“Não existe gene gay”, afirma estudo genético feito com meio milhão de DNAs

Como ser baixo ou alto, mais ou menos inteligente, o fato de amar homens ou mulheres não é definido por um único gene, mas por várias regiões do genoma e, como qualquer aspecto humano complexo, por fatores não-genéticos indescritíveis.

Esta é a conclusão de uma análise realizada em meio milhão de perfis de DNA por um grupo de pesquisadores na Europa e nos Estados Unidos. A publicação nesta quinta-feira (29) pela prestigiosa revista Science visa enterrar a ideia nascida nos anos 1990 de que existe um “gene gay” tão previsível quanto o que existe para a cor dos olhos.

É de fato impossível prever a orientação sexual de uma pessoa com base em seu genoma”, diz Ben Neale, membro do Broad Institute de Harvard e do MIT, uma das muitas instituições de onde os autores desse estudo são originários. A orientação sexual tem um componente genético, dizem os pesquisadores, confirmando estudos anteriores menores, especialmente sobre gêmeos.

Mas esse componente depende de uma infinidade de genes. “Não existe um único gene gay, mas muitos pequenos efeitos genéticos distribuídos no genoma sobre a orientação sexual”, diz Ben Neale.

Da mesma forma, o debate sobre o caráter inato (genético) ou adquirido (ambiental) da homossexualidade serviu ao longo dos anos para alimentar os argumentos de uma margem conservadora da sociedade, que associa a homossexualidade a uma “escolha” ou mesmo um “desvio psicológico”, detalha Slate em um artigo de 2017 sobre a espinhosa edição do trabalho científico sobre homossexualidade.

“Levada ao extremo, essa suposição induz o estabelecimento de ‘terapias de conversão’ [a ‘cura gay’] muito preocupantes para ‘curar’ homossexuais” “, escreve o artigo. Se, na primavera de 2018, o Parlamento Europeu adotou um texto não vinculativo pedindo aos Estados que proibissem essas “terapias de conversão”, a França está trabalhando em um texto para proibir “a modificação forçada da sexualidade ou da identidade de gênero”, relatou o jornal Le Figaro em julho.

Mas, além disso, há um fator essencial: o ambiente em que uma pessoa cresce e vive. Para explicar melhor, os pesquisadores comparam o efeito dos genes no tamanho do corpo: o efeito genético é indiscutível, já que a altura está vinculada à dos pais. Mas a genética não explica tudo: o ambiente onde se evolui durante a infância terá um impacto significativo.

O mesmo vale para o risco cardíaco: os genes criam predisposições, mas o estilo de vida das pessoas, como sua dieta, tem um papel maior no aparecimento ou não de doenças ligadas ao coração.

Essa nova análise estatística revelou cinco posições precisas em nossos cromossomos, chamadas de locus, que parecem estar claramente relacionadas à orientação sexual, embora cada uma tenha uma influência “muito pequena” na definição final da orientação sexual. Biologicamente, verifica-se que um desses marcadores também está associado à perda de cabelo, o que sugere um vínculo do locus com a regulação dos hormônios sexuais.

Presumivelmente, existem centenas ou milhares de outros marcadores, que análises futuras em bancos de DNA maiores poderão descobrir um dia. “É um comportamento complexo em que a genética desempenha um papel, mas provavelmente de maneira minoritária. O efeito do meio ambiente existe, mas não podemos mensurá-lo exatamente”, diz Fah Sathirapongsasuti, cientista do 23andme.com , um site de testes de DNA que contribuiu para o estudo com perfis genéticos de clientes voluntários.

A maior parte da análise foi feita por homens e mulheres do British Biobank, sediado no Reino Unido, principalmente de origem europeia, que responderam à pergunta: você já transou com uma pessoa do mesmo sexo? Os autores do estudo se dizem conscientes da delicadeza do assunto, e os dois pesquisadores tiveram o cuidado de lembrar, em uma teleconferência com repórteres na terça-feira (27), que eles próprios eram gays.

Desejando evitar qualquer má interpretação, eles chegaram ao ponto de consultar as associações LGBT sobre como comunicar seus resultados, os quais foram divulgados em um site especial, geneticsexbehavior.info. A associação norte-americana GLAAD felicitou o trabalho, confirmando que “ser gay ou lésbica é uma parte natural da vida humana”.

No início da ciência genética, em 1993, um estudo com 40 famílias pensou ter identificado um gene, o Xq28, que definiria a orientação sexual. Essa nova análise refuta o modelo simplista. Outro resultado do estudo desafia a ideia de que a orientação sexual seria a mesma durante toda a vida, de acordo com a chamada escala de Kinsey, nomeada a partir do biólogo norte-americano que a definiu em 1948: de 100% homossexual a 100% heterossexual, passando por bissexual.

“Supor que quanto mais você se sente atraído por alguém do mesmo sexo, menos se sente atraído pelo outro sexo é uma simplificação excessiva“, dizem os pesquisadores, depois de compararem os marcadores genéticos que afetam o número de parceiros de cada sexo.

// RFI BR

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2 COMENTÁRIOS

  1. Algumas expressões denotam as incertezas dos pesquisadores em relação aos resultados. Está parecendo o esforço eternamente inconclusivo dos evolucionistas.
    A pesquisa comportamental complexa baseada em genes não pode ser motivo de alegria para os homossexuais. Não prova nada. Pelo contrário, as ínfimas amostras poderiam até provar, em tese, pela absurda desproporção, exatamente o contrário.

  2. A besterologia vez em quando atinge as “mentes brilhantes”: Esses comentários cheiram a FAKE NEWS, para quem não tem muita instrução, e mais ainda quem não tem conhecimentos mínimos da ciência genética, se reduz à uma falácia, uma respeitável e reconhecida publicação científica, não publicaria isso certamente, sem a assinatura de um nome de peso entre a ciência, liderando a tal pesquisa, e tem muitos comentários dispersivos, pra não dizer “burros”.

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