Por que somos ‘programados’ a cooperar – mas isso nem sempre funciona

A cooperação é tanto o “superpoder” da raça humana e o motivo pelo qual evoluímos como espécie, quanto nossa fragilidade – seja quando cooperamos de um jeito ruim, por exemplo por meios corruptos, seja pela nossa dificuldade em coordenar a resposta a problemas globais, como a pandemia ou as mudanças climáticas.

Como, então, podemos estimular a “boa” cooperação entre as pessoas e as sociedades, de forma a superar desafios que temos em comum?

Essa pergunta é uma das que permeiam o trabalho da psicóloga britânica Nichola Raihani, professora de evolução e comportamento na prestigiosa Universidade College London, no Reino Unido, e autora do livro recém-lançado The Social Instinct – How Cooperation Shaped the World (O instinto social – como a cooperação moldou o mundo, ainda sem tradução em português).

Ela pesquisa a cooperação desde 2004.

“(Essa) palavra virou sinônimo de metáforas corporativas insossas, evocando imagens de apertos de mão e trabalho em equipe animado. Mas a cooperação é muito mais do que isso: está costurada no tecido das nossas vidas, das atividades mais mundanas, como o transporte público para o trabalho, às nossas conquistas mais extraordinárias, como os foguetes lançados no espaço”, escreve Raihani no livro.

A autora conversou com a BBC News Brasil sobre o poder de cooperação entre humanos e também entre outras espécies, explicou por que a orientação ideológica muda nossa percepção sobre o que é cooperar e por que até mesmo a corrupção é uma forma de cooperação – uma que precisamos inibir constantemente.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista, divididos em tópicos:

O ‘superpoder’ da cooperação humana…

O coronavírus tirou proveito justamente da nossa sociabilidade, comenta Raihani no livro.

“Nossa natureza social nos colocou nesta pandemia, mas também é nossa única forma de sair dela. Para enfrentar o vírus, precisamos cooperar. Felizmente, isso é algo que fazemos extremamente bem. (…) Cooperação é o superpoder da nossa espécie, o motivo pelo qual não apenas sobrevivemos, mas prosperamos em quase todos os habitats da Terra”, ela escreve.

“E o que é menos óbvio, a cooperação é o motivo pelo qual existimos, para começo de conversa. No nível molecular, a cooperação é onipresente: toda entidade viva é composta de genes cooperando com genomas. Subindo para a evolução dos organismos, múltiplas células trabalham juntas para produzir indivíduos.”

…E seus elos frágeis

No entanto, agrega a pesquisadora à reportagem, outras manifestações da cooperação humana são verdadeiros obstáculos à superação de problemas sociais.

“Não costumamos associar palavras como corrupção, pagamento de propina e nepotismo à cooperação, mas são formas de cooperação – que envolvem ajudar sua família, seus amigos (em detrimento da sociedade como um todo). E vimos em vários governos, inclusive aqui no Reino Unido, muitos casos desse tipo de cooperação hiperlocal – ou corrupção – que prejudicaram muito a busca por soluções na pandemia”, explica Raihani. “Então temos que cooperar na forma correta e na escala correta.”

No início da pandemia em particular, duas forças nos puxaram em direções contrárias: de um lado, nossa vontade (ou mesmo necessidade, em alguns casos) em estar perto de familiares ou amigos e, de outro, a importância de nos isolarmos para conter o avanço do vírus.

“É muito difícil conciliar essas forças; é algo que nos causa muita ansiedade e confusão. Por isso, de certo modo é perigoso depender de apelos à natureza do indivíduo, pedir que ‘façam a coisa certa’ – que foi a abordagem usada no início da pandemia”, aponta.

Como, então, estimular o tipo de cooperação necessária para superar desafios como o vírus? Para Raihani, a saída é estabelecer normas claras, além de benefícios pelo “bom” comportamento (e, em certos casos, punições para o “mau”).

“No campo em que eu trabalho, o da Teoria dos Jogos, estudamos esses dilemas sociais em laboratório o tempo todo, usando jogos em que as pessoas interagem, cooperam ou não. E uma coisa que vimos estudando o comportamento humano nesses ambientes supercontrolados é que se você não tem instituições ou incentivos que tornem a cooperação atrativa – por exemplo, se você não tem mecanismos de punição ou incentivos para as pessoas ou para suas reputações – em geral a cooperação é muito baixa entre as pessoas.”

Mudanças climáticas, o maior desafio da cooperação

Que lições podemos tirar disso para as mudanças climáticas, cuja reversão exige cooperação em escala gigantesca?

Para Raihani, nossa resposta coletiva à pandemia não trouxe muito alento, infelizmente.

“De muitas formas, a pandemia é mais fácil de se enfrentar. (…) A maioria de nós está motivada a evitar a contaminação, há um incentivo econômico real de enfrentar a doença, agora temos uma vacina e sabemos o que temos de fazer para mitigar o avanço da doença. Não é um problema de gerações futuras”, pontua.

“No entanto, o que vimos – e que deve nos servir de alerta, no que diz respeito a como enfrentar as mudanças climáticas – é que a resposta à pandemia foi caracterizada por uma reação muitas vezes paroquial e fragmentada em diferentes governos ao redor do mundo, e pelo fracasso em percebermos que estamos todos no mesmo barco, para usar uma frase bastante desgastada, e que somos muito interdependentes – nenhum país sairá (da pandemia) até que todos saiam.”

Sendo assim, ela avalia, “a pandemia nos faz sentir um pouco pessimistas em lidar com um dilema social ainda mais difícil, mas pessoalmente acho que somos capazes. Só não estou convencida de que o faremos. Mas temos que nos manter esperançosos, ou então o que fazer?”

O valor da cooperação em pequena escala

Nesse contexto, diz Raihani, ganha relevância a ideia de “pensar globalmente e agir localmente”.

“Um modo efetivo de enfrentar problemas de grande escala é quando grupos de agentes locais trabalham de modo autônomo para prover benefícios globais”, ela diz.

Ela cita como exemplo o movimento criado dentro dos EUA após o ex-presidente Donald Trump decidir tirar o país do Acordo Climático de Paris (decisão revertida pelo sucessor Joe Biden).

Esse movimento, chamado “we are still in” (ainda estamos dentro, em tradução livre), acabou agregando cerca de 4 mil líderes, políticos, acadêmicos, empresários e investidores se comprometendo a continuar a apoiar medidas de mitigação do aquecimento global e de cumprimento das metas estabelecidas em Paris, a despeito da posição do governo federal da época.

“Essa ideia de que não necessariamente precisamos trabalhar em escala global para obter benefícios globais é importante: há muito o que indivíduos podem fazer em grupos locais, iniciativas comunitárias, em pequena escala, que podem gerar benefícios globais”, explica Raihani.

“É uma mensagem importante, porque se insistirmos que as soluções virão apenas se agirmos todos juntos, a solução vai parecer inatingível, assustadora.”

Como a orientação política afeta a cooperação

Para entendermos a cooperação, também precisamos entender que diferentes grupos vão enxergar suas obrigações morais de modo distinto entre si.

No livro, Raihani fala do conceito de “círculo de apreço moral” (no original em inglês, “circle of moral regard”).

Pense em si mesmo no centro e nas pessoas próximas a você (amigos e familiares) no primeiro círculo, mais próximo desse centro. O segundo círculo, um pouco mais distante, talvez seja o de seus colegas de trabalho. O círculo seguinte pode ser o das pessoas do seu bairro, do seu país, e assim por diante.

“O diâmetro desses círculos e quem está incluído neles, além do seu escopo de obrigação moral perante essas pessoas – em ajudá-las a avançar na vida, por exemplo – varia tanto dentro de um país quanto entre países”, explica Raihani.

“Dentro de países, isso varia dependendo do espectro político: conservadores tendem a ter um círculo menor do que os liberais, o que significa que tendem a colocar mais ênfase na família, nos amigos e no dever primordial de ajudar essas pessoas, com (uma sensação menor de) dever em ajudar estranhos.”

“Também varia entre países: certos países são mais individualistas ou coletivistas. Algumas pessoas questionam se essas denominações são úteis, mas elas nos ajudam a entender a escala em que sentimos obrigação moral de cooperar.”

Por isso, diz ela, é possível traçar elos entre o conservadorismo e o nacionalismo, forças em alta no mundo atualmente, a “um círculo de apreço moral mais encolhido, com mais ênfase nas pessoas próximas e menor preocupação com quem está distante desse círculo”.

Nossa semelhança com as formigas brasileiras

Embora o foco principal da pesquisa de Raihani seja a cooperação entre humanos, ela diz que se surpreendeu com algumas semelhanças que temos com outros animais (e não apenas chimpanzés e demais primatas) no que diz respeito a habilidades cooperativas.

Um exemplo citado no livro é o das formigas brasileiras forelius pusillus: enquanto a maioria delas entra no formigueiro para se abrigar, algumas poucas se sacrificam pelo grupo, ficando para fora da colônia para colocar os grãos finais de terra que vão cobrir o abrigo e proteger o formigueiro de invasores.

E, num sacrifício final em prol da colônia, essas formigas restantes morrem distantes do formigueiro, para evitar atrair a atenção de predadores ao local.

É um exemplo marcante do instinto social, diz Raihani.

“O interessante para mim é o quanto podemos aprender sobre nós mesmos como espécie profundamente social e cooperativa ao olhar não apenas aos primatas, mas a toda a árvore da vida e ver o que temos em comum com outras espécies que têm vida social.”

A cooperação entre estranhos

Dito isso, a cooperação humana tem diferenciais marcantes, é claro.

“Somos a única espécie com uma Capela Sistina, que construiu cidades para milhões de pessoas que não são relacionadas entre si e sequer se conhecem, então somos claramente diferentes na escala e na extensão em que cooperamos”, explica a autora.

Primeiro, ela diz, nós humanos cooperamos dentro de instituições, com incentivos e punições para quem se enquadra ou não nas regras sociais.

Em segundo lugar, uma grande diferença reside na psicologia humana.

“A formiga que heroicamente se sacrifica pela colônia, sob a nossa perspectiva, (praticou) um ato de bravura. Mas da perspectiva da formiga, a cognição que embasa esse comportamento dificilmente será sequer remotamente parecida a isso. Então embora possamos ter comportamentos (cooperativos) parecidos, usamos uma cognição completamente diferente para atingi-los, o que em parte nos permitiu escalonar nossa cooperação em diferentes contextos e diferentes frequências.”

‘O Aprendiz’ na evolução humana

A raiz disso está, também, na cooperação e na competição entre nossos genes, ela argumenta.

Raihani defende ideias similares às de Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta (1976), que teoriza como as espécies surgem e se diversificam. O título do livro, diz Raihani, fez muita gente relacionar essa teoria a “algo nefasto, ruim, malévolo – atributos de pessoas egoístas. Há um erro (de compreensão) quanto ao livro, de que apenas genes egoístas prosperariam e que esses genes são encontrados dentro de pessoas egoístas – e nenhuma dessas coisas é verdadeira”.

Ela explica que, na verdade, trata-se do esforço de cada gene em ser passado adiante às gerações futuras.

“A cooperação (com outros genes) é a forma de o gene garantir seu interesse próprio. Muitas vezes, a cooperação e o interesse próprio são a mesma coisa. (…) E sabemos que genes egoístas estão em todas as pessoas, desde nas pessoas mais gentis, as Madres Teresas do mundo, até nos piores exemplares da humanidade. São genes egoístas no sentido de que buscam o interesse próprio, porque genes que não o buscam simplesmente deixam de estar na nossa composição genética.”

Quando a cooperação deixa de fazer sentido para o interesse próprio de um determinado gene, ele deixa de cooperar – assim como fazem os indivíduos dentro de uma sociedade.

Raihani compara essa dinâmica ao reality show O Aprendiz – aquele que alçou Donald Trump à fama mundial nos anos 2000.

No programa, os competidores são divididos em duas equipes, as quais competem entre si – e, portanto, os indivíduos cooperam intra-grupo para vencer os adversários. Na equipe perdedora, porém, um indivíduo será eliminado. Nessa etapa, os membros do grupo deixam de ter interesse em colaborar, e passam a disputar entre si a permanência no programa.

“Uso esse exemplo para ilustrar que certas características podem às vezes tornar benéfico que genes, células ou indivíduos trabalhem juntos. Mas quando esse contexto benefício se acaba, você vê a competição emergir entre aquele grupo de indivíduos”, analisa Raihani.

“A analogia mostra que a cooperação é muito sensível ao contexto. Se o contexto mudar, a cooperação pode completamente evaporar. Vemos exemplos disso o tempo todo. Em um jogo de futebol, por exemplo, existe a tensão real entre colaborar para o grupo vencer e tentar ser a estrela do jogo. E num jogo de crianças, que não entendem esse conceito de passar a bola entre si, elas sempre querem estar com a bola e ser quem vai marcar o gol. (…) Vemos essa tensão entre cooperação e interesse próprio se desenrolar em muitos cenários diferentes, com muitos desdobramentos diferentes.”

// BBC

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