Covid: taxas de internação mostram que, mesmo antes de 3ª dose, vacinas evitaram mortes

Guillaume Horcajuelo / EPA

Em pouco mais de nove meses, mais de 5 bilhões de doses de vacinas contra a Covid-19 foram aplicadas e cerca de um quarto da população mundial já está efetivamente protegida.

Essa corrida contra o relógio para imunizar o maior número de indivíduos e frear uma pandemia, que já matou 4,4 milhões de pessoas, trouxe muito aprendizados.

O primeiro e, talvez, o mais importante deles, é que as vacinas funcionam e estão cumprindo aquilo que elas prometiam lá no início: proteger contra casos graves da doença, que exigem internação e intubação e, muitas vezes, acabam em morte.

Isso fica claro quando vemos o que está acontecendo agora nos países com a campanha de vacinação mais adiantada, como Israel, Reino Unido, algumas partes dos Estados Unidos e até no Brasil.

Em sua grande maioria, os pacientes internados com Covid-19 ao longo dos últimos meses nesses lugares apresentam algumas características em comum: eles são mais jovens, não foram vacinados, tomaram apenas a primeira dose ou possuem mais de 60 anos e receberam o imunizante há mais de seis meses.

E, em conjunto, essas observações já justificam a necessidade de ajustes nos esforços de vacinação — como é o caso da aplicação de uma terceira dose para grupos prioritários, anunciada oficialmente pelo Ministério da Saúde na quarta-feira (25/8), com início previsto para 15 de setembro.

Outro exemplo de correção na rota foi a antecipação em 30 dias do tempo entre a primeira e a segunda dose das vacinas de AstraZeneca/Oxford ou Pfizer/BioNTech, informação confirmada pelo Governo Federal.

Antes, a orientação era aguardar três meses para completar o esquema vacinal. Agora, essa espera caiu para 60 dias.

A experiência de vida real também indica os desafios que podemos enfrentar na pandemia ao longo dos próximos meses.

Uma obra inacabada

Todas as vacinas disponíveis contra a Covid-19 foram criadas com um objetivo principal: diminuir o risco de desenvolver as formas graves da doença.

Os testes clínicos, que serviram de base para a aprovação desses produtos pelas agências regulatórias, demonstraram exatamente isso: os imunizantes são seguros e eficazes e têm capacidade de barrar o avanço do coronavírus pelo nosso organismo, que leva a desgastes em vários órgãos, especialmente nos pulmões.

A prevenção dos quadros mais severos é estratégica quando pensamos em saúde pública.

Se menos gente desenvolve os sintomas mais pesados, isso significa menor procura por assistência médica, hospitais sem sobrecarga de lotação, recursos suficientes para atender a demanda e um sistema de saúde equilibrado e sem colapso.

Esse é o racional que justifica, por exemplo, a vacinação anual contra o influenza, o vírus causador da gripe.

Embora a dose periódica desse imunizante não evite a infecção em si, ela diminui pra valer as complicações da doença, que costumam ser um tormento, especialmente para algumas populações mais vulneráveis, como os idosos.

No caso da Covid-19, o uso massivo de alguns imunizantes, como foi o caso da Comirnaty, de Pfizer e BioNTech, trouxe uma surpresa ainda maior: a vacinação não estava apenas diminuindo as internações e as mortes, mas começou a impactar a transmissão do coronavírus.

Foi o que aconteceu em Israel entre abril e julho de 2021, por exemplo: com uma das campanhas de vacinação mais adiantadas do mundo, o país viu os números de casos, hospitalizações e mortes ficarem muito próximos do zero.

Mas aí aconteceram duas coisas que fizeram a situação voltar a piorar por lá.

Primeiro, um relaxamento das medidas restritivas, o que é natural e esperado diante do aparente controle interno da crise sanitária.

Segundo, a chegada da variante Delta do coronavírus, que foi detectada pela primeira vez na Índia.

Os estudos mostram que essa linhagem é de 40 a 60% mais transmissível que a variante Alfa, originária do Reino Unido — que, por sua vez, já era 50% mais transmissível que a versão original do vírus, identificada em Wuhan, na China.

Esses dois fatores levaram a uma nova subida dos casos de Covid-19 em Israel a partir do início de agosto.

“O que percebemos em lugares como Israel é que, apesar do aumento das infecções, o crescimento de hospitalizações e óbitos não acontece na mesma proporção ao que víamos antes”, analisa a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Essa manutenção das internações e das mortes num patamar mais baixo por lá precisa ainda ser acompanhada por mais tempo, mas possivelmente tem a ver com a vacinação adiantada.

Mesmo assim, a mudança de cenário epidemiológico foi suficiente para que as autoridades de saúde pública israelenses decidissem ofertar uma terceira dose da vacina para algumas populações mais propensas a complicações, como indivíduos acima dos 60 anos ou aqueles com a imunidade comprometida.

Mas será que o efeito da vacina diminui mesmo com o passar do tempo?

O prazo de validade da proteção

A médica Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, organização que trabalha com políticas públicas de imunização em vários países do mundo, explica que há uma queda natural na produção de anticorpos contra o coronavírus após cinco ou seis meses da aplicação da segunda dose.

“Mas isso não quer dizer que a pessoa fique totalmente vulnerável de novo. A proteção contra hospitalização e óbitos parece não cair na mesma proporção”, explica.

Ou seja: quem tomou a vacina há algum tempo até corre mais risco de se infectar, mas, caso isso realmente ocorra, a probabilidade de evoluir para as formas mais graves da Covid-19 é relativamente menor em comparação com quem não recebeu as suas doses.

“Com a queda de anticorpos, as primeiras linhas de defesa contra o coronavírus ficam mais frágeis. Isso até permite que ele entre no organismo e consiga se replicar nas vias aéreas superiores. Mas logo as células de memória, que integram o sistema imunológico, são ativadas e impedem a evolução do quadro”, diz Garrett.

“Os surtos entre indivíduos totalmente vacinados são marcados por sintomas mais leves. Pelo que vimos até agora, em termos de hospitalizações e óbitos, a grande maioria é constituída de pessoas que não foram imunizadas”, completa.

E é possível observar esse fenômeno na prática, especialmente nos Estados Unidos.

A pandemia dos não-vacinados

A situação nos Estados Unidos beira o surreal: por lá, existem doses suficientes para proteger todos os cidadãos contra a Covid-19, mas uma parte considerável das pessoas se recusa a receber os imunizantes.

Até o momento, pouco mais de 60% dos americanos tomaram ao menos a primeira vacina.

Os gestores públicos têm encontrado muitas dificuldades em convencer a parcela mais resistente e hesitante da população a participar da campanha.

E isso já se reflete nos números da pandemia no país.

Um trabalho do Departamento de Saúde de Los Angeles mostrou que, entre o início de maio e o final de julho, foram detectados 43,1 mil casos de Covid-19 no local.

Desses, 10,8 mil (25% do total) ocorreram entre indivíduos completamente vacinados, 1,4 mil (3%) entre aqueles que receberam apenas uma dose e 30,8 mil (71%) afetaram os que não foram imunizados.

O dado que chama mais a atenção vem na sequência: a taxa de hospitalização pela doença foi 29,2 vezes maior entre quem não estava com o esquema vacinal concluído.

Outro estudo, feito no Estado de Nova York, cruzou as informações da vacinação com as taxas de hospitalização por Covid-19 entre maio e julho de 2021.

Os resultados mostram que, no período, aconteceram 1,2 mil internações pela doença entre pessoas que tomaram as duas doses, o que indica uma taxa de 0,17 casos por 100 mil habitantes.

Já entre os não vacinados, foram 7,3 mil internações registradas, com uma taxa de 2,03 por 100 mil habitantes — o que significa um número proporcional 11,9 vezes maior na comparação entre os dois grupos.

Os autores concluem dizendo que as três vacinas disponíveis por lá (de Pfizer/BioNTech, Janssen e Moderna) são efetivas na prevenção de casos graves, hospitalizações e mortes por Covid-19, mesmo num cenário de aumento de casos da doença pela variante Delta.

Um terceiro artigo que analisou a situação americana, assinado por 24 cientistas de diversas universidades, analisou 3 mil adultos hospitalizados (dos quais 1,1 mil estavam com Covid-19). Desses, apenas 11,8% tinham recebido as duas doses da vacina 14 dias antes de os sintomas da infecção aparecerem.

A efetividade da vacina continuava relativamente alta três meses após a vacinação: em média, a proteção contra hospitalização estava em 86%. Passados seis meses, essa taxa tinha se modificado muito pouco, com uma queda não significativa para 84%.

A redução foi maior em alguns grupos, especialmente pacientes que apresentam algum problema com a imunidade, como idosos, portadores de HIV, pessoas em tratamento de câncer ou recém-transplantados.

No Brasil, infelizmente, ainda não temos informações do tipo. O pesquisador Leonardo Bastos, do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), conta que os bancos de dados apresentam algumas inconsistências que dificultam o cruzamento das informações de quantos indivíduos hospitalizados com Covid-19 tomaram (ou não) as duas doses da vacina no país.

“No sistema informatizado que registra as internações por infecções respiratórias no Brasil, até existe um campo sobre vacinação, mas ele não é muito bem preenchido na prática”, avalia.

“Mas esse é um trabalho que pode ser feito pelas equipes de vigilância dos Estados ou do Ministério da Saúde”, completa.

Um levantamento feito pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, pode dar algumas pistas da situação em nosso país.

De acordo com os registros, divulgados pela GloboNews, dos 987 internados com Covid-19 na instituição entre fevereiro e julho, apenas 1,6% estava efetivamente vacinado.

“Não podemos, porém, extrapolar a realidade de um único hospital para o país inteiro. Temos uma baixa qualidade dos registros de status vacinal dos indivíduos hospitalizados que precisam ser melhorados”, defende Marcelo Gomes, da FioCruz.

A evolução das faixas etárias

O avanço da vacinação também parece ter relação com outro fenômeno recente: o rejuvenescimento da pandemia ao longo dos últimos meses.

Antes de entrar nos detalhes, vale relembrar aqui que a imunização contra a Covid-19 teve como um de seus principais critérios a divisão por faixas etárias.

As campanhas começaram, em janeiro de 2021, protegendo os mais velhos e, a cada semana e de acordo com a disponibilidade de doses, indivíduos mais jovens eram convocados aos postos de saúde.

Conforme os idosos foram imunizados, a taxa de hospitalizações e óbitos diminuiu entre esse grupo e aumentou proporcionalmente entre os mais jovens.

No Boletim InfoGripe, publicado por especialistas da FioCruz, essa variação das faixas etárias é fácil de ser visualizada.

Na primeira semana de 2021, indivíduos com mais de 80 anos representavam proporcionalmente 22% das internações e 33% dos óbitos por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) registradas no país.

Essa taxa foi caindo pouco a pouco e chegou a 6,7% das hospitalizações e 12% dos óbitos entre abril e maio.

Em paralelo, a participação relativa dos mais jovens só aumentou: indivíduos de 40 a 59 anos respondiam por cerca de 23% das internações e 14% das mortes por SRAG no começo de 2021.

No meio do ano, essa faixa etária passou a representar 51% das internações e 44% dos óbitos.

A partir das últimas semanas de julho e agosto, porém, é possível observar uma nova reversão de tendência: a participação relativa dos mais idosos voltou a subir e eles já representam 12% dos casos internados e 28% das mortes.

Mas o que esses números significam na prática? Para Leonardo Bastos, é possível pensar numa conjunção de fatores por trás dessas flutuações.

“Precisamos considerar a chegada da Delta, o relaxamento das medidas restritivas e uma eventual diminuição da efetividade das vacinas com o passar do tempo, especialmente nos grupos que receberam as doses lá no início do ano”, especula.

Uma é pouco, duas são boas e três podem ser necessárias

Outro aprendizado que o andamento da campanha de vacinação nos trouxe é a necessidade de completar direitinho o esquema das duas doses.

“A primeira dose não é suficiente para trazer uma proteção duradoura e completa. É preciso tomar a segunda dentro do intervalo preconizado”, reforça Garrett.

Além das duas doses, a evolução do conhecimento nas últimas semanas levou a discussão para um novo patamar.

Falamos aqui da necessidade em oferecer uma terceira vacina a alguns grupos, especialmente aqueles mais vulneráveis (caso de idosos e dos imunossuprimidos).

Políticas do tipo já foram oficializadas em Israel, Chile, Estados Unidos e outros 11 países.

No Brasil, o Ministério da Saúde bateu o martelo na quarta-feira (25/8): a partir de 15 de setembro, pessoas com mais de 70 anos e os imunossuprimidos (que estão em tratamento de câncer, fizeram transplante recentemente, vítimas de acidentes severos com fogo, entre outros) poderão receber o reforço.

A orientação é aplicar a vacina da Pfizer nesses casos. Se o local não tiver doses desse fabricante à disposição, também poderão ser usados os produtos de Janssen ou de AstraZeneca.

Por um lado, a terceira dose parece ser necessária para resguardar a população mais propensa a sofrer com as complicações da Covid-19. Porém, por outro, há uma discussão ética e humanitária por trás de uma decisão do tipo, ainda mais quando os países incluem a aplicação de reforços em grupos que não são tão propensos assim a desenvolver formas graves da doença.

Isso porque há uma enorme desigualdade na distribuição de doses pelo mundo: enquanto as nações mais ricas já vacinaram uma parcela significativa da população e se preocupam com o reforço de seus cidadãos, há muitos locais da América Latina, da África e do Sudeste Asiático que sequer avançaram na proteção dos grupos prioritários, como idosos e profissionais da saúde.

E isso pode representar um risco para o planeta inteiro. Enquanto o coronavírus estiver circulando livremente, convivemos com o perigo iminente de surgirem novas variantes mais transmissíveis, agressivas e com capacidade de driblar os imunizantes já disponíveis.

“Nossa prioridade deveria ser vacinar, com duas doses, o maior número de pessoas o mais rápido possível. Enquanto não fizermos isso, estamos perdendo tempo e brincando com o perigo”, diz Ballalai.

“Antes de discutir a terceira dose para todos, deveríamos pensar de forma global e humanitária, até para nos proteger de novas variantes ainda mais agressivas”, alerta a especialista.

É curioso pensar que, mesmo diante de tantas novidades e aprendizados nas últimas semanas, o principal recado talvez nem tenha mudado tanto assim: as vacinas funcionam e protegem contra as formas mais graves da doença, mas nenhuma delas é 100% eficaz (como nenhum outro imunizante já inventado ao longo da história, diga-se).

Enquanto as campanhas avançam aos trancos e barrancos mundo afora, é preciso que todos continuem fazendo sua parte e respeitando aqueles cuidados básicos, como o distanciamento físico e o uso de máscaras.

Só assim será possível pensar que a pandemia virará assunto do passado em algum momento do futuro.

// BBC

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