O que teria acontecido com os 96 sacos de excrementos deixados na Lua pela NASA?

“Quem foi que disse que eles podem vir aqui, nas estrelas, fazer xixi?”, já questionava Guilherme Arantes na música Xixi nas Estrelas, mesma em que ele diz que “se eles pensam que podem fazer aqui em cima o que fazem na Terra, estão redondamente enganados”.

Bom, parece que redondamente enganado estava mesmo o autor da ilustre canção, pois além de deixar pegadas na superfície lunar, os astronautas das missões Apollo também fizeram xixi e cocô na Lua. E agora, 50 anos depois, precisamos buscar 96 sacos de excrementos para descobrir o que aconteceu com eles após todo esse tempo.

A ideia de buscar as bolsas de fezes deixadas na Lua é verificar se ainda há algo vivo ali dentro. Fezes humanas, apesar de nojentas, são cheias de vida — cerca de 50% de suas massas é composta por bactérias, abrigando ali algumas das mais de mil espécies de micróbios que vivem em nossos intestinos. Ou seja: um pedaço de cocô é, na verdade, um ecossistema incrível.

Além de fezes, as sacolas de dejetos deixadas pelos astronautas das missões Apollo também têm urina, restos de comida, vômitos e demais resíduos do tipo e assim que a NASA conseguir voltar presencialmente ao nosso satélite natural, seus cientistas terão em mãos um montão de lixo humano que permaneceu na Lua por várias décadas para descobrir o quão resiliente é a vida no inóspito ambiente lunar.

E, caso micróbios tenham sobrevivido, será que eles também sobreviveriam a viagens interestelares, semeando a vida em todo o universo?

Durante o programa Apollo, a NASA levou seis missões tripuladas para pousar em nosso satélite natural: Apollo 11 em 1969, Apollo 12 em 1969, Apollo 14 em 1971, Apollo 15 em 1971, Apollo 16 em 1972, e a Apollo 17 em 1972.

Como cada uma dessas missões contava com três astronautas, mas somente dois pousaram na Lua por vez (o terceiro ficava no módulo orbital enquanto a dupla explorava a superfície), um total de 12 pessoas tiveram o privilégio de colocar os pés no regolito lunar: Neil Armstrong, Buzz Aldrin, Pete Conrad, Alan Bean, Alan Shepard, Edgar Mitchell, David Scott, James Irwin, John Young, Charles Duke, Eugene Cernan e Harrison Schmitt.

E, bem, senão todos, boa parte deles certamente sentiu vontade de “encher as fraldas” enquanto saltitavam curtindo a microgravidade lunar. Sim, fraldas.

Na época das missões Apollo, a solução encontrada pela NASA para que os astronautas fizessem suas necessidades fisiológicas de maneira segura foi acoplar uma sacola de plástico nas nádegas para capturar as fezes diretamente, sem que o excremento entrasse em contato com o ambiente.

Mas isso valia para os momentos em que os astronautas estavam dentro de suas naves, apenas. Então, o que fazer se desse uma vontade incontrolável de fazer um “número 2” enquanto estavam explorando a superfície lunar? Bem, a NASA desenvolveu e forneceu aos astronautas uma “vestimenta de máxima absorção” para “contenção fecal”. Em outras palavras, os astronautas que entraram para a história pisando na Lua o fizeram enquanto usavam fraldas.

Em 1969, quando Neil Armstrong desceu à superfície lunar e se tornou a primeira pessoa a deixar pegadas na Lua, uma foto tirada por ele mostra uma paisagem repleta de crateras, com um saco de lixo branco aparecendo logo ao lado do módulo de pouso. Seria essa uma das fatídicas “bolsas de cocô” deixadas por eles? Bom, seu colega Buzz Aldrin não confirmou (ou negou) essa suspeita, mas é fato que eles, bem como os outros astronautas que pisaram em nosso satélite natural, deixaram sacos de resíduos humanos por lá.

Charlie Duke, da Apollo 16, passou 71 horas na Lua em 1972. Ele mesmo confirmou recentemente que sua tripulação deixou resíduos para trás: “Fizemos. Deixamos a urina que foi coletada em um tanque, e acredito que tivemos alguns rejeitos intestinais — mas não tenho certeza — que estavam em um saco de lixo”, disse.

Ele explica, contudo, que depositaram ali o lixo pensando que tudo seria higienizado pela ação da radiação solar. “Eu ficaria realmente muito surpreso se alguma coisa sobrevivesse”, disse, mas de qualquer maneira trazer de volta esses sacos de lixo à Terra não seria uma opção.

“Missões lunares foram projetadas com muito cuidado, e o peso era um problema muito grande. Então fazia sentido, se você pegasse pedras da Lua, que também quisesse descartar coisas que não seriam necessárias, para aumentar sua margem de segurança”, explica Andrew Schuerger, cientista de vida espacial da Universidade da Flórida e coautor de um artigo sobre a viabilidade de haver micróbios sobreviventes na Lua.

Alguma bactéria fecal poderia ter sobrevivido?

Essa é a pergunta de “um milhão de dólares”, algo que será respondido na próxima década quando a NASA voltar a levar pessoas para a Lua — o que deve acontecer em 2024, já que o governo dos Estados Unidos está pressionando a agência espacial para acelerar esses planos.

Embora a ideia de se coletar cocô de astronauta feito há décadas só para ver se alguma bactéria sobreviveu ali possa parecer algo bobo, a verdade é que esse estudo fornecerá insights importantes sobre as condições extremas que a vida é capaz de suportar.

Outra questão envolvida é sobre o potencial humano de contaminar outros corpos celestes, seja para o mal, seja com o intuito de semear vida espaço afora. E essas questões são suficientes para que, quando voltarmos à Lua, analisemos tais amostras.

É verdade que as chances de que algo tenha sobrevivido nos excrementos deixados na Lua são pequenas. Afinal, a Lua não possui campo magnético para protegê-la contra a radiação cósmica, não possui camada de ozônio para absorver raios ultravioleta do Sol, e o vácuo lunar é inóspito para a vida.

Sem atmosfera, a Lua ainda sofre variações imensas de temperatura entre o dia e a noite, com sua superfície registrando temperaturas de 100 graus Celsius de dia, caindo para -173 ºC à noite, sendo que a noite lunar dura duas semanas terrestres.

Mas, ainda que a maior chance seja de que a combinação de radiação e extremas temperaturas tenha matado todos os micróbios nos sacos de lixo, Schuerger diz que há uma “pequena probabilidade” de que alguma bactéria mais resistente tenha sobrevivido. Margaret Race, bióloga do Instituto SETI, concorda: “os micróbios não precisam ter muita proteção”, disse.

“Nós ainda não temos uma definição de vida que diga ‘nunca pode ir além dessa temperatura, além dessa salinidade, além desse nível ácido’. Toda vez que olhamos lugares [na Terra], encontramos a vida“, disse Race. E é verdade que, aqui em nosso planeta, a vida bacteriana floresce e prospera em lugares que, à primeira vista, não abrigariam vida alguma, incluindo os pontos mais baixos do fundo do oceano, em fontes de calor escaldante e milhares de quilômetros abaixo de geleiras.

Contudo, sem umidade, bactérias não podem se replicar. Para que o ambiente selado permanecesse úmido por todo esse tempo, o lixo humano teria de ter sido embalado muitíssimo bem, e para que qualquer vida que ali tenha se reproduzido continuasse viva por todo esse tempo, os sacos teriam que estar intactos até hoje — o que pode não ter acontecido dada as variações de temperatura na Lua, que podem ter causado rasgos na sacola pelas forças mecânicas envolvidas com o aquecimento e o resfriamento.

Além disso, quando as bolsas foram expostas ao Sol, não se sabe quais as temperaturas internas registradas ali. Se esses valores máximos forem de 100 graus Celsius, “as bactérias provavelmente sobreviveriam apenas alguns dias ou semanas na Lua”, conforme explica Schuerger.

Ainda assim, na visão de Mark Lupisella, cientista da NASA, mesmo que toda a vida nos sacos de resíduos intestinais deixados pelos astronautas já esteja morta há muito tempo, o estudo segue válido, pois dessa maneira a ciência pode descobrir quanto tempo os micróbios em questão viveram na Lua, e se eles evoluíram ou conseguiram se adaptar ao ambiente.

Quer dizer, é uma ideia um tanto quanto exagerada, mas não impossível — a de que a seleção natural tenha agido e, em cinquenta anos, os microorganismos possam ter evoluído ali para conseguir sobreviver.

Além disso, há sempre a possibilidade de que alguns micróbios mortos sejam ressuscitados. Depois de décadas de dormência, alguns deles podem ser trazidos de volta à vida nas condições adequadas para tal, lembrando que esporos bacterianos no Ártico foram revividos após milhares de anos congelados.

E, bem, se a vida microbiana sobreviveu na Lua, mesmo em um estado dormente, isso pode significar que micróbios são capazes, sim, de sobreviver por longos períodos no espaço, o que significa que a vida seria teoricamente capaz de viajar entre diferentes mundos e se propagar ao longo do caminho.

“A vida simples pode se espalhar pelo cosmos ou precisa esperar bilhões de anos até que existam espécies tecnológicas para espalhá-la? Essa é apenas uma de muitas questões científicas importantes que tentaremos responder quando voltarmos à Lua”, disse o cientista planetário Phil Metzger.

Preservando artefatos históricos deixados na Lua

Para além da necessidade de coletarmos e estudarmos algumas dessas sacolas de fezes deixadas na Lua pelos astronautas, há também a necessidade de se preservar artefatos históricos deixados por lá nos locais de pouso das naves do programa Apollo. Estima-se que um pouso a menos de 100 metros de um sítio de pouso da Apollo já poderia danificar os equipamentos que ali estão, por sinal.

E, por mais absurdo que pareça, proteger a história da exploração humana na Lua também significa proteger o lixo deixado por astronautas, que não somente tem valor histórico, como científico. Na superfície lunar, as seis missões Apollo que contaram com o pouso de pessoas na Lua deixaram mais de 100 itens artificiais, desde as bolsas de excrementos até homenagens a cosmonautas russos.

Entre tudo o que a humanidade já deixou na Lua, estão coisas como: mais de 70 naves, 5 bandeiras dos Estados Unidos, 2 bolas de golfe, 12 pares de botas, câmeras de TV, revistas de cinema, martelos, mochilas, mantas isolantes, toalhas utilitárias, lenços umedecidos, kits de higiene pessoal, embalagens vazias de alimentos, uma fotografia da família do astronauta Charles Duke, uma pequena escultura de alumínio, um patch da missão Apollo 1, um disco de silício com mensagens de boas vindas de 73 líderes mundiais, um pino de prata do astronauta Alan Bean, uma medalha homenageando os cosmonautas Vladimir Komarov e Yuri Gagarin, e um ramo de oliveira dourado — além de, claro, as 96 bolsas contendo urina, fezes e vômito.

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