Brasil é o terceiro país mais letal do mundo para ativistas ambientais

Marcelo Camargo / Agência Brasil

Depois de cair algumas posições no ranking que aponta os países mais perigosos para ambientalistas no mundo no ano passado, o Brasil voltou a aparecer entre aqueles onde mais defensores do meio ambiente são assassinados.

Com 24 mortes registradas em 2019, quatro a mais do que em 2018, o país passou do quarto ao terceiro lugar na lista internacional, segundo relatório da ONG Global Witness publicado nesta quarta-feira (29/07).

Desde que a organização, sediada no Reino Unido, passou a sistematizar informações do tipo, em 2012, nunca houve tantos crimes como em 2019, que atingiu a marca de 212 assassinatos. No topo do ranking está outro país sul-americano, a Colômbia, com 64 mortes. Filipinas, o país “líder” do ano passado, aparece agora em segundo lugar, com 43 vítimas.

“Infelizmente, a tendência é que as coisas piorem a cada ano“, comenta Ben Leather, da Global Witness, em entrevista à DW Brasil.

Entre os motivos para o aumento dessa violência, analisa Leather, está a crescente demanda pelo consumo. “Para suprir seus negócios, empresas buscam novas áreas, novos territórios, e colocam em ameaça as comunidades que estão lá e defendem suas terras, seus direitos”, diz.

A impunidade também é vista como parte da engrenagem que sustenta o cenário. “A cada ano, defensores são mortos, e quase nenhum caso vai parar na Justiça. Quem comete os crimes se sente livre para continuar. Por isso, os governos precisam agir”, ressalta Leather.

No Brasil, a grande maioria dos assassinatos de ambientalistas em 2019 ocorreu na Amazônia. Para a Global Witness, é preciso destacar que alguns tipos de ambientalistas brasileiros enfrentam riscos mais específicos e sérios. “São os indígenas os mais expostos à violência”, destaca Leather.

Das 24 mortes contabilizadas em território brasileiro pelo relatório, dez delas, ou cerca de 42%, foram de indígenas. “Eles representam apenas 0,4% da população do país, ou seja, estão super-representados entre os ativistas assassinados“, lamenta o membro da Global Witness.

Virada histórica

Nomes de brasileiros como o de Paulo Paulino Guajajara estão na lista da Global Witness. Conhecido como guardião da floresta, ele foi assassinado na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, em novembro de 2019. Paulino Guajajara fiscalizava e denunciava invasões das terras e roubo de madeira – função que se tornou mortal no país.

Um levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA) mostrou que esse território indígena na Amazônia tem sofrido com invasões e desmatamento sem precedentes. Para tirar a madeira roubada do local, os criminosos chegam a abrir mais de 100 quilômetros de estradas clandestinas por mês na mata.

“De uns tempos para cá, os ataques se voltaram mais contra os indígenas. No passado, eram os missionários que defendiam a causa que eram assassinados, mas houve esta virada histórica”, analisa Christian Ferreira Crevels, antropólogo do Conselho Missionário Indigenista (Cimi).

Um dos casos marcantes foi o de Irmã Cleusa, assassinada em 1985. Como missionária, defendia a terra indígena dos Apurinã às margens do rio Paciá, em Lábrea, estado de Amazonas.

A mudança, segundo Crevels, tem uma explicação clara. “No Brasil da impunidade, as mortes dos indígenas defensores dos territórios, do meio ambiente, repercutem menos. Quantos brasileiros perderam a vida no interior e nunca foram conhecidos…”, complementa.

São nomes como o de Dilma Ferreira Silva, líder rural e coordenadora regional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), assassinada em 2019 no Pará, que também consta no relatório da Global Witness.

Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público Estadual, o fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho, mandante do crime, encomendou a morte da ativista por ela ameaçar denunciar suas atividades ilegais – como desmatamento ilegal – às autoridades.

“Sabemos que nosso relatório traz só a ponta do iceberg. Só contamos o número de assassinatos. Sabemos que em todo o mundo, inclusive no Brasil, há muitos defensores do meio ambiente e membros de suas famílias que sofrem muita violência: são difamados, censurados, ameaçados, assediados e presos”, comenta Leather.

Discurso de Bolsonaro

O Brasil nunca foi um território seguro para ativistas do meio ambiente. Crevels, do Cimi, lembra que outros governos tiveram pontos negativos. “Os ataques não são novos. Vale lembrar que a violência da construção da usina de Belo Monte, no governo Dilma Rousseff, também deixou o seu legado de como executar um projeto na Amazônia desrespeitando tudo”, pontua o antropólogo.

O governo de Jair Bolsonaro e seu ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, no entanto, agravam o quadro. “Ele [o governo] vocaliza um apoio a situações que geram conflito territorial. As pessoas pensam: ‘posso me armar e ir para o conflito que o presidente garante'”, analisa Crevels.

Além disso, políticas ambientais que apontam para “perdão” futuro por crimes cometidos são apontadas como estímulo à violência. “Principalmente quando Bolsonaro diz que vai rever terras indígenas já homologadas, por exemplo, é como uma incitação à invasão”, diz o antropólogo.

Leather, da Global Witness, tem uma visão semelhante. “O Brasil sempre foi perigoso para ativistas. Mas é claro que este novo governo tem uma política muito clara de priorizar lucro num espaço curto de tempo, sem considerar o meio ambiente. Ele claramente quer abrir a Amazônia para negócios em processos rápidos.”

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Evo Morales comemora vitória de seu candidato, Luis Arce, à presidência na Bolívia

De La Paz, na Bolívia, o candidato a presidente Luis Arce e, de Buenos Aires, na Argentina, o ex-presidente Evo Morales comemoram vitória nas eleições tanto para presidente quanto para o Congresso, realizadas neste …

Síndrome provoca mudança na coloração dos olhos em população nativa da Indonésia

Em um país cujo a vasta maioria da população possui cabelos e olhos escuros, uma rara síndrome genética ofereceu aos membros de uma tribo nativa da Indonésia uma impressionante condição: os mais impactantes e profundos …

Aula de spinning em academia no Canadá contaminou 61 pessoas com a COVID-19

Academias não são locais recomendados neste momento de pandemia, mesmo que alguns estabelecimentos estejam reabrindo com todas as medidas de segurança adequadas. Prova disso aconteceu recentemente em Hamilton, na província de Ontario, no Canadá, quando uma …

Estrela supergigante vermelha Betelgeuse é menor e está mais próxima da Terra

A estrela supergigante vermelha Betelgeuse, uma das mais brilhantes, é menor e está mais próxima da Terra do que se acreditava. "Estudos anteriores sugeriram que poderia ser maior que a órbita de Júpiter. Nossos resultados dizem …

Ao tentar desativar uma bomba imensa a Marinha da Polônia acidentalmente a explode

Uma enorme bomba da Segunda Guerra Mundial explodiu durante uma delicada operação na terça-feira para desativar o dispositivo de cinco toneladas em um canal perto do Mar Báltico, mas ninguém foi ferido, afirmaram autoridades polonesas. O …

Candidato a vereador vai plantar uma árvore para cada voto que receber em Dourados

O combate às mudanças climáticas e ao desmatamento para Franklin Schmalz, candidato pelo PSOL a vereador na cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, é um compromisso direto e concreto, a ser posto em …

Líder nacionalista manobra para chegar ao poder após renúncia de presidente do Quirguistão

O presidente do Quirguistão, Sooronbai Jeenbekov, cedeu à pressão de manifestantes nacionalistas e anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (15), após dez dias de uma crise política aberta pela vitória de dois partidos governistas nas …

Planetas semelhantes à Terra parecem ser "protegidos" por gigantes como Júpiter

A organização dos planetas rochosos não é aleatória e, ainda, parece depender de algumas condições iniciais — é o que indica um novo estudo feito por uma equipe internacional de astrônomos e liderado por Martin …

1º parque temático da Nintendo será inaugurado em 2021 com área dedicada a Super Mario

“It’s me, Mario!” O encanador mais famoso do mundo vai trazer seus tubos verdes e aventuras para o mundo real. O Universal Studios do Japão inaugura, em 2021, o Super Nintendo World, o primeiro parque de …

Na TV, Biden volta a mencionar Amazônia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu rival democrata na corrida à Casa Branca, Joe Biden, responderam a perguntas do público em canais de televisão concorrentes na noite desta quinta-feira (15/10). Pela segunda vez …