Londres tem uma praga de periquitos tropicais e Jimi Hendrix é um dos suspeitos

O periquito-de-colar (Psittacula krameri) pode ser originário da África e do Sudeste Asiático, mas numericamente é mais britânico do que se imagina.

A Sociedade Real para a Proteção das Aves da Grã-Bretanha (RSPB, na sigla em inglês) estima que há mais de 8,5 mil casais em idade reprodutiva em todo o país, principalmente no sudeste da Inglaterra.

Mas, apesar de muitos aficionados pelas aves se animarem ao notar esses pássaros nos parques de Londres, eles não são tão queridos assim.

Recentemente, uma série de artigos no jornal The Daily Telegraph lamentou a presença dos periquitos e deu destaque a pesquisas que indicam como eles podem prejudicar as espécies nativas da ilha.

Assim como os periquitos, outras espécies não nativas também têm se mostrado polêmicas no país. Muitas caem no gosto local, mas outras exigem medidas de controle populacional.

Culpa de Jimi Hendrix?

Um fator essencial é descobrir como essas espécies conseguiram chegar ao país.

A RSPB classifica como “não nativas” as espécies introduzidas pela atividade humana e como “invasoras” aquelas que já apresentam um efeito claramente negativo sobre as locais.

Se uma planta ou animal entra na ilha por meios “naturais” ou como resultado de uma mudança climática, ela pode ser classificada como “nativa”, independentemente de quando se instalou.

Isso cria algumas tensões interessantes. Em setembro, ecologistas entraram em alerta quando foram encontradas vespas gigantes asiáticas (Vespa mandarinia) no condado de Gloucestershire.

Essas vespas são consideradas invasoras porque podem ter um impacto devastador em insetos polinizadores locais, como as abelhas-europeias, mesmo com a hipótese de terem chegado à Grã-Bretanha vindas da França, atravessando o Canal da Mancha por conta própria.

Já em relação aos periquitos, não se sabe como eles chegaram ao país, apesar de existirem algumas histórias fantásticas sobre suas origens.

Uma delas é a de que os pássaros foram deliberadamente introduzidos pelo lendário guitarrista americano Jimi Hendrix, morto em 1970, que passou os últimos dias de sua vida em Londres.

Outros acreditam que as primeiras aves escaparam dos estúdios de Shepperton, onde Humphrey Bogart e Katharine Hepburn filmaram Uma Aventura na África, em 1951.

Mas o mais provável é que os periquitos vistos pela capital britânica hoje sejam simplesmente os descendentes de bichos de estimação que foram recusados por seus donos.

Questão de gosto

Outro fator que determina se uma espécie não nativa será bem acolhida é a maneira como ela afeta os animais mais queridos do país.

Alguns animais são tidos como ícones britânicos, como o esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris), o ouriço (subfamília Erinaceinae), os ratos-de-água e os texugos.

Qualquer invasor que tiver um impacto negativo sobre esses animais tem mais chances de enfrentar o escrutínio da população e das autoridades.

Mas, muitas vezes, novas espécies são recebidas de braços abertos.

Segundo a RSPB, em 1989 o país assistiu à chegada de grandes números de pequenas garças, que até então se limitavam à Europa continental – elas vieram por seus próprios meios e foram rapidamente adotadas.

O mesmo ocorreu com pequenas corujas que foram introduzidas deliberadamente no país no século 19, não consideradas uma ameaça à fauna local.

‘Criminalização’ de espécies

A tentativa de ligar uma determinada espécie a um habitat em particular só serve para ressaltar um dos pontos mais polêmicos da história natural: a de que espécies pertencem aos lugares onde o homem as observou pela primeira vez.

“A ideia de que as coisas permanecem exatamente onde sempre estiveram não tem lugar na biologia”, afirma Chris Thomas, da Universidade de York, à BBC.

Para ele, estamos “criminalizando” certas espécies por causa de suas origens, sem que exista provas diretas de que uma espécie tenha sido extinta por causa de um invasor.

Thomas também nota que o excesso de competição e de mudanças é comum na natureza, independentemente do papel do homem na equação. “Algumas espécies são simplesmente mais dominantes do que outras“, conclui.

Um exemplo disso são os rododendros, belas plantas floridas muito populares entre os jardineiros britânicos.

Elas foram introduzidas no país no fim do século 18 e são acusadas de terem tomado conta dos ambientes silvestres, já que, por serem altas e largas, podem fazer sombra para outras plantas.

Mas Thomas lembra que os rododendros já cresceram nas Ilhas Britânicas há 400 mil anos. Foram extintas por uma glaciação e voltaram ao país pelas mãos do homem. Hoje, algumas pesquisas mostram que elas até beneficiam espécies nativas, como os ratos silvestres.

O que, então, torna uma espécie verdadeiramente nativa e verdadeiramente britânica?

Segundo Jess Chappell, representante da RSPB, a entidade se baseia em evidências de algum impacto negativo nas espécies locais. Em outras palavras: o quanto uma nova espécie é capaz de se integrar?

Mas, para Thomas, trata-se de uma decisão social também, que depende da aprovação ou não da espécie pelo público. E isso acaba se refletindo nas políticas de preservação.

De qualquer forma, talvez essas linhas não devessem ser demarcadas com um lápis tão grosso. Afinal, a natureza não faz um controle de fronteiras.

// BBC

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