América Latina tem fornecido do que pode ocorrer após eleições tão polarizadas não são os melhores para a democracia.

Ele cita tanto a influência que a polarização teve nos golpes militares das décadas de 60 e 70 na América Latina quanto o impacto que a divisão da sociedade teve na ascensão mais recente de regimes de esquerda, como o chavismo, na Venezuela.

Na Nicarágua, os sandinistas chegaram ao poder numa onda de polarização antissistema. Os chavistas chegaram ao poder na Venezuela em meio a uma polarização antissistema, com (Hugo) Chávez se apresentando como o candidato antissistema”, exemplifica.

Evo Morales, em menor medida, também chegou ao poder na Bolívia criticando as ineficiências e desigualdades das instituições existentes e num ambiente de polarização”, acrescenta.

Ele explica que cenários de extrema divisão dificultam a governabilidade e estimulam a adoção de medidas autoritárias. Se o político já se elege com uma campanha que advoga por uma reforma radical das instituições, são maiores as chances de ele recorrer a mudanças que reduzam o poder de instituições democráticas (Judiciário, imprensa, Legislativo, por exemplo), diz Doyle.

“A dinâmica é muito simples. Uma vez que o governo alcança o poder, num ambiente de extrema polarização, os partidos não conseguem atuar em conjunto. Isso gera ineficiência legislativa e cria incentivos para o presidente se sobrepor ao Congresso, por meio de decretos, por exemplo”, explica.

“E isso, por consequência, gera conflitos entre os Poderes, sobretudo entre o Executivo e o Legislativo. E esse conflito pode levar a algum tipo de ruptura democrática. Tradicionalmente, essa tem sido a história da polarização política na América Latina.”

Ele afirma que uma alternativa a medidas autoritárias ou à paralisia do governo é a moderação do discurso para viabilizar acordos e votações. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula, por exemplo, fizeram concessões para conseguir o apoio do maior número possível de partidos.

“Se você eleger um político cuja principal plataforma é dizer que as instituições existentes não funcionam, ele chega ao poder com um aval para mudar, corrigir ou transformar as instituições. Nós vimos isso na Venezuela, onde houve uma reforma completa das instituições do Estado”, destaca.

“O sistema multipartidário do Brasil exige que, para governar, o presidente agrupe vários partidos numa coalizão. Isso força uma moderação. Eu acho que essa é a esperança que muitos têm, de que Bolsonaro, se eleito, forme alianças com setores mais moderados para garantir a aprovação de propostas no Congresso, em vez de recorrer a outros instrumentos.”

Ataques ao ‘outro lado’

Outra preocupação é que a polarização e a violência no discurso dos candidatos se reflitam no comportamento das pessoas em geral.

Segundo David Doyle, pesquisas mostram que se líderes políticos adotam discursos violentos contra os oponentes ou grupos minoritários, isso acaba gerando uma espécie de aval para comportamentos agressivos por parte da sociedade.

A posição de Donald Trump sobre grupos extremistas de Charlottesville e a sua recusa em reconhecer o extremismo de direita acabou sendo recebido como um aval para a atividade desses grupos. Mesmo aqui, no Reino Unido, com o Brexit (decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia), houve uma escala do discurso anti-imigração. E pesquisas mostram que crimes de ódio contra imigrantes aumentaram significativamente.”

Scott Mainwaring, de Harvard, também vê com preocupação a escalada da violência nas falas dos candidatos e alerta para possíveis riscos à liberdade de imprensa.

“Para a lista de quem deve temer atos de violência após a eleição, é preciso acrescentar jornalistas e defensores de direitos humanos”, afirma. “Se o líder de um país tem uma atitude incendiária e discriminatória em relação ao oponente ou a minorias, isso gera um tom e um exemplo que permitem que aqueles que já eram preconceituosos saiam do armário e transformem esses preconceitos em atos.”

// BBC

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