Putin vacinado contra a covid-19 – mas longe das câmeras

kremlin.ru / Wikimedia

O presidente da Rússia, Vladimir Putin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, é famoso por aparecer em fotos sem camisa. Mas quando se trata da vacinação contra o coronavírus, parece que os russos não poderão vê-lo sequer arregaçando as mangas.

O governo russo anunciou que Putin finalmente tomou a primeira dose da vacina na terça-feira (23/03), depois de o próprio presidente ter anunciado que o faria nessa data. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, não quis revelar com qual dos três imunizantes disponíveis no país o líder russo foi vacinado, se limitando a dizer que todos eles são “absolutamente confiáveis, eficazes e seguros”.

Não há imagens do grande momento. Antes de terça-feira, Peskov já havia antecipado que as pessoas teriam “que acreditar em nossa palavra” sobre se Putin foi vacinado ou não. Afinal, o presidente “não gosta” da ideia de receber a injeção ao vivo diante das câmeras, como outros líderes mundiais já fizeram.

Na Rússia, tem havido grande especulação sobre por que o presidente não foi o primeiro na fila para receber a vacina Sputnik V contra o coronavírus, depois que a Rússia lançou sua campanha de vacinação no início de dezembro. Inicialmente, Putin disse que não seria vacinado por causa de sua idade, depois porque isso conflitava com seu calendário de vacinação.

A Sputnik V foi batizada em homenagem ao primeiro satélite do mundo, em uma alusão à corrida espacial da Guerra Fria. A vacina saiu às pressas no ano passado, apesar de relatos de que a terceira fase dos testes não havia sido concluída. Putin, que classificou a vacina russa como “a melhor do mundo”, se gabou nesta semana por ela já ter sido aprovada em 55 países.

Em fevereiro, uma pesquisa revisada por outros cientistas e publicada na revista científica The Lancet apontou que a vacina é 91,6% eficaz. Além da Sputnik, mais uma vacina russa já está disponível e outra está prestes a ser introduzida. Enquanto isso, na União Europeia, a Sputnik passa atualmente por análise antes de uma possível aprovação.

Turismo de vacinas para a Rússia

A DW falou com representantes de duas agências de turismo europeias, uma com sede na Noruega e outra na Itália, e ambas confirmaram planos de organizar viagens de vacinação à Rússia, o que permitiria aos viajantes receber duas doses da Sputnik V e ainda fazer turismo.

Pietro di Febo, diretor da agência de turismo italiana Eurasian Travel, disse à DW que já existe uma grande demanda para os roteiros de vacinação, embora sua empresa ainda nem tenha começado a divulgá-los.

Segundo Febo, atualmente há 250 pessoas na lista de espera para uma excursão de vacinação, embora o Ministério da Saúde da Rússia tenha insistido nesta semana que a vacina é atualmente apenas para cidadãos russos e não para turistas estrangeiros.

Uma difícil batalha

Até o momento, porém, o lançamento da vacina russa tem obtido mais sucesso no exterior do que em casa. Nesta semana, Putin disse que pouco mais de 6 milhões de russos receberam pelo menos uma dose do imunizante. A taxa de vacinação na Rússia (atualmente em torno de seis doses por cem pessoas) é lenta, mesmo em comparação com países como a Alemanha, onde o ritmo da campanha de vacinação tem enfrentado enormes críticas.

Autoridades do governo russo disseram que esperam vacinar 68 milhões de russos – ou 60% da população – até o verão no hemisfério norte, a fim de obter imunidade coletiva.

Mas o governo pode estar enfrentando uma batalha difícil. Uma pesquisa feita em fevereiro pela organização independente de pesquisas Levada Center sugere que 62% dos russos não querem ser vacinados com a Sputnik V. E o número de pessoas que se recusam a receber a vacina tem aumentado constantemente nos últimos meses.

O sociólogo Denis Volkov acredita queo ritmo lento da campanha de vacinação na Rússia se deve principalmente ao ceticismo. “Há muita incredulidade de que [o coronavírus] é uma doença grave. E isso afeta o número de pessoas que estão dispostas a se vacinar”, disse o vice-diretor do Levada Center à DW.

Segundo o levantamento mais recente dos pesquisadores, 56% dos russos dizem não ter medo da covid-19, enquanto quase dois terços dos russos acreditam que “o vírus foi criado artificialmente e é um novo tipo de arma biológica”.

Perigosamente destemidos

Em um pequeno mercado no centro de Moscou, tanto os vendedores quanto os clientes confirmam as estatísticas, com entrevistados dizendo à DW que não planejam ser vacinados. “Não vou por nada neste mundo. Isso não é uma vacinação, é um experimento de engenharia genética”, insiste um homem que compra romãs na barraca de frutas do mercado.

Uma vendedora da barraca de bebidas entra na conversa, dizendo acreditar que a vacina que ela tomou contra a gripe será suficiente para protegê-la da covid-19. “Eu nasci na União Soviética. Não tenho medo de nada nesta vida. De nada.” E acrescenta: “Deixe Putin tomar a injeção – eu não tomo. Só porque ele vai tomar, isso não muda nada para mim.”

Mas há outros que seguem, sim, o exemplo do líder. Especialistas dizem que a recusa de Putin em se vacinar até então vinha impactando o ritmo da campanha de vacinação na Rússia.

“Dois terços das pessoas aprovam suas ações. Para esses dois terços dos russos, faz diferença se o presidente foi vacinado ou não”, disse Volkov, do Levada Center. Ele acredita que as autoridades deveriam encorajar políticos e celebridades a receberem a vacina. “Todos em quem as pessoas confiam devem ser vacinados – na frente das câmeras”, acrescenta.

“Um de nós”

Konstantin Kalachev, analista político independente, diz que a recusa de Putin em se vacinar diante das câmeras “levanta dúvidas – especialmente porque ele é conhecido por ter orgulho de seu corpo, sua imagem de macho e sua masculinidade”.

Ele também tem sua própria teoria sobre por que Putin esperou tanto para receber a injeção. “Acho que o próprio Putin é um cético quando se trata de vacinas. Ele é um de nós, é como um reflexo no espelho. Se a maioria dos russos não quer ser vacinada e tem medo dos efeitos colaterais – bem, Putin não poderia ter se tornado Putin se ele não fosse apenas como a maioria dos russos.”

Ciberia // Deutsche Welle

 

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