Afinal, berço da Humanidade não foi a África, mas a Europa

(dr) University of Toronto

Ilustração do Graecopithecus freybergi que, com 7,2 milhões de anos, pode ser o hominídeo mais antigo do mundo

Ilustração do Graecopithecus freybergi que, com 7,2 milhões de anos, pode ser o hominídeo mais antigo do mundo

Segundo um novo estudo internacional, a linhagem comum dos grandes símios e humanos pode ter se dividido várias centenas de milhares de anos antes do que pensávamos.

Os pesquisadores analisaram dois fósseis de Graecopithecus freybergi usando tecnologia de ponta e chegaram à conclusão de que eles pertencem a pré-humanos. Isso indica que a divisão da linhagem humana ocorreu no Mediterrâneo Oriental e não na África, como supúnhamos.

A pesquisa foi liderada por Madelaine Böhme, do Centro Senckenberg para Evolução Humana e Paleoambiente da Universidade de Tübingen (Alemanha), e Nikolai Spassov, da Academia Búlgara de Ciências (Bulgária), e também envolveu equipes da Grécia, Canadá, França e Austrália. Os resultados foram publicados em dois artigos na revista PLOS ONE.

Os chimpanzés atuais são os parentes vivos mais próximos dos seres humanos. Onde viveu o último ancestral comum entre nós e eles é uma questão central e altamente debatida na paleoantropologia.

Até onde sabíamos, as linhagens divergiram cinco a sete milhões de anos atrás. Os primeiros pré-humanos teriam se desenvolvido na África.

De acordo com a teoria de 1994 do paleoantropólogo francês Yves Coppens, a mudança climática na África Oriental poderia ter desempenhado um papel crucial nessa separação.

O novo cenário

A nova pesquisa delineia um cenário diferente para o início da história humana. A equipe analisou dois espécimes conhecidos do hominídeo fóssil Graecopithecus freybergi: uma mandíbula inferior achada na Grécia, e um pré-molar superior encontrado na Bulgária.

Usando tomografia computadorizada, eles visualizaram as estruturas internas dos fósseis e demonstraram que as raízes dos pré-molares estão amplamente fundidas.

(dr) Wolfgang Gerber / University of Tübingen

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“Enquanto os grandes macacos têm duas ou três raízes separadas e divergentes, as raízes de Graecopithecus convergem e são parcialmente fundidas – o que é característico dos humanos modernos, dos humanos primitivos e de vários pré-humanos, incluindo Ardipithecus e Australopithecus“, disse Böhme.

A mandíbula inferior tem características adicionais de raiz dentária, sugerindo que a espécie Graecopithecus freybergi pode pertencer à linhagem pré-humana.

“Ficamos surpresos com os nossos resultados, já que os pré-humanos eram conhecidos apenas na África subsaariana”, complementou Jochen Fuss, estudante de doutorado na Universidade de Tübingen que conduziu esta parte do estudo.

Além disso, Graecopithecus é várias centenas de milhares de anos mais velho do que o mais antigo potencial pré-humano da África, o Sahelanthropus do Chade.

A equipe de pesquisa datou os fósseis na Grécia e Bulgária com métodos físicos e obteve uma idade quase sincronizada para ambos – 7,24 e 7,175 milhões de anos.

Isso é no início do Messiniano, uma era que termina com a dessecação completa do Mar Mediterrâneo.

“Essa data nos permite mover a divisão humana-chimpanzé para a área do Mediterrâneo”, explica David Begun, paleoantropologista da Universidade de Toronto, no Canadá, e coautor do estudo.

Do Saara ao Mediterrâneo

Tal como acontece com a teoria da África Oriental, a evolução dos pré-humanos pode ter sido impulsionada por mudanças ambientais dramáticas.

O deserto do Saara no norte da África se originou há mais de sete milhões de anos. A equipe concluiu isso com base em análises geológicas dos sedimentos em que os dois fósseis foram encontrados. Embora geograficamente distantes do Saara, os sedimentos de cor vermelha são muito finos e podem ser classificados como poeira de deserto.

Uma análise dos isótopos de urânio, tório e chumbo em partículas de poeira individuais mostrou uma idade entre 0,6 e 3 bilhões de anos, e infere uma origem no norte da África.

Além disso, o sedimento empoeirado tem um alto teor de sais diferentes. “Estes dados documentam pela primeira vez um Saara se espalhando 7,2 milhões de anos atrás, cujas tempestades no deserto transportaram poeiras vermelhas e salgadas para a costa norte do Mar Mediterrâneo”, afirmaram os pesquisadores.

Esse processo também é observável hoje. No entanto, a quantidade de poeira que chegava no passado excede em mais de dez vezes a que chega hoje no sul da Europa, comparável à situação na atual zona do Sahel na África.

Os pesquisadores sugeriram que, contemporâneo ao desenvolvimento do Saara no norte da África, um bioma de cerrado se formou na Europa.

Usando uma combinação de novas metodologias, eles estudaram fragmentos microscópicos de carvão vegetal e partículas de silicato de plantas, chamados fitolitos. Muitos dos fitótios identificados derivam de gramíneas e particularmente daquelas que usam a via metabólica da fotossíntese C4, que é comum nas pastagens e savanas tropicais atuais.

A disseminação mundial dessas gramíneas começou há oito milhões de anos no subcontinente indiano – sua presença na Europa era até então desconhecida.

O registro de fitolitos fornece evidências de secas severas, e a análise de carvão vegetal indica incêndios recorrentes. Em resumo, um ambiente de savana, que se encaixa com as girafas, gazelas, antílopes e rinocerontes que foram encontrados junto com Graecopithecus.

“A formação incipiente de um deserto no norte da África mais de sete milhões de anos atrás e a disseminação de savanas no sul da Europa pode ter desempenhado um papel central na divisão das linhagens humanas e chimpanzés”, disse Böhme.

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