Marinha dos EUA é obrigada a divulgar relatório secretíssimo do afundamento de seu submarino nuclear

No dia 12 de abril de 1963, às 9h17, o submarino nuclear USS Thresher dos EUA emitiu sua última mensagem, antes de ser esmagado pela pressão da água nas profundezas oceânicas do Atlântico.

A bordo do navio estavam 129 oficiais e marinheiros. Quase 57 anos depois, este continua a ser o pior desastre submarino da Marinha dos EUA e um dos mais enigmáticos. Para adensar o mistério, a Marinha recusou sistematicamente ao longo destes anos em divulgar o relatório de 1.700 páginas, alegando sua extrema confidencialidade.

Indignado por apenas 19 páginas terem sido divulgadas publicamente, o capitão da Marinha aposentado Jim Bryant, de 72 anos, fez da luta pela liberação das outras 1.681 páginas sua causa principal.

Criado em Pasadena e formado na Academia Naval dos EUA, Bryant serviu a bordo de três submarinos da classe Thresher, chegando mesmo a comandar um deles. “Sinto uma responsabilidade para com os homens que estavam a bordo e suas famílias”, disse Bryant, citado pelo portal Stars and Stripes.

Em junho de 2017 e abril de 2019, Bryant recorreu sem sucesso à Lei de Liberdade de Informação, tendo apelado dos indeferimentos para um tribunal federal.

Ainda no início de 2019, ele apresentara um pedido de liberação do relatório junto do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia, tendo um juiz federal ordenado que a Marinha fosse libertando excertos do relatório em segmentos mensais de 300 páginas, desde 15 de maio até 15 de outubro.

A Marinha recorreu, solicitando mais tempo para revisar documentos e apagar informações confidenciais. O advogado de Bryant contestou, sublinhando que a Marinha já havia prometido fazer isso 22 anos antes.

O juiz negaria o recurso da Marinha dos EUA neste mês de março de 2020.

Bryant, que viria a se formar, já aposentado, em arqueologia no San Diego City College, não entende o secretismo à volta da questão e a obstinação da Marinha.

“As primeiras sociedades indígenas norte-americanas provaram ser mais um livro aberto do que os submarinos da Marinha movidos a energia nuclear. Mesmo o material já desclassificado sobre estes sistemas de propulsão está bloqueado, fora da vista do público”, salientou.

Causas do acidente continuam por apurar

Em 1963, um tribunal de investigação naval determinou que a causa do acidente estaria no rompimento de um tubo, que teria provocado o afundamento do submarino.

Bruce Rule, um oficial naval aposentado cuja função era escutar os submarinos soviéticos através do SOSUS, uma rede secreta de hidrofones instalados no fundo do oceano, redigiu um pequeno livro de 42 páginas sobre o assunto.

Rule concluiu que o submarino perdeu energia por razões desconhecidas, mergulhando depois impotente de 1.300 pés para 2.400 pés, sendo então esmagado pela pressão da água em um piscar de olhos – em 1/20 de segundo.

Bryant não descarta esta hipótese, mas insiste em ler o relatório oficial da Marinha dos EUA. “O Thresher não estava em missão secreta. Estamos falando aqui de procedimentos de engenharia e de uma mentalidade que levaram a que o submarino se afundasse. Por que tanto secretismo?”, questionou o capitão, frisando que a tecnologia de então já está completamente obsoleta.

Nem todos admiram a luta de Bryant pela verdade

Admiro a persistência de Jim“, disse Charles MacVean, capitão aposentado da Marinha citado pelo referido portal, que comandou o submarino nuclear Seawolf e para quem o importante foi a Marinha ter corrigido os problemas.

Robert Eatinger, advogado de Bryant, já foi advogado da CIA. Nessa qualidade, ele esteve envolvido em centenas de apelações da Lei de Liberdade de Informação, mas do lado oposto, procurando manter os segredos do governo. Mesmo assim, ele não descortina o porquê de tanto secretismo.

Apesar de Eatinger e Bryant terem obtido uma ordem judicial para ver o relatório oficial do Thresher, não está claro se esta vitória foi grande ou pequena, porque o material considerado essencial para a segurança nacional será omitido.

Quando terão acesso ao relatório, eles não sabem. Mas para eles uma coisa é certa: “Vamos liberá-lo para o público.”

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