Vogue do Brasil é acusada de assédio e diretora tida como pivô comparada ao ‘Diabo Veste Prada’

A cultura tóxica na redação da Vogue Brasil deixou de ser um burburinho no mercado de comunicação para ganhar caráter de denúncia por meio de uma reportagem publicada pelo BuzzFeed News Brasil.

Nos meses de julho e de agosto, o BuzzFeed News ouviu 27 pessoas que trabalharam na empresa como funcionários ou prestadores de serviços nos últimos anos. E todas as fontes relatam situações de abuso e ter presenciado gritos e xingamentos, muitas vezes durante jornadas de 24 horas ininterruptas antes do fechamento de cada edição.

Segundo a matéria, na revista da Editora Globo e da editora Internacional Condé Nast, o clima é tão pesado na revista que há anos corre a anedota: os banheiros da redação são feitos para chorar, e não para outras funções fisiológicas. A piada disfarça um assunto sério: as relações abusivas no trabalho.

“Humilhação lá era uma coisa que rolava o tempo todo. Toda hora alguém voltava do banheiro com cara de choro”, contou Marina Milhomem, que começou a estagiar na revista em 2016. “Eu mesma fiz isso muitas vezes, chorava muito”, relatou ao Buzzfeed.

Medo da chefia e falta de apoio nas denúncias

Outra queixa recorrente é que colaboradores tinham de assumir funções profissionais que fugiam aos seus contratos sem receber nada por isso e toda essa cultura se mantém pois os trabalhadores relataram medo constante de seus chefes, além de falta de apoio quando denunciaram situações de assédio.

O relato dessas dezenas de funcionários aponta um nome por trás dessa cultura corporativa: a jornalista Daniela Falcão, diretora-geral das Edições Globo Condé Nast. Falcão é o nome à frente da Vogue desde 2005, quando o título ainda pertencia a outro grupo editorial, e ganhou poder nos últimos 15 anos, em uma trajetória análoga à da sua equivalente americana, a editora Anna Wintour – comparação que está longe de ser um elogio.

Conhecida por sua ética de trabalho incansável, seu perfeccionismo implacável e estilo de microgestão, Daniela Falcão é principal responsável pela cultura trabalhista da Globo Condé Nast, disseram os ex-funcionários ouvidos pelo BuzzFeed News, e mais de um deles a comparou com Miranda Priestly, a editora de revista que abusava de seus funcionários no filme ‘O Diabo Veste Prada‘ (2006). Meryl Streep se inspirou em Wintour para desenvolver a personagem.

Desde 2017, Falcão é a responsável pelas revistas Vogue, GQ, Glamour e Casa Vogue, e no mesmo ano foi considerada uma das 500 pessoas mais importantes da moda mundial pelo site Business of Fashion.

Os relatos de assédio no trabalho compreendem a última década e meia, e vão da base da pirâmide, onde se encontrava a estagiária Marina, até os cargos mais altos, aonde chegou a jornalista Mônica Salgado, que entrou na Vogue em 2007, foi uma das criadoras da Glamour brasileira e dirigiu a revista até 2017.

Infelizmente, não foi uma nem duas vezes que, em reunião de diretoria, Daniela, já como diretora editorial ou geral da Edições Globo Condé Nast, usou palavras fortes para desmerecer o trabalho (ou a capacidade intelectual) dos diretores, interromper suas explanações, diminuir seus feitos. Eram momentos constrangedores e desconfortáveis para todos”, disse Salgado.

De acordo com a reportagem do Buzzfeed, as Edições Globo Condé Nast e Daniela Falcão foram procuradas desde 20 de agosto para comentar as alegações específicas das ex-funcionários e ex-colaboradores e, em resposta, enviou uma nota em que afirma que “não toleramos comportamentos abusivos ou qualquer forma de assédio em nossas equipes” e que há um canal de Ouvidoria para o recebimento de denúncias e há uma área de Compliance independente.

A empresa não negou nem confirmou as alegações de abuso.

A empresa Edições Globo Condé Nast, no entanto, não respondeu a nenhuma das alegações específicas de abuso, apesar de terem sido enviados detalhes dos casos mencionados.

Confira a nota na íntegra:

“A Edições Globo Condé Nast oferece a seus colaboradores e a quaisquer terceiros, um canal de Ouvidoria para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo e uma área de Compliance independente, que se reporta ao Conselho de Administração do Grupo Globo. Não toleramos comportamentos abusivos ou qualquer forma de assédio em nossas equipes e todos os relatos são criteriosamente apurados assim que tomamos conhecimento, com a garantia completa de sigilo de todos os envolvidos no processo. Não fazemos comentários sobre as apurações e sempre tomamos as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador.”

“Além disso, nossas publicações se guiam por princípios editoriais claros e públicos, que consideram, entre outras premissas, uma distinção clara dos conteúdos comerciais. A Editora Globo Condé Nast (EGCN) reafirma o seu compromisso em combater práticas que estejam desalinhadas com seus princípios éticos.”

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