Imunidade coletiva ainda é possível?

Simone Venezia / EPA

Com taxa de vacinação alta, países escandinavos afrouxam restrições à pandemia, apostando na imunidade de rebanho, teoricamente capaz de proteger também os não vacinados. Mas essa expectativa ainda é realista?

Para acabar com a pandemia de covid-19, basta um número suficiente de indivíduos estar vacinado ou se recuperar da doença. Essa tem sido a crença desde o início da pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2. Quem não pode ser vacinado devido a doenças crônicas, por exemplo, ou menores de 12 anos, estariam seguros se os imunizadas em seu entorno lhes oferecessem proteção. Mas a imunidade coletiva à covid-19 ainda é possível?

Imunidade de rebanho em outras doenças

Um exemplo de imunidade coletiva ou proteção comunitária na Europa é a poliomielite, também conhecida como paralisia infantil. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Europa está “livre de poliomielite” desde 2002. Para que essa imunidade coletiva fosse alcançada, cerca de 80% da população tem que ser vacinado.

No entanto, de acordo com o Centro Alemão de Educação em Saúde, ainda é importante que as vacinas contra a poliomielite continuem sendo administradas. A doença continua ocorrendo em partes da Ásia e da África, se ela “chegar à Alemanha através de viajantes e encontrar uma população em grande parte não vacinada, seria possível que voltasse a se espalhar”.

Imunidade de rebanho não indica necessariamente que uma doença tenha sido erradicada. “Não significa que ninguém pode ser infectado, mas que a infecção retrocedeu significativamente e estamos num nível muito moderado de contágios”, explica à DW Thorsten Lehr, professor de Farmácia Clínica da Universidade do Sarre.

Proteção coletiva contra covid-19 em nível regional

Segundo especialistas, mais cedo ou mais tarde, vai haver proteção coletiva contra a covid-19 na Alemanha. Para que isso aconteça, cerca de 85% da população teria que estar vacinada ou ter se recuperado da doença, observa Christine Falk, da Sociedade Alemã de Imunologia.

Num relatório de julho de 2021, o Instituto Robert Koch (RKI), de controle e prevenção de doenças, já afirmava que pelo menos 85% daqueles entre 12 e 59 anos e 90% dos acima de 60 anos teriam que ser completamente vacinados para se manter a covid-19 sob controle na Alemanha.

Imunidade de rebanho através da vacinação

“Teremos um alto número de cidadãos protegidos no outono e inverno [europeus] e em algum momento chegaremos à imunidade de rebanho”, diz Falk. A única questão é quão alto será o preço para imunizar a população, completa.

Quem sobreviveu a uma infecção com o novo coronavírus tampouco está protegido. Mas quem não foi vacinado pode sofrer um curso severo da doença, não importa a idade. A covid longa, ou seja, sintomas e patologias perdurando semanas ou mesmo meses após uma infecção, também não deve ser subestimada, explica o cientista Lehr. A imunidade de rebanho através da vacinação seria, portanto, mais desejável, diz Falk.

Segundo a imunologista, um estudo de caso da Dinamarca serve de exemplo para investigar se uma taxa de vacinação de 70% basta para proteger os não vacinados. O país vizinho à Alemanha eliminou as restrições de contenção da pandemia. Cerca de 75% da população está vacinada (dado de 27 de setembro), consideravelmente mais do que na Alemanha, onde apenas 64,4% estavam completamente vacinados até 30 de setembro.

Importância do contexto global

Em outras partes do mundo, a taxa de vacinação ainda é muito baixa. Nos países de baixa renda, apenas 2,3% da população recebera pelo menos uma dose de vacina (29 de setembro). Na República Democrática do Congo, por exemplo, até 24 de setembro apenas 0,04% da população recebera duas doses. O perigo é que um grande número de novos contágios em países com baixa taxa de vacinação pode gerar mutações mais rápidas do vírus.

“Do ponto de vista global, estamos longe de atingir uma cota de vacinação que impeça o vírus de se espalhar”, assegura Dirk Brockmann, pesquisador de complexidade da Universidade Humboldt de Berlim. Novas mutações de outros países também poderiam prejudicar uma imunidade de rebanho na Alemanha, segundo Thorsten Lehr: “Na Colômbia, há atualmente uma nova variante que está se espalhando. E também na África do Sul.”

Se surgirem variantes contra as quais as vacinas não funcionam mais, elas precisarão ser modificadas ou novos imunizantes terão que ser desenvolvidos. “Nesse aspecto, a noção de imunidade de rebanho não pode ser alcançada globalmente para toda a humanidade”, esclarece Brockmann.

Vacinas também protegem contra a variante delta

Até agora, as vacinas aprovadas na União Europeia protegem contra todas as variantes, incluindo a delta, que predomina. “Não acredito que haverá uma mutação que escape completamente à nossa vacinação. Isso é extremamente improvável“, diz Falk. O vírus pode continuar sofrendo mutações, mas pelo menos há uma certa proteção básica contra todas as variantes atuais.

As vacinas aprovadas ainda protegem amplamente contra um curso grave da doença. De acordo com o RKI, unidades de terapia intensiva há bem mais pacientes de covid-19 não vacinados do que com o ciclo vacinal completo.

A vacinação reduz muito a probabilidade de infecção. E, claro, você também protege aqueles ao seu redor que não podem ser vacinados”, acrescenta Lehr. Segundo Christine Falk “a proteção vacinal é excelente, e quem foi imunizado duas vezes normalmente estará protegido neste outono e inverno”.

Portadores de moléstias pregressas, quem toma medicamentos imunossupressores e idosos são mais vulneráveis , devendo receber uma terceira dose, se necessário, acrescenta a imunologista. O dado é confirmado por estudos iniciais da Pfizer-BioNTech, segundo os quais uma terceira dose, sete a nove meses após a segunda dose, pode estender e fortalecer a proteção.

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