Depois de 160 anos, uma das teorias da evolução de Darwin é comprovada

Nordin Catic

“A Origem das Espécies”, de Charles Darwin

A pesquisadora em antropologia biológica Laura van Holstein, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), provou uma das teorias da evolução de Charles Darwin pela primeira vez, quase 140 anos após sua morte e 160 depois da publicação de sua famosa obra.

Em sua pesquisa, Laura van Holstein descobriu que subespécies de mamíferos desempenham um papel mais importante na evolução do que pensávamos.

“No capítulo III de A Origem das Espécies, Darwin disse que linhagens de animais com mais espécies também deveriam conter mais ‘variedades’. Subespécie é a definição moderna. Minha pesquisa investigou a relação entre espécies e a variedade de subespécies e prova que as subespécies desempenham um papel crítico na dinâmica evolutiva a longo prazo e na evolução futura das espécies. E sempre o fizeram, e era isso que Darwin suspeitava quando estava definindo o que realmente era uma espécie”, explicou a pesquisadora ao Phys.org.

A título de explicação, uma espécie é um grupo de animais que pode cruzar livremente entre si. Algumas espécies possuem subespécies, populações que se diferenciam por traços físicos e faixas geográficas de reprodução.

Por exemplo, a girafa-do-norte tem três subespécies que geralmente vivem em três localizações diferentes. A raposa-vermelha é o animal com mais subespécies conhecidas espalhadas ao redor do mundo – 45. Seres humanos, por sua vez, não possuem subespécies.

A diferença de habitat na evolução

Para confirmar a teoria de Darwin, a cientista analisou dados coletados por naturalistas ao longo de centenas de anos, mesmo antes de Darwin publicar seu livro, em 1859. A maioria desses dados veio do “Wilson and Reeder’s Mammal Species Of the World”, um banco de dados global de taxonomia de mamíferos.

A pesquisa de van Holstein comprovou que a evolução acontece de formas diferentes em mamíferos terrestres versus não terrestres (aquáticos e voadores, como o morcego) por conta de diferenças em seus habitats e nas suas habilidades de vagar livremente.

Em outras palavras, a relação evolutiva entre espécies e subespécies de mamíferos difere dependendo do seu habitat.

“As subespécies se formam, se diversificam e aumentam em número de maneira diferente nos habitats não terrestres e terrestres, e isso, por sua vez, afeta como as subespécies podem eventualmente se tornar espécies. Por exemplo, se uma barreira natural como uma cadeia de montanhas se interpõe, ela pode separar grupos de animais e enviá-los para suas próprias jornadas evolutivas. Os mamíferos voadores e marinhos – como morcegos e golfinhos – têm menos barreiras físicas em seu ambiente”, afirmou van Holstein.

Especiação

Será que subespécies podem ser consideradas um estágio inicial de especiação, ou seja, da formação de uma nova espécie? Essa é uma das questões exploradas pelo novo estudo.

A resposta é sim. Mas a evolução não é determinada pelos mesmos fatores em todos os grupos, e pela primeira vez sabemos o porquê, porque examinamos a força dos relacionamentos entre a riqueza de espécies e subespécies”, esclareceu van Holstein.

Conservação

O novo estudo também serve como um alerta para a forma como o impacto humano afeta o habitat de animais e sua evolução.

Essa informação pode ser usada pelos conservacionistas para prever quais espécies podem ser mais ameaçadas e determinar onde concentrar seus esforços para evitar a extinção.

“Os modelos evolutivos agora podem usar essas descobertas para antecipar como as atividades humanas, como a extração de madeira e o desmatamento, afetarão a evolução no futuro, interrompendo o habitat das espécies. O impacto nos animais variará dependendo das alterações nas suas capacidades de vagar. As subespécies animais tendem a ser ignoradas, mas desempenham um papel central na dinâmica da evolução a longo prazo”, defendeu van Holstein.

Próximos passos

Como um próximo passo, a cientista irá analisar como suas descobertas podem ser utilizadas para prever a taxa de especiação de espécies ameaçadas e não ameaçadas de extinção.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B. [Phys]

*Nota sobre o que Darwin disse no terceiro capítulo de A Origem das Espécies: “Da observação das espécies apenas enquanto variedades muito marcadas e bem definidas, cheguei à hipótese de que os gêneros maiores de cada território oferecem variedades com mais frequência que os gêneros menores – já que onde se tenham formado muitas espécies afins (i.e., espécies do mesmo gênero), também devem, regra geral, estar em formação muitas variedades ou espécies incipientes. Onde nascem muitas árvores, esperamos encontrar árvores novas.”

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