Megaerupção na Islândia foi tão brutal que “destruiu” os deuses nórdicos

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Erupção do vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, em 2010

Há um poema medieval islandês que conta como os deuses nórdicos Thor, Loki e Odin, foram destruídos para dar origem ao renascimento do mundo. Uma equipe de cientistas descobriu que o relato pode não ser uma mera fábula poética, mas a descrição da maior erupção vulcânica ocorrida na Islândia.

O poema “Völuspá” (“A profecia do vidente”, em português), faz parte da tradição islandesa, mas até agora sempre tinha sido encarado como uma mera lenda sobre o renascimento do mundo, com base na ideia da destruição de deuses nórdicos como Thor, Loki e Odin, famosos pelos filmes baseados nos personagens da Marvel.

Mas uma equipe internacional de pesquisadores apurou que o poema pode se referir a eventos reais, relatando as consequências trágicas da megaerupção do vulcão Eldgjá, fenômeno que teria contribuído para destruir a fé dos islandeses nos seus deuses, levando-os a se virarem para o Cristianismo.

Ao analisar “registros do núcleo de gelo da Groenlândia que preservam a precipitação vulcânica do Eldgjá” e os “anéis de árvores”, os cientistas conseguiram datar com precisão a que teria sido a maior erupção vulcânica da Islândia, nos dois últimos milênios, conforme explica em comunicado a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que participou do estudo.

A erupção do Eldgjá teria começado na Primavera de 939 e continuado até o outono de 940. O poema “Völuspá” teria sido escrito cerca de 20 anos depois e seria o único relato direto conhecido da megaerupção vulcânica que afundou a Islândia em 20 quilômetros cúbicos de lava, referem os cientistas no artigo científico publicado esta semana no jornal Climatic Change.

Ao determinar uma “data concreta para a erupção”, é possível encontrar “muitos registros em crônicas medievais que se encaixam como consequências prováveis do vulcão Eldgjá”, desde “avistamentos de uma neblina atmosférica extraordinária na Europa”, a “invernos severos” e “verões frios e colheitas pobres“, até a “escassez de alimentos”, como afirma o vulcanologista Clive Oppenheimer, do Departamento de Geografia da Universidade de Cambridge, e um dos autores do estudo.

Salientando “o estilo de uma quase testemunha ocular em que a erupção é retratada no Völuspá”, Oppenheimer constata que “a interpretação do poema como uma profecia do fim dos deuses pagãos e da substituição pelo único Deus sugere que as memórias da terrível erupção vulcânica foram provocadas para estimular a cristianização da Islândia“, acrescenta.

Efeitos devastadores

A megaerupção ocorreu algumas décadas depois de a Islândia ter sido colonizada por vikings e celtas e teria tido efeitos “devastadores para a jovem colônia”, como destaca o historiador de literatura medieval Andy Orchard, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Muito provavelmente, a terra foi abandonada e a fome foi severa“, refere.

O poema islandês fala do “sangue vital de homens condenados” e nota como “o Sol começa a escurecer, a terra afunda no mar; as estrelas brilhantes se espalham pelo céu” e “o vapor jorra com o que alimenta a vida, a chama voa alto contra o próprio céu”.

Um relato poético, mas muito semelhante ao que os cientistas acreditam que pode ter acontecido. A erupção teria causado “uma neblina de poeira sulfurosa” que se espalhou pela Europa, com o Sol assumindo uma tonalidade “vermelho sangue”, e mais fraca, como é relatado em documentos medievais da época, em países como a Irlanda, a Itália e a Alemanha, que também detalham fome e seca, que teriam sido resultado do fenômeno.

“Sofrimento humano generalizado”

O evento, que ocorreu no século X, é conhecido como “uma inundação de lava”, ou seja, “um tipo raro de erupção vulcânica prolongada em que enormes fluxos de lava engolem a paisagem”, sendo acompanhados por “uma névoa de gases sulfurosos”, explicam os autores do estudo.

Um fenômeno semelhante foi verificado na Islândia entre agosto de 2014 e fevereiro de 2015, com a erupção do Bárðarbunga emitindo grandes volumes de dióxido sulfúrico que chegaram a afetar “a qualidade do ar a 1.400 quilômetros de distância, na Irlanda”, explica a Universidade de Cambrige.

Mas os efeitos do Eldgjá foram muito mais trágicos, dando início a consequências que vão do norte da Europa ao norte da China, como atesta o cientista Tim Newfield, da Universidade de Georgetown, nos EUA.

O pesquisador, que também esteve envolvido no estudo, fala de um “sofrimento humano generalizado“, salientando que “as pessoas viveram longos e rígidos invernos, e secas severas na primavera e no verão”.

Havia “infestações por gafanhotos e mortalidade de animais”, acrescenta Newfield. “A fome não se instalou por todo lado, mas no início dos anos de 940, lemos sobre a escassez e grande mortalidade em partes da Alemanha, do Iraque e da China“, revela.

“Em 940, o esfriamento do verão foi mais perceptível no centro da Europa, na Escandinávia, nas Montanhas Canadenses, no Alasca e na Ásia Central, com as temperaturas médias do verão abaixo de 2º“, destaca ainda o professor Markus Stoffel, da Universidade de Genebra, na Suíça, que também participou do estudo.

Ciberia // ZAP

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