(dv) Palácio Miraflores

Uma operação “narcoterrorista” organizada com o apoio dos Estados Unidos e da Colômbia para desestabilizar o seu governo. Assim o presidente venezuelano Nicolás Maduro descreve uma “invasão marítima” denunciada por ele no domingo (03/05).
Maduro afirma que o ato foi “derrotado por uma sólida união cívico-militar de policiais da Venezuela”. A suposta tentativa de ataque, que resultou em, ao menos, oito mortes e pela qual foram presas, ao menos, 16 pessoas, incluindo dois americanos, foi batizada por seus organizadores como “Operação Gedeón”.
Na noite de segunda-feira, Maduro anunciou na televisão estatal venezuelana sobre a suposta operação. “Sabíamos tudo: o que eles falavam, o que estavam comendo, o que não estavam comendo, o que estavam bebendo e quem os financiava”, declarou o presidente venezuelano.
Maduro iniciou seu discurso relembrando que em março o ex-general venezuelano Clíver Alcalá, acusado de narcotráfico pelos Estados Unidos, já havia admitido que planejava um golpe de Estado. “(Clíver Alcalá) declarou que a pessoa com o pseudônimo ‘Pantera’ estava sob o seu comando”, disse Maduro, em referência ao ex-capitão Roberto Colina, um dos mortos na cidade venezuelana de La Guaira, na madrugada de domingo.
Mas, segundo Maduro — considerado por grande parte da comunidade internacional como um presidente ilegítimo —, o verdadeiro responsável pela operação é o governo dos Estados Unidos, que teria confiado a coordenação do ato à agência americana antidrogas (a DEA, na sigla em inglês).
Os supostos envolvidos
Conforme Maduro, “o governo norte-americano escolheu a DEA para organizar a operação. E delegou a parte operacional da ação a uma empresa privada, a Silvercorp”.
“A DEA buscou os chefes e cartéis de Alta Guajira, na Colômbia, buscou os cartéis venezuelanos em La Guajira e outros vários Estados do país. Temos suas confissões”, assegurou Maduro. Ele acusou o governo do presidente da Colômbia, Iván Duque, de ser cúmplice dos EUA.
O governo da Colômbia nega qualquer participação no ato. “É uma acusação infundada, que tenta comprometer o governo colombiano em uma conspiração especulativa”, disse comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, no domingo.
Maduro afirma que os envolvidos na operação, que segundo ele tinha o principal objetivo de assassiná-lo, “passavam a noite treinando” em território colombiano.
“Por quem eles estavam lutando? Para Donald Trump, é simples assim. Ninguém duvide”, acusou o presidente. Ele afirmou que o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, já havia compartilhado com as Nações Unidas novas evidências da participação do governo colombiano “e de Donald Trump nos planos de invadir a Venezuela por meio de violência e terrorismo”.
Maduro declarou que a participação da oposição venezuelana — que nega qualquer vínculo com o ato — e da Silvercorp teriam sido comprovadas pelas confissões dos presos, assim como uma recente entrevista do presidente da empresa de segurança, localizada na Flórida.
Ex-membros das Forças Armadas dos EUA
O ex-militar americano Jordan Goudrou admitiu, em um vídeo publicado nas redes sociais, ser um dos líderes do grupo que planejou o ataque marítimo.
“Este senhor Jordan (Goudrou) deu declarações ontem nas quais reconheceu a assinatura de um contrato em que um grupo de venezuelanos apátridas concordou em pagar a ele uma quantia de milhões de dólares para que ele pudesse preparar uma força paramilitar de terroristas, para matar o presidente Maduro e atacar as instituições e o nosso país”, disse o presidente.
Ainda segundo Maduro, os americanos presos, identificados como Luke Alexander Denman e Airan Berry, participaram de ataques dos EUA no Iraque e no Afeganistão, junto com o Exército americano, e se declararam membros da equipe de segurança de Trump.
“Eles estavam trabalhando comigo. Esses são meus meninos”, disse Goudrou à Reuters. Em uma entrevista ao Whashington Post, Goudrou afirmou que 60 homens, incluindo antigos membros das Forças Especiais dos EUA, participaram da operação.
Anteriormente, os ex-membros da Forças Armadas dos EUA, capturados na Venezuela, publicaram um vídeo em que se identificaram como organizadores da tentativa de ataque, junto com o ex-militar venezuelano Javier Neto.
Até o momento, a Casa Branca e o Departamento de Estado não se pronunciaram sobre as prisões de Demman e Berry. Porém, segundo a Reuters, autoridades ouvidas em anonimato negaram enfaticamente qualquer vínculo do governo com a operação.
O líder da oposição venezuelana Juan Guaidó — considerado por muitos países como presidente legítimo da Venezuela — negou qualquer “relação ou responsabilidade pelas ações da empresa Silvercorp”.
A oposição venezuelana questionou a versão do governo, considerando-a uma “farsa” para tentar “distrair” a população de casos recentes de violência, como o que ocorreu em uma prisão do país, na sexta-feira — quando dezenas de pessoas morreram no Centro Penitenciário de Los Llanos (também conhecido como Cepello), na cidade de Guanare, em meio a uma rebelião.
// BBC