Brasil poderá chegar a 5 mil mortes diárias por covid-19, diz estudo

António Lacerda / EPA

O Brasil pode chegar a registrar 5 mil mortes diárias por covid-19 no final de abril ou início de maio, de acordo com um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) divulgado nesta quarta-feira (24/03). A análise prevê que, nesse período, ocorra o pico da segunda onda da epidemia no país.

Desenvolvido pelo professor do Departamento de Estatística da UFF, Marcio Watanabe, o estudo calculou o número possível de mortes diárias nos próximos meses a partir de um modelo matemático-epidemiológico que levou em consideração a análise de dados da pandemia de mais de 50 países entre setembro de 2020 e março deste ano.

“O pico de óbitos no Brasil será provavelmente em abril ou início de maio, com um número calculado entre 3 mil e 5 mil mortes por dia”, afirmou Watanabe. “O valor real do pico dependerá da velocidade da vacinação nos próximos meses e das medidas de distanciamento adotadas”, acrescentou.

Com base em dados do ano passado, o pesquisador afirmou que a pandemia tende a se agravar nesses meses em países do hemisfério sul, em particular no Brasil, e também em nações que seguem padrões sazonais semelhantes, como Índia e Bangladesh.

Já em países do hemisfério norte, como Estados Unidos e os europeus, os casos tendem a estagnar por um longo prazo, com menor tendência de aumento, segundo o especialista.

Para tentar desacelerar esse ritmo, o estudo destaca a necessidade de medidas de isolamento social, que já se mostraram eficazes para conter a transmissão do coronavírus. Watanabe ressalta que a efetividade delas depende, principalmente, da redução de aglomerações.

“É essencial reduzir aglomerações como ônibus lotados, que têm sido ignorados pelo poder público ao longo da pandemia”, afirmou o pesquisador.
Cenário para o futuro

O estudo prevê ainda que a partir de 2022 a covid-19 seguirá, de forma mais clara, o mesmo comportamento das demais doenças respiratórias, com aumento de casos e óbitos entre março e junho, mas de forma mais controlada. Nas demais épocas do ano, deverá ocorrer uma redução da transmissão. Porém, essa previsão depende da evolução das campanhas de vacinação.

“Poderemos conviver com a covid-19 da mesma forma que convivemos com outras doenças respiratórias, como a pneumonia, quando vacinarmos a maior parte da população. Mas, mesmo com a vacina, a doença será endêmica, ou seja, sempre haverá casos”, destacou Watanabe.

O especialista também aponta como desafio fundamental para o futuro a busca por um tratamento eficaz para pacientes hospitalizados com covid-19. “Após a produção de diversas vacinas eficazes em tempo recorde, temos que depositar novamente nossas esperanças e apoiar o incrível trabalho de pesquisadores de universidades do Brasil e do mundo que seguem trabalhando incansavelmente para mitigar cada vez mais os efeitos da maior pandemia da história”, acrescentou.
Pior momento

O Brasil enfrenta o pior momento da pandemia. Nesta quarta-feira, o país ultrapassou a marca de 300 mil mortos em decorrência da doença. O número trágico foi atingido apenas dois meses e meio após ter registrado 200 mil mortes. Ao todo, mais de 12,2 milhões de casos foram registrados no país.

A explosão no número de infecções levou ainda ao colapso dos sistemas de saúde em diversos estados, com UTIs lotadas e pacientes morrendo em filas de espera por um leito.

Em pronunciamento na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro tentou defender as ações do governo no combate à crise, mas mentiu e distorceu dados sobre a crise e a vacinação. Na fala, apesar de reconhecer que o coronavírus “infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros”, o presidente sequer mencionou o recorde de mortes. Ele afirmou que o governo tomou medidas para combater o coronavírus ao longo de toda a pandemia e que sempre foi a favor das vacinas.

Na realidade, ao longo de um ano de pandemia, apesar de lançar medidas econômicas, Bolsonaro minimizou frequentemente os riscos do coronavírus, combateu medidas de isolamento social, promoveu curas sem eficácia, criticou a vacina e tentou sabotar iniciativas paralelas de vacinação e combate à doença lançadas por governadores e prefeitos em resposta à inércia do seu governo na área.

Ciberia // Deutsche Welle

 

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