As avelãs da Nutella são colhidas por crianças refugiadas?

Quase três quartos das avelãs do mundo vêm da Turquia. Sua grande compradora é a Ferrero, fabricante da Nutella, o famoso creme de avelã e chocolate.

Essas avelãs costumam ser colhidas por migrantes, incluindo crianças, que trabalham várias horas por dia e recebem um baixo pagamento. O que a Ferrero está fazendo para garantir que seus produtos não dependam de trabalho infantil? “Quando dizemos ‘avelã’, isso para mim significa trabalho duro”, diz Mehmet Kelekci, enquanto carrega nas costas um saco de 35 kg com avelãs recém-colhidas.

Em volta dele, numa montanha da Turquia, uma família de migrantes curdos se move lentamente entre as árvores. O pai usa um pedaço de pau para chacoalhar os galhos; sua mulher e seus filhos se agacham para pegar os cachos de avelãs em suas cascas verdes. É um trabalho exaustivo, de cerca de dez horas por dia, em morros íngremes e escorregadios.

Dois dos coletores, Mustafa e Mohammed, trabalham ilegalmente. Eles têm 12 e 10 anos de idade — bem menos que a idade mínima para trabalhar na Turquia. Essa é uma cena típica em agosto, quando a colheita é levada para a costa turca no Mar Negro, fonte de 70% das vendas de avelã no mundo.

A maioria dos coletores é formada por migrantes temporários vindos de áreas pobres no sul e no leste da Turquia, principalmente curdos. O salário definido por autoridades locais é de 95 liras (R$ 69) por dia, valor inferior ao salário mínimo nacional da Turquia, de 2.020 liras (R$ 1.466) por mês para jornadas semanais de 40 a 45 horas.

Mas essa família recebe ainda menos: um máximo de 65 (R$ 47) liras por dia, e às vezes apenas 50 liras (R$ 36), após pagarem uma comissão de 10% para o agenciador que os levou para lá, além das taxas de transporte até sua casa em Sanliurfa e dos gastos durante a viagem.

Kazim Yaman, um dos donos da plantação, diz ser contra o trabalho infantil. “Eles fazem suas crianças trabalhar como máquinas. Eles pensam: ‘quantas crianças, quanto de lucro?'” Mas ele diz que a maioria dos fazendeiros aceita a prática, e que ele não tem outra opção senão pagar as crianças, já que seus pais insistem que elas trabalhem.

“Estou tentanto impedir que elas trabalhem, mas aí eles dizem que vão embora”, afirma. “A mãe e o pai querem que eles trabalhem e sejam pagos.” Ele acrescenta: “Esse ciclo tem de ser rompido.”

Mas como? A Turquia tem cerca de 400 mil plantações familiares de avelãs. A maioria, como o de Kazim, é bem pequena. Na ponta do setor há marcas turcas e internacionais famosas, como a Ferrero, empresa familiar italiana que fabrica a Nutella, o Ferrero Rocher e os chocolates Kinder.

A Ferrero compra cerca de um terço de toda a safra de avelãs da Turquia. A quantidade de Nutella fabricada a cada ano pesa o mesmo que o edifício Empire State em Nova York, ou cerca de 365 mil toneladas. Em seu site, a Ferrero, que não produz nem vende avelãs, diz: “A rastreabilidade é essencial para garantir os padrões de qualidade da produção e dos produtos.”

A empresa diz ter o objetivo de tornar suas avelãs 100% rastreáveis até 2020. Hoje, porém, segundo seu último relatório, a ser publicado em breve, ela alcançou apenas 39% de rastreabilidade.

Ao analisar a cadeia do produto, percebe-se que há muito a avançar. Enginay Akcay, vendedor de avelãs na costa do Mar Negro, é um dos milhares de pequenos comerciantes conhecidos como “manavs”. Os fazendeiros entregam seus produtos em sacos, e ele os paga de acordo com a qualidade antes de revendê-los para indústrias que quebram as castanhas ou para marcas como a Ferrero

Mas ele diz que a Ferrero não lhe pergunta de onde vêm as avelãs que ele compra ou quais as condições de trabalho nas fazendas. “O trabalho infantil não tem nada a ver conosco. O controle e o monitoramento são responsabilidade do Estado e das forças de segurança.”

Acima desses negociantes há revendedores como Osman Cakmak. Ele compra de vendedores e revende para a Ferrero e outras empresas. Ele também diz que a Ferrero não pergunta quais fazendeiros produzem as avelãs que ele lhes vende. “Eu compro, eu vendo. No momento, é impossível monitorar as toneladas de avelãs”, ele diz.

O programa Farming Values, lançado pela Ferrero na Turquia em 2012, oferece treinamento gratuito para produtores de avelã e técnicas de cultivo mais eficientes para ajudá-los a aumentar a renda, embora eles sigam livres para vender seus produtos a quem quiserem.

Em um dos modelos desenvolvidos pela Ferrero, o agrônomo da empresa Gokhan Arikoglu mostra como — por meio de podas, irrigação e controle de pragas — uma árvore de avelã pode produzir cachos com até 21 castanhas. Normalmente, em propriedades familiares, a média é de quatro castanhas por cacho.

A Ferrero também treina produtores, trabalhadores de fazendas, comerciantes e outros do setor, como líderes comunitários, sobre formas de tornar a cadeia mais sustentável. Isso inclui treiná-los sobre os direitos de trabalhadores, particularmente como evitar o trabalho infantil. A companhia busca envolver mulheres, incluindo trabalhadoras rurais, em seus programas de treinamento.

A Ferrero diz que o programa atinge mais de 42 mil produtores rurais, que correspondem 10% do setor em toda a Turquia.

Como a empresa pode se certificar de que suas avelãs não são colhidas por crianças? Em rara entrevista concedida por um executivo da companhia, Bamsi Akin, gerente-geral da Ferrero na Turquia, diz: “Se determinarmos que um produto é produzido de forma antiética, não o tocaremos. Estamos fazendo nosso papel para melhorar as práticas sociais com treinamentos. Mas o sistema é completamente limpo? Acho que ninguém pode dizer isso neste momento.”

Indagado sobre o comerciante que disse à BBC que a Ferrero não o questionou sobre a fonte das castanhas, Akin diz: “Não estamos fazendo perguntas, mas temos os instrumentos para monitorar de outra perspectiva. Antes do início da estação, conversamos com eles (os comerciantes), e demonstramos nossas exigências de práticas sociais.” Ele diz que a Ferrero tem os nomes dos intermediários com que negocia, e pode fornecer uma lista.

Na estrada abaixo da plantação, com vista para o Mar Negro, o fazendeiro Kazim Yaman vê o jovem Mustafa, de 12 anos, esvaziar outro saco cheio de avelãs. Ele lamenta: “Outro dia vi um pai colocar um saco bem pesado nos ombros da criança. Eu disse: ‘O que você está fazendo?’ E ele disse: ‘Fazendo com que ele se acostume’.”

Yaman diz que a Ferrero o convidou a participar de seu programa, mas ele recusou. Como muitos outros produtores, ele pertence a uma geração antiga (está na faixa dos 60 anos) que desconfia de mudanças. “A cadeia não pode ser transformada com os esforços de uma ou duas pessoas, mas algum dia ela será transformada.”

Enquanto isso, outra família de coletores curdos está se aproximando da minúscula casa de madeira sem eletricidade que abrigará seis pessoas — mãe, um filho adulto, duas filhas adultas e dois filhos menores — no próximo mês.

Eu pergunto à mãe, Ayse, com qual frequência ela consome chocolate com avelãs. “Não gosto”, ela responde com um riso. “Com o sofrimento e a dor que eu tenho com esse produto, não quero nem vê-lo.”

// BBC

// BBC

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