Desemprego cresce em Portugal, e brasileiros são os mais afetados entre estrangeiros

Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas na última semana mostram que a população desempregada em Portugal aumentou 4,2% em janeiro em relação a dezembro de 2020. O ano fechou com 148 mil imigrantes trabalhando, uma queda de 5% em comparação a 2019. Brasileiros são os mais afetados.

De acordo com o último relatório mensal de estatísticas do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) enviado à Sputnik Brasil, no fim de janeiro havia 42.156 estrangeiros desempregados em Portugal, dos quais 16.709 (40%) eram brasileiros. Os cabo-verdianos aparecem em segundo lugar, com 2.733. Entre os imigrantes, a fila dos desempregados é liderada por brasileiros em todas as regiões do país.

Há cerca de 185 mil brasileiros vivendo legalmente no país, o que representa 27% dos 675.686 estrangeiros em solo português. Doutorando em Economia na Universidade de Lisboa e mestre pela Universidade de Brasília (UnB) na mesma área, o goiano Pedro Ferreira explica que, como a metodologia utilizada pelo IEFP leva em conta registros administrativos, contabiliza somente o emprego formal, deixando de fora aqueles que não estão regularizados no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

“Ou seja, é provável que o desemprego entre brasileiros seja ainda maior. Uma parcela significativa dos brasileiros não tem a situação completamente legalizada nos serviços de seguridade social, por isso não consegue ter acesso à rede de proteção social. Por exemplo, as atividades que agora estão fechadas no segundo confinamento podem colocar seus empregados em layoff, e o governo paga a maior parte dos salários. Se um brasileiro não está regularizado, não há essa opção, e é provável que ele seja demitido”, diz Ferreira.

Questionado pela Sputnik Brasil se o crescimento do desemprego entre os brasileiros poderia ser explicado pelo encerramento de atividades correlatas ao turismo, já que a maioria dos hotéis e estabelecimentos turísticos está fechada em decorrência das medidas restritivas em função da pandemia de COVID-19, ele reconhece que, em parte, sim. No entanto, acrescenta outros setores.

“O desemprego tem, sim, relação com o setor de turismo, mas vai além. Boa parte trabalha no setor de serviços e comércio, em geral. Outro setor que também emprega muitos brasileiros e tem sofrido bastante com as restrições é o de estética e beleza, salões de beleza e barbearias, que estão fechados desde meados de janeiro. O impacto das restrições impostas pela COVID-19 é muito assimétrico e afeta principalmente esses setores, em especial a restauração [restaurantes]”, exemplifica.

Seu conterrâneo Murilo Átila está nesse grupo. Ele trabalhava há sete anos para uma empresa terceirizada de catering, que prestava serviços para a Agência Europeia da Segurança Marítima, em Lisboa, mas foi demitido no segundo semestre após ficar em layoff. Pouco tempo depois, conseguiu um trabalho de meio período em um restaurante, em outubro. Mas em janeiro, com o novo lockdown, o estabelecimento fechou provisoriamente, e ele ficou desempregado de novo.

Há dois meses estou recebendo apenas seguro desemprego de € 450 [R$ 3.150, na cotação atual], mas não é nem a metade do salário que recebia. Não dá para muita coisa, mas já é uma ajuda. Eu fazia muitos extras, outros trabalhos. E acabou tudo, mas as contas são iguais”, conta Murilo à Sputnik Brasil.

Acostumado a driblar as más fases da vida, o ex-jogador de futebol, que teve a carreira encerrada precocemente por conta de uma lesão no joelho, é craque em dar a volta por cima. Morando em Portugal há 19 anos, ele superou a crise financeira de 2011, quando teve que vender um restaurante, uma casa e um carro.

Agora, com uma filhinha de 9 meses nascida em meio à pandemia, Murilo segue um roteiro similar e se vira como pode, jogando nas 11.

“Vendi meu carro para fazer um dinheirinho e agora alugo uma moto. Estou fazendo [entrega pelo aplicativo] Uber Eats, mas também não está muito legal. Vou fazendo uma coisinha aqui outra ali, mas está difícil. Não sei dizer qual crise é pior. Em 2011, também perdi tudo”, recorda.

Mesmo mais escolarizados, imigrantes têm salários menores

Segundo cruzamento de dados feito pelo Dinheiro Vivo, é a primeira vez que a população estrangeira empregada cai em quatro anos. Foi também a maior queda desde 2014, quando havia 107 mil imigrantes trabalhando, contra 114 mil em 2013. Desde 2016, essa população vinha em crescimento contínuo. Em 2019, havia 156 mil imigrantes, com um aumento de 28% em relação a 2018.

O decréscimo de 5% entre os estrangeiros de 2019 para 2020 é mais que o dobro do que o de trabalhadores com nacionalidade portuguesa no mesmo período, cujo número diminuiu quase 2%. De acordo com Pedro Ferreira, é natural que, em tempos de crise, o desemprego seja mais sentido entre imigrantes.

“Nessa crise, como na maioria das crises, o impacto é desigual, quem sofre mais são aqueles que estão nas franjas da economia, imigrantes, minorias e jovens”, compara.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), cerca de 40% da população estrangeira que trabalha em Portugal têm entre 15 e 34 anos, contra 24% da proporção portuguesa nessa faixa etária. Entre 35 e 44 anos, também há mais imigrantes empregados, 32% contra 26%. Apenas no grupo com 45 ou mais, os portugueses predominam.

Os estrangeiros também são mais qualificados em termos de escolaridade: 45% têm o ensino secundário (médio), contra 29% dos portugueses. No entanto, a remuneração é menor entre os imigrantes: somente 16% recebem mais de € 900 (R$ 6.111) de rendimento mensal líquido, contra 30% dos portugueses. Na faixa anterior entre € 600 (R$ 4.074) e € 900, a proporção se inverte: 47% de estrangeiros contra 38% dos nativos.

“Parte dos brasileiros até tem qualificações, mas acaba não ocupando vagas de acordo com essas qualificações, estando em situações mais precárias, atividades em que não é possível o teletrabalho, por exemplo”, justifica Ferreira.

É o caso da niteroiense Amanda Anatocles. Formada em Direito no Brasil, ela conseguiu um emprego na área de atendimento ao cliente, em Lisboa, no início da pandemia, mas foi demitida quatro meses depois. No fim de dezembro, voltou a Niterói com o emprego garantido como coordenadora de um escritório de advocacia. Em Portugal, contudo, não conseguiu trabalhar no seu setor.

“Nem [para o cargo] de secretária eu conseguia entrevista, porque [diziam que eu] não falava português, mas brasileiro. Mas, sabendo que as coisas aqui [no Brasil] não tendem a melhorar e com muita saudades de Lisboa, se pudesse, voltaria muito feliz. Continuo me preparando profissionalmente para, se voltar, conseguir algum emprego melhor”, relata Amanda.

Já a jornalista pernambucana Rivânia Queiroz trabalhava há seis meses no setor de logística da Leroy Merlin em Lisboa. Após ter negociado a antecipação de suas férias em cinco dias, viajou em janeiro para o Brasil, já que o pai de seus filhos estava com um quadro grave de COVID-19, internado na UTI fazia três semanas, com mais de 90% dos pulmões comprometidos e sem sinais de melhoras.

No dia 13 de janeiro, na véspera do seu aniversário, ela recebeu um presente nada agradável: sua carta de demissão, por e-mail. Acordou cedo, viu uma chamada perdida no seu WhatsApp do responsável pelos Recursos Humanos da empresa terceirizada e não teve nem tempo de retornar a ligação.

“Retornei para saber o que era enquanto abria minha caixa de e-mail. Para minha surpresa, a carta estava lá, comunicando que eu não fazia mais parte da empresa. Foi um golpe muito duro para mim. Primeiro, porque estava de férias, depois porque não tinha problema existente que motivasse a demissão. Minha cabeça ficou péssima, e confesso que até hoje não compreendo essa decisão. Como se demite uma pessoa em pleno gozo de suas férias?”, questiona Rivânia.

Ela diz que sempre foi uma funcionária comprometida, sem nunca ter faltado, se atrasado ou deixado de cumprir suas tarefas e requisitos de trabalho. Aceitou um emprego fora da sua área porque precisava pagar o mestrado em Comunicação, Marketing e Publicidade na Universidade Lusófona de Lisboa. Com a suspensão dos voos entre Portugal e o Brasil desde o fim de janeiro, Rivânia ficou sem ter como voltar para buscar documentos, roupas e computador, que ficaram para trás.

“Tenho um currículo excelente, então não foi por falta de conhecimento para trabalhar em um cargo medíocre como era aquele ao qual me submetia. Aqui [no Recife], logo voltei a fazer o que sempre fiz, estou trabalhando na minha área e me reorganizando. Ainda estou avaliando se vale a pena voltar para um país que trata assim um ser humano que pagava suas contas, ajudava o país a se desenvolver e apenas queria ser respeitado”, pondera.

Formada em Business Management na Irlanda, a paulista Camila Gomes tinha um contrato permanente na Furla e, logo no início da pandemia, recebeu uma proposta melhor para trabalhar na Max Mara, ambas marcas italianas de moda feminina. Mas a alegria durou pouco tempo e ela foi demitida ainda no período de experiência de três meses, após o agravamento da pandemia, como ela conta em entrevista à Sputnik Brasil.

No dia seguinte em que o governo decretou a quarentena, a gerente me entregou o papel para assinar. Pediram desculpas, disseram que gostavam de mim e que, em breve, quando tudo voltasse ao normal, me contratariam novamente se eu ainda tivesse interesse. Fiquei indignada e disse que não teria interesse”, recorda.

Ela ainda teve dificuldades para receber o seguro desemprego ao qual tinha direito. Trabalhou por nove meses como voluntária no Lar Militar da Cruz Vermelha Portuguesa, recebendo uma bolsa do governo, que a ajudou a se manter nesse período.

Na semana passada, veio a boa notícia: conseguiu um contrato permanente no customer service no mercado brasileiro da Kaizen Gaming, empresa portuguesa de apostas esportivas.

“Tem sido uma experiência muito positiva para minha carreira profissional”, avalia.

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