O ex-diretor do FBI (a Polícia Federal norte-americana) James Comey disse hoje (8) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o difamou e também aos seus colegas, ao afirmar que a organização estava em completa desordem.
A afirmação foi feita durante seu depoimento ao Comitê de Inteligência do Senado sobre a investigação que conduziu a respeito das relações entre a Rússia e a equipe de Trump, até ser demitido no último dia 9 de maio.
Segundo ele, as conversas com o presidente foram “perturbadoras” e as diferentes explicações que o presidente deu para tê-lo demitido são confusas e o preocupam. O ex-diretor do FBI disse que não tem dúvidas de que a Rússia tentou interferir nas eleições norte-americanas, mas que tem confiança de que nenhum voto foi alterado.
Ele também disse que o FBI já sabia de ataques cibernéticos da Rússia desde 2015 e afirmou que, enquanto ele foi diretor, Trump não esteve na mira das investigações. Comey disse ainda que não cabe a ele dizer se o presidente tentou “obstruir a Justiça” durante suas conversas particulares.
Repetindo o que já havia divulgado em seu testemunho divulgado ontem (7), Comey disse que redigiu relatórios logo após os encontros com o presidente Trump, por saber que “chegaria o dia” em que precisaria de um relatório para defender seu nome e o da instituição.
Em seu testemunho, declarou que não tinha o hábito de redigir relatórios após encontros com o ex-presidente Barack Obama.
Comey disse que pediu a um amigo professor para divulgar seu relatório da conversa com Trump para a imprensa, acreditando que isso levaria o departamento de Justiça, que controla o FBI, a nomear um conselheiro especial para cuidar do caso.
Há relatos de que o amigo mencionado por Comey seria o professor da Universidade de Columbia Daniel Richman. O departamento de Justiça de fato nomeou Robert Mueller como conselheiro especial no último dia 17 de maio.
Em seu testemunho apresentado ao Senado na quarta-feira (7), Comey havia afirmado que, em um encontro com o presidente, Trump teria dito que seu assessor de Segurança Nacional, Michael Flynn, acusado de ter mantido contato recorrente com oficiais russos, era um “cara bom”, e teria pedido para que Comey deixasse de lado a investigação sobre ele.
Ainda assim, Comey afirmou que Trump não pediu para que ele abandonasse as investigações sobre a Rússia como um todo. Segundo ele, mesmo que terminasse a investigação sobre Flynn, a investigação sobre a Rússia não teria acabado, pois eram investigações separadas.
Comey afirmou que não entendeu o pedido de Trump para abandonar as investigações como uma ordem. Sobre o assunto, o filho do presidente, o empresário Donald Trump Jr., afirmou no Twitter que “conhecendo meu pai há 39 anos, quando ele ordena ou pede para que você faça algo não há ambiguidade, você sabe exatamente o que ele quis dizer”.
Ao ser questionado sobre o que faria se descobrisse que as conversas com Trump relatadas por ele foram gravadas, Comey disse “por mim tudo bem”, e disse que seria bom se elas fossem divulgadas. O ex-diretor disse que o “FBI é e sempre deverá ser independente” e que lamenta não ter tido tempo de se despedir dos colegas na agência.
Paola de Orte / Agência Brasil

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Comey estava “preocupado” que Trump mentisse
Questionado sobre tais conversas, o ex-diretor do FBI disse ainda que documentou os encontros a sós com o presidente porque tinha medo que, posteriormente, o republicano mentisse sobre o conteúdo dessas conversas.
“Estava genuinamente preocupado pelo fato de que ele pudesse mentir sobre a natureza dos nossos encontros. Sabia que podia chegar o dia no qual pudesse precisar de um registro do que ocorreu não só para me defender, mas também para defender o FBI”, declarou.
Além disso, ele destacou que nunca precisou tomar notas com outros presidentes, como é o caso de Barack Obama, com o qual se reuniu apenas três vezes em oito anos, assim como com o ex-presidente George W.Bush, quando era ainda um funcionário do alto escalão do Departamento de Justiça.
Sobre o tweet de Trump, em que o presidente “esperava” que não existissem gravações de suas conversas com o diretor do FBI, James Comey respondeu: “Meu Deus! Espero que essas gravações existam“.
Na mesma audiência, o senador Tom Cotton o questionou diretamente: “acredita que Trump esteve em conluio com a Rússia?”. Mas o ex-diretor do FBI não quis responder: “Essa é uma questão que penso não dever responder em uma reunião aberta”.
Relativamente à gestão que fez da investigação aos e-mails da rival democrata Hillary Clinton, Comey garantiu que não teria feito nada de diferente.
No final da audição, o senador Mark Warner afirmou que muitas perguntas ficaram ainda sem esclarecimento. Trump deverá ainda comentar as declarações do ex-diretor do FBI.
Ciberia // Agência Brasil / ZAP