Clube vende criptomoedas e até escalação do time a “torcedor-investidor”

(dv) Walter Rosa

Jonathan Darcie (à esquerda), da Iconic, e o presidente do clube, Claudio Lampek: investidores poderão definir a escalação do time

Desde 2012, o Esporte Clube Cruzeiro é uma equipe nômade. O pequeno e tradicional time de Porto Alegre vendeu seu antigo estádio na capital gaúcha e decidiu se mudar para Cachoeirinha, na região metropolitana, com o plano de erguer uma arena multiuso longe da concorrência de Grêmio e Internacional.

Mas a missão foi mais difícil que o previsto – seis anos depois, só 70% das obras foram concluídas. Rebaixado no campeonato estadual em março, o clube passou a procurar alternativas de financiamento, e agora aposta em uma saída tecnológica.

O Cruzeiro vai lançar uma ICO (oferta inicial de moedas, na sigla em inglês). O conceito é semelhante ao das IPOs, o momento em que uma empresa lança suas ações na bolsa de valores, mas com criptomoedas sendo oferecidas no lugar dos títulos.

Para ter acesso ao sistema, os investidores devem comprar tokens da Iconic, uma startup da capital gaúcha que fez parceria com o clube, utilizando “ether”, uma criptomoeda avaliada hoje em US$ 740 a unidade. O valor mínimo para entrar no projeto é de 0,1 ether, ou cerca de R$ 263.

Como contrapartida ao investimento, os usuários terão a chance de interferir diretamente em todos os aspectos da gestão do Cruzeiro, definindo desde questões estéticas, como a cor dos uniformes alternativos, a até mesmo aspectos cruciais para o sucesso da equipe – como a escalação, as substituições e, inclusive, as transferências dos atletas.

O projeto, ainda em elaboração e sujeito a diversos riscos financeiros, foi batizado de Cruzeiro Open Source, e a promessa é transformar os investidores em gamers da vida real.

Futebol com algoritmos

“Por trás de cada decisão, que vai ser levada para a coletividade dos gamers, vão existir algoritmos que conferem maior peso aos usuários que conseguiram demonstrar anteriormente a sua capacidade de decisão”, explica Jonathan Darcie, diretor-executivo da Iconic.

O peso dos votos deve levar em consideração tanto a quantidade de tokens (tamanho do investimento) de que dispõe o usuário quanto a competência demonstrada por sua escolhas anteriores.

“A ideia é que os votos tenham peso qualificado, para evitar que se tomem decisões descompromissadas como, por exemplo, escalar um centroavante para jogar de goleiro. Algoritmos de decisão, quando bem desenvolvidos, filtram esse tipo de ocorrência”, garante.

Na prática, a ingerência dos apoiadores será quase total, até onde as regras do esporte permitirem. Influenciar nas substituições, por exemplo, pode ser difícil: “Existem algumas restrições ligadas a partidas em curso, sobre comunicações do técnico com pessoas externas”, admite Darcie.

O restante, porém, estaria nas mãos dos gamers, inclusive a escalação inicial e a disposição tática. “O técnico continua tendo um papel muito importante: ele tem a responsabilidade de fazer com que as decisões dos usuários aconteça da melhor forma possível, fazendo os ajustes durante o jogo“, diz.

Outro ponto ainda em desenvolvimento é a maneira como a ferramenta de transferências vai funcionar, mas é certo que os usuários terão voz nas negociações.

Para o lado dos investidores, o retorno viria pela suposta valorização da própria moeda adquirida para poder controlar o time. Nesse caso, entram em cena as clássicas leis de mercado.

“O token vai se valorizar conforme houver maior demanda para participar da gestão do clube. Se 10 mil pessoas comprarem moedas nessa oferta inicial, quando a ferramenta se popularizar ainda mais elas poderão revender com uma grande valorização no momento em que houver, por exemplo, 150 mil interessados”, explica o diretor-executivo da Iconic.

Com o Open Source, o clube pretende arrecadar em torno de R$ 60 milhões para financiar tanto o restante das obras da Arena Cruzeiro quanto a implementação da tecnologia – uma das bases do projeto é a instalação de câmeras em ângulos variados para que os investidores acompanhem os treinamentos e jogos em tempo real.

Divulgada em inglês, a plataforma busca atrair interesse internacional: “Queremos mostrar que existe uma forma de nos relacionarmos que não é só de torcida, mas também de participação, de ingerência, que permitirá ao Cruzeiro ter seguidores na Ásia, África, Europa, em qualquer lugar do mundo”, diz Darcie.

Investidores devem conhecer mercado

Para especialistas no mercado da criptomoeda, investimento na proposta do Cruzeiro seria uma aposta ainda um pouco às cegas, já que esse é um mercado quase que inédito.

“Quando um investidor compra um token emitido por uma empresa ou um clube de futebol, ele está na verdade comprando uma pequena participação numa nova rede econômica que pode vir a crescer muito, ou pode vir a desmoronar”, explica Michael Araki, professor do Departamento de Empreendedorismo e Gestão na Universidade Federal Fluminense, que estuda moedas digitais.

“Fazendo uma analogia, seria como comprar um lote de terreno em uma cidade que está para ser construída. Quanto mais pessoas migrarem para lá, mais seu terreno valerá, mas não custa lembrar que seu terreno está vinculado à prosperidade dessa cidade”.

Na visão do pesquisador, o fato de a iniciativa partir de um clube de futebol pode ser um diferencial importante em relação a outras ICOs.

“Clubes esportivos já contam com uma comunidade de torcedores que tende a ser fiel e não tende a ficar especulando com o token do clube”, analisa. “Mas é preciso ter cuidado com a segurança e manutenção do valor do token. Resta saber se a equipe envolvida está consciente das implicações e se terá a capacidade de criar uma rede econômica própria que realmente seja interessante para os ‘torcedores-investidores’“.

Para Renato Rochman, coordenador do mestrado em Engenharia Financeira da Fundação Getúlio Vargas, os interessados devem estar conscientes dos riscos inerentes à nova tecnologia.

“A emissão via ICO é o meio mais fácil de captar recursos sem emitir uma ação ou um título de dívida. Criar uma moeda não é complicado. A questão é como remunerar as pessoas, qual a estratégia do projeto, que tipo de amparo legal têm os investidores”, alerta. “Os ICOs são novos no Brasil, e uma grande dúvida ainda é: se houver algum problema, como a Justiça vai encarar isso?

Tradição e pioneirismo

Fundado em 1913 e campeão gaúcho 16 anos mais tarde, o Cruzeiro foi considerado a terceira força do Rio Grande do Sul até meados dos anos 50.

Sempre correndo atrás da popularidade Grêmio e Internacional, mas com frequência derrotando os dois gigantes em campo, o “estrelado” tornou-se famoso pelo seu pioneirismo: em 1953, foi o primeiro clube gaúcho a excursionar pela Europa, chegando a empatar com o Real Madrid de Di Stéfano. O vídeo daquele jogo é um dos trunfos usados na campanha para apresentar o Cruzeiro ao público europeu.

“Quando nós apresentamos esse projeto internamente, eu até imaginava encontrar alguma resistência, até porque temos muitos sócios de mais idade”, relata Paulo Doering, presidente do conselho deliberativo do clube.

“Mas acabou sendo o contrário: os membros da direção entenderam o potencial da ideia e viram como uma chance de preservar o legado do Cruzeiro, sendo novamente pioneiros.”

A plataforma virtual fez o clube deixar de lado a ideia de ceder parte das categorias de base a empresários, estratégia comum em clubes do interior, que vinha sendo cogitada como maneira de angariar recursos para concluir as obras.

O uso da tecnologia é encarado como uma maneira de atrair um público jovem e renovar a torcida do clube, que foi diminuindo ao longo das décadas. Nos anos 40, o Cruzeiro possuía o maior estádio privado de Porto Alegre e regularmente registrava públicos próximos a 10 mil pessoas.

Em 2018, ainda sem concluir sua nova arena e precisando jogar em um estádio alugado na cidade vizinha de Gravataí, o time foi rebaixado com uma média de público de apenas 464 pagantes por jogo.

“Aqui no Estado, nós temos o fenômeno da ‘grenalização’: os dois grandes clubes da capital foram sugando o interesse pelas demais equipes. Com o passar dos anos, o Cruzeiro perdeu espaço e a torcida não se renovou“, lamenta Doering.

Situada a 18 quilômetros de Porto Alegre, Cachoeirinha foi escolhida como a sede para o recomeço, uma maneira de se afastar da concorrência direta da dupla Gre-Nal. Mas a demora nas obras da nova arena vinha adiando o processo. “Nós teríamos uma dificuldade muito grande de tocar o projeto atual adiante sem o aporte de investidores”, destaca.

Ainda longe das disputas em nível nacional, o elenco profissional do Cruzeiro só deve voltar a campo neste ano para a disputa da Copa da Federação Gaúcha de Futebol, no segundo semestre. Mas seu próximo grande objetivo será apenas em 2019, com a tentativa de retornar à elite estadual pela Divisão de Acesso.

O longo hiato até o início do campeonato vai servir para aperfeiçoar a tecnologia e também habituar os futuros profissionais do clube à nova realidade – como o time está sem jogar desde março, boa parte do grupo foi para outros clubes.

“Queremos arregimentar forças para voltar a ser uma terceira força do Estado e, com esse pioneirismo, quem sabe até assumir a liderança em algum outro ramo”, acredita o presidente do conselho.

Desafios da mudança

A ideia de oferecer o controle de um clube de futebol real para usuários virtuais não é inédita. Em 2008, o portal Meu Time de Futebol (MTDF) buscou algo semelhante – com o plano ambicioso de adquirir o controle do Juventus, de São Paulo, o projeto acabou se limitando a refundar o Maguary, um pequeno clube cearense, e chegou ao fim em apenas quatro anos.

Para Jonathan Darcie, o Cruzeiro Open Source corrige algumas das falhas de iniciativas anteriores nesse mesmo estilo. O projeto parte do próprio clube, e não de fora para dentro, e já começa com a premissa de que os interessados devem investir na plataforma.

No MTDF, o grande interesse inicial não se reverteu em recursos reais: dos mais de 100 mil inscritos originalmente, apenas 0,5% investiram alguma quantia quando chegou a hora. “Outro diferencial é o próprio Cruzeiro: não é um clube surgido apenas para o projeto. Ele existe, já está jogando competições, tem uma história centenária”, argumenta.

O clube espera que a plataforma também ajude na aproximação com a população de Cachoeirinha, um relacionamento que está apenas no início – o time profissional, afinal, ainda não atuou na cidade, e toda a trajetória anterior do Cruzeiro foi construída em Porto Alegre.

Queremos que seja um aspecto de inclusão social, que o clube seja parte da comunidade”, diz Paulo Doering. “Com essa plataforma, o Cruzeiro levará o nome de Cachoeirinha para o mundo inteiro, e vai poder ser acompanhado até mesmo por quem não vai ao estádio”, promete.

Ciberia // BBC

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Catalunha: Parlamento aprova resolução que pede fim da monarquia

Segundo o Diário de Notícias, o primeiro-ministro espanhol já anunciou medidas legais contra a resolução aprovada na Catalunha. O governo espanhol empreenderá medidas legais contra o Parlamento catalão por considerar “inadmissível” a resolução aprovada pelos deputados …

Derrota histórica dos aliados de Angela Merkel põe em jogo estabilidade do governo alemão

Os aliados conservadores da chanceler Angela Merkel perderam a maioria absoluta no parlamento estadual da Baviera por larga margem na eleição regional que ocorreu neste domingo (14), um resultado que pode causar mais turbulência dentro …

Dia do Professor: Bolsonaro afirma que vai "resgatar o respeito em sala de aula"

O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, afirmou nesta segunda-feira (15), Dia do Professor, que pretende valorizar a categoria e resgatar o respeito em sala de aula. Lembrando que é formado em educação física, ele …

Tesla terá uma bebida própria (quando começar a ter lucro)

Carros elétricos, baterias, telhas fotovoltaicas e a Tesla não fica por aqui. Assim que começar a ter lucro, a marca vai começar a produzir uma bebida própria. A Tesla de Elon Musk não só produz automóveis elétricos, alimentados …

Fundador da Ethereum prevê uma crise financeira até 2021

Vitalik Buterin, fundador da Ethereum, não é um entendido em economia global, mas prevê uma crise financeira até 2021. Vitalik Buterin, o prodígio de programação de apenas 24 anos que inventou a plataforma Ethereum aos 19 anos, …

Ossadas contam história de criança neandertal devorada por pássaro gigante da Era do Gelo

Arqueólogos descobriram os restos humanos mais antigos já encontrados na Polônia. Análises posteriores revelaram serem de uma criança neandertal que teria sido devorada por um pássaro gigante. Apesar de as ossadas terem sido recuperadas já há …

Haddad: liberdade religiosa deve ser garantida no país

O candidato à Presidência da República, Fernando Haddad (PT), disse neste domingo (14), em São Paulo, que a liberdade religiosa no país tem que ser garantida e que sua preocupação é manter o Estado brasileiro …

Menina de 10 anos sobrevive a ameba que "come cérebros"

Uma menina de 10 anos sobreviveu ao primeiro caso na Espanha de Meningoencefalite Amebiana Primária (MAP), uma doença mortal em 97% dos casos. Uma criança de 10 anos, de Toledo, na Espanha, conseguiu sobreviver a uma …

Brasil é ouro e prata na Olimpíada Internacional de Economia

Estudantes brasileiros trouxeram duas medalhas de ouro e duas de prata da Olimpíada Internacional de Economia (IEO, na sigla em inglês). Com o desempenho, a equipe conquistou o terceiro lugar no ranking geral. Os vencedores foram …

Trump diz que Putin está “provavelmente” envolvido em assassinatos e envenenamentos

As declarações do presidente dos Estados Unidos foram proferidas durante uma entrevista ao programa “60 minutos”, da CBS News. Donald Trump admitiu neste domingo (14) que o presidente russo Vladimir Putin está “provavelmente” envolvido em …