Bolsonaro encerra visita a Israel com absurdo sobre nazismo

Abir Sultan / EPA

O presidente do Brasil Jair Bolsonaro e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau

O presidente Jair Bolsonaro encerrou sua agenda oficial em Israel nesta terça-feira (02/04). A visita de três dias, marcada por simbolismos e atos controversos por parte do brasileiro, deu início a uma nova fase nas relações entre os dois países e deixou países árabes descontentes.

O fim da viagem também foi marcado por polêmica. Bolsonaro se irritou com a imprensa, defendeu uma declaração passada em que havia elogiado um torturador da ditadura militar e disse “não ter dúvidas” de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

A fala contradiz o próprio museu visitado mais cedo nesta terça-feira pelo presidente. Seguindo outros líderes estrangeiros que viajaram a Israel, Bolsonaro esteve no memorial Yad Vashem, em Jerusalém, um museu público em memória às vítimas do Holocausto.

A instituição define o nazismo como um movimento que partiu da direita. Em seu site, num trecho em que explica a ascensão do partido nazista na Alemanha, o Yad Vashem afirma que isso só foi possível graças ao “crescimento de grupos radicais de direita” no país.

A definição de nazismo como sendo de esquerda virou discurso oficial em Brasília com declarações recentes do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

A fala, dada em longa entrevista a um canal simpático à extrema direita no Youtube, repete um discurso que esteve em alta nas mídias sociais brasileiras durante as eleições, mas que jamais foi levado a sério por acadêmicos na Alemanha. A tese é tida como absurda e desonesta por acadêmicos e diplomatas europeus.

Nesta terça-feira em Jerusalém, questionado se concordava com a afirmação de Araújo, Bolsonaro afirmou: “Não há dúvida. Partido Socialista… Como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional-Socialista da Alemanha.”

Os atuais defensores do “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que isso não passou de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

A declaração de Bolsonaro foi feita numa entrevista à imprensa ao fim de um encontro com membros da comunidade brasileira em Israel, no hotel King David, em Jerusalém.

Antes da coletiva, em discurso durante o encontro, ele recordou o dia em que votou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016. À época, diante de uma Câmara lotada, o então deputado dedicou seu voto à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. O militar foi um reconhecido torturador durante a ditadura militar.

Em Jerusalém, o presidente disse que, na época da votação do impeachment, afirmaram que ele não seria eleito para nenhum cargo no país após tal declaração, mas “aconteceu o contrário”. Após o discurso, jornalistas presentes perguntaram por que ele decidiu mencionar esse evento, justo num momento em que o país vive debates acalorados a respeito da ditadura militar. Mas Bolsonaro ignorou o questionamento e disparou: “Mais alguma pergunta?”

Durante a entrevista, o presidente protagonizou outros momentos de irritação com a imprensa, alegando que tenta tratar os jornalistas “com o respeito que merecem”, mas reclamando de “perguntas menores que só dão manchetes negativas em jornais”.

Agenda em Israel

O último dia da viagem de Bolsonaro a Israel foi marcado por uma visita ao memorial Yad Vashem, que recorda a morte de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. “Aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro”, afirmou o brasileiro.

No local, ele colocou flores no Hall da Memória do museu, inaugurou uma placa em nome do Brasil e plantou uma muda de oliveira no Bosque das Nações.

A árvore crescerá perto de onde o ex-presidente Lula também plantou uma muda durante sua viagem a Israel, em 2010. “A minha vai crescer mais que a dele”, disse o presidente, em alusão a um de seus maiores adversários políticos.

Na segunda-feira, o chefe de Estado visitou o Muro das Lamentações ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tornando-se assim o primeiro chefe de Estado estrangeiro a fazer a visita ao lado de um premiê israelense.

O local é um dos mais sagrados do judaísmo e está localizado em Jerusalém Oriental, que foi ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias e depois anexada, o que não foi reconhecido pela comunidade internacional.

Uma visita ao lado do premiê de Israel pode ser interpretada como aprovação tácita da anexação. Nem o presidente dos EUA, Donald Trump, que também adota uma política de laços estreitos com Israel, visitou o muro acompanhado de autoridades israelenses.

No domingo, Jair Bolsonaro anunciou que vai abrir um escritório de representação comercial do Brasil em Jerusalém. Essa iniciativa tem menos peso que a transferência de uma embaixada, como anunciado anteriormente, mas também tem valor político para o governo israelense, que tenta legitimar internacionalmente a ocupação de toda a cidade e sua escolha como capital de Israel.

Em resposta, a Autoridade Palestina convocou seu embaixador no Brasil para consultas. O grupo radical palestino Hamas também rechaçou a decisão brasileira, condenou a viagem de Bolsonaro à região – que não incluiu visitas a territórios palestinos, como é de praxe entre líderes internacionais – e cobrou pressão de países árabes contra o governo brasileiro.

Bolsonaro chegou a Israel no domingo e retorna ao Brasil nesta quarta-feira. A volta foi antecipada para duas horas mais cedo, e um evento que estava marcado para a quarta-feira de manhã foi transferido para esta terça-feira.

// DW

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