No Zimbábue, os avós são a cura para a depressão

No Zimbábue, a depressão é chamada de “kufungisisa”, que significa “pensar demais”. Na tentativa de combater o reduzido número de psiquiatras e psicólogos na região, foi criado um programa da saúde mental inovador: o Friendship Bench.

O número de casos de depressão no Zimbábue são justificados por eventos traumáticos ocorridos no país, como a Guerra Civil da Rodésia e o Gukurahundi – uma série de massacres de civis durante quatro anos.

Em 2005, durante uma campanha do governo que tinha como objetivo limpar as favelas do país, foram desalojadas mais de 700 mil pessoas. Foi nessa altura que Dixon Chibanda, um dos doze psiquiatras que atuam no Zimbábue, percebeu a dimensão do problema.

Para tentar resolvê-lo, e devido à escassez de profissionais competentes, o especialista criou, em 2006, o programa Friendship Bench, distribuído gratuitamente por 70 comunidades da região, que treinou mais de 400 avós em psicoterapia.

Inicialmente, o psiquiatra não acreditou na eficácia do projeto, mas começou a treinar os avós utilizando a terminologia do Ocidente, com palavras como “depressão” e “suicídio”.

Rapidamente ele percebeu de que não ia funcionar. Para chegar aos doentes, os avós precisavam usar a própria linguagem, para que as comunidades sentissem empatia com os avós.

Assim, o treino foi feito em conjunto: em linguagem xona, desenvolvendo as ideias de fortalecimento de espírito e abertura da mente. “Acho que foi um dos motivos pelo qual foi tão bem sucedida”, contou Dixon Chibanda, citado pela Visão. “Conseguiu reunir essas diferentes peças, usando o conhecimento e a sabedoria das comunidades”.

A relação entre os avós e os doentes

Os avós acompanham quase diariamente vários tipos de pacientes, desde toxicodependentes a seropositivos no limiar da pobreza, passando ainda por idosos em solidão e mulheres grávidas e solteiras.

Depois de seis meses, o grupo que tinha recebido o acompanhamento dos avós mostrava menos sintomas de depressão em relação a um grupo submetido a um tratamento convencional.

Ao contrário do que se pensava, apesar de os avós terem passado pelos mesmos traumas sociais, os especialistas descobriram que têm taxas muitos baixas de transtornos relacionadas com estresse pós-traumático. Além disso, o fato de lidarem com pessoas com problemas de saúde mental não os torna mais frágeis e propensos aos mesmos.

“O que parece acontecer é esse conceito de altruísmo. Os avós sentem que estão tirando proveito de alguma coisa que realmente faz a diferença na vida dos outros”, explicou o médico.

Programa reconhecido e expandido a outros países

Em 2009, o programa já era reconhecido e realizado em várias clínicas, escolas e estabelecimentos policiais e, em 2016, o especialista publicou os resultados de um ensaio clínico com 600 pessoas que testou a eficácia do programa no Journal of American Medical Association.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo têm depressão, que, por sua vez, leva a 800 mil suicídios por ano, a maioria deles em países em desenvolvimento.

Ciberia // ZAP

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