Criar um universo em laboratório já não é mais uma piada no mundo da física

Pablo Carlos Budassi / Wikimedia

Conceito artístico do aspecto de todo o Universo conhecido

A ideia de um dia sermos capazes de criar um universo em laboratório deixou de ser apenas uma piada e passou a ser uma questão discutida de verdade no mundo da física.

Zeeya Merali, cosmóloga e autora do livro A Big Bang in a Little Room: The Quest to Create New Universes, aborda a questão em um texto publicado no site Aeon, analisando o tema e suas ramificações práticas e filosóficas.

Assim, Merali inicia sua lista de argumentos com a história de Andrei Linde, um cosmólogo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que escreveu um artigo sobre o tema no qual delineou a possibilidade de criar um universo em laboratório, no qual poderia desenvolver suas próprias estrelas, planetas e até vida inteligente.

Mas Linde foi mais longe: no final do artigo, o autor sugere que nosso próprio universo poderia ter sido criado dessa forma por um físico alienígena. “Os revisores do artigo se opuseram a esta ‘piada suja’”, conta Merali, adiantando que Linde mudou o título do artigo, mas se manteve firme em relação à teoria.

É a partir dessa história que Zeeya Merali afirma que a ideia da criação de um universo em laboratório tem sido cada vez mais levada a sério no mundo da física. “A noção de criação de universos – ou “cosmogênese”, como chama – parece menos cômica do que nunca”, refere.

Na verdade, os pares que fizeram a revisão de Linde (da revista científica Nuclear Physics B) se preocuparam com o que não interessa, e Merali explica: “a questão que se impõe não tem a ver com quem pode, ou não, ficar ofendido com a cosmogênese (como é o caso dos religiosos), mas sim o que aconteceria se isso fosse realmente possível”.

Que responsabilidades morais surgiriam caso humanos falíveis assumissem o papel de criadores cósmicos?”, questiona.

Mas há outras questões que se impõem, como o fato de a criação de um novo universo em laboratório esbarrar de frente com as noções que os físicos têm sobre a criação do nosso próprio universo.

“Na década de 1980, o cosmólogo Alex Vilenkin, da Universidade Tufts, em Massachusetts, criou um mecanismo através do qual as leis da mecânica quântica poderiam ter gerado um universo a partir de um estado em que não havia nem tempo, nem espaço, nem matéria”, conta. Em outras palavras, nosso Cosmos poderia ter sido criado pelas leis da física.

Aliás, para Vilenkin, essa teoria desmistificava o Big Bang e o que havia antes desse evento: rigorosamente nada.

Contudo, no outro extremo, a cosmóloga encontrou Don Page, um físico e cristão evangélico da Universidade de Alberta, no Canadá. Para Page, Deus criou o Universo ex nihilo, ou seja, do nada.

Por contraste, o tipo de cosmogênese de Linde exigiria que os físicos inventassem um Cosmos altamente técnico em laboratório, usando um instrumento muito mais poderoso do que o Large Hadron Collider e uma partícula-semente, chamada “monopolo magnético“, que ainda não foi encontrada.

Mas esse novo universo não iria se expandir dentro do nosso. “Em vez de crescer em tamanho dentro do nosso universo, o monopolo em expansão dobraria o espaço-tempo dentro do acelerador para criar um minúsculo wormhole (buraco de minhoca) que levaria a uma região separada do espaço, explica a cientista.

Assim, no laboratório, “veríamos apenas a boca do wormhole, pequeno e totalmente inofensivo. Mas se pudéssemos viajar através dele, passaríamos, através de um portal, para um universo em rápida expansão”, conclui.

Responsabilidade divina

Mas Zeeya Merali aborda ainda o tema de outro ângulo: se criássemos um universo que tivesse, eventualmente, a própria vida inteligente, qual seria o nosso papel enquanto criadores?

“Como explico no meu livro, a teoria atual sugere que, uma vez criado o novo universo, teríamos pouca capacidade de controle sobre sua evolução, com a possibilidade de causar sofrimento aos seus residentes. Isso não nos tornaria divindades irresponsáveis e imprudentes?”, questiona.

Merali fez a mesma pergunta a Eduardo Guendelman, da Universidade Ben Gurion, em Israel, e o físico demonstrou que as questões morais não lhe causam qualquer desconforto. “Guendelman compara os cientistas que refletem sobre a responsabilidade de criar um universo com os pais que decidem se querem ou não ter filhos, sabendo que irão inevitavelmente apresentá-los a uma vida cheia de dor e alegria”, conta.

No entanto, segundo a cosmóloga, os cientistas evitam falar sobre essas questões por considerarem-nas desnecessárias, pelo menos por enquanto. Isso significa que as preocupações éticas podem esperar, considera a comunidade científica.

Ciência sem medo

No seu livro, Merali defende que todas as discussões são necessárias para que os cientistas consigam desenvolver seu trabalho sem medo de ofender determinada religião.

“Os pares da Nuclear Physics B prestaram um ‘desserviço’ tanto à física quanto à teologia ao censurar a ideia de Andrei Linde de que o nosso universo poderia ter sido criado por físicos alienígenas”, aponta a cientista.

“Esse pequeno ato de censura serviu apenas para sufocar uma discussão importante. O perigo real está em promover um ar de hostilidade entre as duas visões, deixando os cientistas com medo de falar abertamente sobre as consequências religiosas e éticas do seu trabalho com medo de represálias ou, até, da própria ridicularização profissional”, critica a autora.

“Embora seja compreensível que os cientistas se afastem da filosofia, com medo de serem considerados estranhos por saírem da sua zona de conforto, o resultado indesejado é que muitos deles ficam quietos no que diz respeito às coisas que realmente importam”, conclui.

Ciberia // HypeScience / ZAP

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